O Rio de Janeiro é o berço de nossa história militar.
Enquanto capital