Abril é o mês da caça no Brasil. Foi neste mês que, em 1945,
nossos poderosos vetores do Senta a Pua realizaram a maior série de ataques aéreos
da história de nossa FAB, despejando toneladas de bombas, balas e foguetes sobre
o inimigo, deixando sua marca
gravada em fogo no solo italiano.
E foi no dia 22 de abril que este esforço hercúleo atingiu
seu ápice, com a realização de
44 surtidas. Nossos
P-47 Thunderbolt atacaram e destruíram
inúmeros veículos inimigos, a esta altura tentando fugir pelo Vale do Pó em
direção ao
Passo do Brenner, saindo da Itália para a Alemanha. Dada a precisão das
armas brasileiras, muitos nunca chegariam lá.
O
Dia Nacional da Aviação de Caça é celebrado anualmente
pela Força Aérea Brasileira na
Base Aérea de Santa Cruz, sede do
1º Grupo de
Caça e berço da aviação de caça brasileira. É um evento que mistura comemorações
oficiais com reuniões menos formais dos veteranos avestruzes do Senta a Pua. E é
isso que faz dele tão inesquecível.
Quase sete décadas depois do fim da Segunda Guerra Mundial,
qualquer um ainda pode ir ao Rio de Janeiro e dividir momentos de conversa com
nossos veteranos – jovens que estiveram lá e protagonizaram aqueles eventos –
hoje senhores de idade dotados de uma invejável jovialidade.
Tomei o voo para o Rio de Janeiro no dia 20 de abril,
chegando lá por volta das 17h. Já tinha reservado meu quarto no hotel do
Clube da Aeronáutica, que é onde acontece anualmente o
Almoço dos Veteranos.
Reencontrei meus amigos
Eduardo Seyfert, professor de
anatomia humana na UFCG e
Celso Menezes, roteirista da
graphic novel Jambocks,
ambos grandes entusiastas do Senta a Pua. Celso deu-nos a boa notícia de que o
volume 2 da Jambocks está passando pela revisão final, e deverá ser lançado no
começo do mês de junho, portanto, aguardem que coisa boa vem por aí!
No dia seguinte, bem cedo, levantei para fazer uma visita ao
Monumento aos Mortos na Segunda Guerra Mundial, que é uma parada obrigatória para
qualquer um passando pelo Rio de Janeiro. Lá estão enterrados os restos mortais
dos quase 500 soldados brasileiros que perderam a vida em combate nos campos
italianos. Lá também queima a chama eterna em homenagem a estes bravos que
tombaram em defesa do Brasil. Reservei um momento para prestar meus respeitos a
estes bravos.
Em seguida, foi hora de retornar ao Clube da Aeronáutica,
pois às 11h sempre acontece a Missa do Caçador, uma celebração católica em
nome dos 9 pilotos brasileiros que perderam a vida na guerra. Desta vez, a
missa aconteceu no hangar do III COMAR, logo ao lado do Clube, um ambiente
amplo e apropriado, belissimamente decorado com o símbolo da FAB.
Chegamos cedo e pudemos receber os veteranos um a um, à
medida que chegavam. O nosso querido Brigadeiro Rui Moreira Lima chegou
acompanhado da esposa Dona Julinha, e deu-me um abraço de boas-vindas. Fiquei
feliz por vê-lo em bom estado de saúde, pois ele completará 93 anos em junho. Em seguida, o “caçula”
do grupo, Brigadeiro José Meira de Vasconcelos, que sempre nos espanta por
parecer muito mais jovem do que é, também chegou. Mas a surpresa maior foi
realmente a presença de um terceiro piloto Jambock no recinto: o Major John
Buyers. Embora não oficialmente um membro do 1º Grupo de Caça, já que este
mineiro de Juiz de Fora era filho de americanos e ingressou na USAAF durante a
guerra, Buyers é um dos nossos porque, na qualidade de oficial de ligação de
Nero Moura com a 12ª Força Aérea – e não tendo qualquer obrigação operacional
conosco – voou 22 missões de combate com o Senta a Pua por pura solidariedade e
companheirismo, devido à falta de pilotos de recompletamento.
Não posso deixar de mencionar a presença dos nossos
veteranos de terra, que desempenharam as vitais funções de apoio para que os P-47s
voassem: José Varela, Ferreirinha, Alvarenga, Sebastião Miniró, e outros, sem
esquecer da presença distinta do Capitão Osias Machado, auxiliar de operações
do Grupo e organizador das comemorações atualmente.
Seguimos para o salão do almoço, já decorado com as
bandeiras da caça e fotos do Grupo na Itália. Lá, distribuídos em diversas
mesas se encontravam muitos parentes e amigos dos veteranos, além dos próprios.
Numa mesa no centro do ambiente, sentaram-se Rui, Meira e Buyers, rodeados
pelos atuais comandantes dos esquadrões de caça da FAB e o presidente do Clube,
Brigadeiro Batista.
Após o tradicional discurso do Brigadeiro Rui, foi puxado o “Carnaval em Veneza”, canção temática e hino do 1º Grupo de Caça,
que é coroada ao fim por um sonoro “Senta a Pua! Brasil!” por todos os
presentes. Durante o saboroso almoço que se seguiu, coletei assinaturas para um
pôster que em breve doarei para o acervo do Museu da FEB em Belo Horizonte.
Ao almoço se seguiu uma tranquila tarde de bate-papo sobre aviação
no deque do Clube, que dá vista para a Baía de Guanabara com destaque para a
Ilha Fiscal e o Arsenal da Marinha. Foi quando pudemos conversar bastante com
Regina Maria Moura, filha de Danilo Moura, irmão do Brigadeiro Nero e também
piloto do Grupo.
Com este dia bem cheio, era hora de ir descansar porque a
viagem para Santa Cruz no dia seguinte seria muito longa – e começaria bem
cedo. Acertadamente, resolvemos alugar um carro para ir até a base. Explico:
num fato inédito, o dia seguinte, 22 de abril, começou com chuva no Rio de
Janeiro. Uma tempestade caiu no começo da manhã. Além disso, houve um atraso
totalmente injustificado do ônibus cedido pela FAB para transportar os
veteranos, seus familiares e amigos para a base. Este, aliás, é um ponto que
devo ressaltar e uma falha na coordenação da FAB quanto aos nossos veteranos da
caça. O ônibus veio quase duas horas atrasado e sub-dimensionado,
ocasionando que algumas pessoas acabaram ficando para trás por falta de espaço.
Mais uma vez, ainda bem que alugamos o carro, porque além de
chegar a Santa Cruz no horário certo, ainda poupamos lugares no ônibus dos
veteranos.
Dado o mal tempo, a cerimônia de formatura e a entrega das
Medalhas Nero Moura deram-se dentro do hangar do Zeppelin. Notamos que no
palanque havia apenas duas cadeiras – destinadas aos brigadeiros Rui e Meira –
e não três. Ora, John Buyers estava lá, então por que não deveria sentar-se no
palanque? Fizemos a pergunta ao Brigadeiro Rui, que disse: “Chamem ele pra cá
oras!” Evidentemente, o cerimonial havia deixado-o de lado.
Peguei uma cadeira da platéia e coloquei no palco, enquanto
o Eduardo chamava o Major Buyers para vir ao palanque. Foi quando fui
confrontado pelo responsável pelo cerimonial, que de maneira um pouco rude
questionou-me sobre a cadeira extra. Simplesmente respondi que estava seguindo
ordens do Brigadeiro Rui Moreira Lima. Nenhuma palavra mais...
Tudo resolvido, o Major Buyers foi condecorado com a Medalha
Nero Moura pelo Ministro da Defesa Celso Amorim, acompanhado pelo comandante da
FAB, Brigadeiro Juniti Saito.
Com a chuva cessando por volta do meio-dia, fomos para o
lado de fora para a realização da Cerimônia do P-47. É quando é feita a chamada
dos pilotos mortos, com salva de tiros em honra e passagens baixas dos caças
Northrop F-5M da FAB. Rui e Meira depositaram a coroa de flores no túmulo de
Nero Moura acompanhados de Amorim e Saito, erguendo em seguida a bandeira
nacional, ao som de “Carnaval em Veneza” tocado pela banda da base.
O Coronel-Aviador Arnaldo, comandante da BASC, convidou então
a todos para seguirem para o salão para o tradicional coquetel. Este é momento
culminante do dia, de maior descontração, onde os convidados podem conversar
com pilotos da caça e outras autoridades presentes.
Um pouco mais tarde, Eduardo, Celso e eu fomos convidados
para conhecer o cassino dos oficiais do 1º Grupo de Caça, que é a sala de descanso
dos pilotos, bem como o Salão Histórico da unidade, que guarda diversas relíquias
interessantíssimas.
Dia encerrado, voltamos para o Rio de Janeiro no fim da
tarde.
O Dia Nacional da Aviação de Caça é uma data que não deveria
ser perdida por nenhum entusiasta da história militar brasileira e nossa aviação
na guerra. Lá, você é dominado pela atmosfera histórica do Senta a Pua,
convivendo com seus protagonistas e revivendo histórias de vida e combate que
poucos neste país têm conhecimento (infelizmente).
Se você pode, não deixe de participar; esta é minha dica. Honre
nossos veteranos enquanto ainda é tempo, e também prepare-se para muita diversão!
Senta a Pua! Brasil!
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| Monumento aos Mortos na Segunda Guerra Mundial |
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| Um dos dois canhões alemães Krupp 88mm que guardam o monumento. |
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| A famosa escultura representando as três forças. |
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| Com o Brigadeiro José Meira de Vasconcelos. |
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| Com o Major John Buyers e sua esposa. |
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| Capitão Osias e Brigadeiro Rui. |
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| Ferreirinha, do pelotão de guarda do Senta a Pua. |
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| Brigadeiro Rui, nosso simpático patrono. |
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| Capitão Osias, o organizador! |
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| Dentro do hangar do Zeppelin na Base Aérea de Santa Cruz. |
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| Rui e Meira no palanque. |
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| E agora sim, Buyers se junta a eles. |
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| Major Buyers recebe a Medalha Nero Moura. |
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| Eduardo Seyfert, Celso Menezes, John Buyers, eu, Tenente Gouvea. |
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| Cerimônia do P-47. |
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| Sebastião Miniró, o homem que desenhava os brasões do Senta a Pua nos P-47s. |
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| Brigadeiro Rui e a Guarda de Honra da BASC. |
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| Eduardo Seyfert, Celso Menezes e eu, junto ao P-47 do Tenente Lima Mendes. |
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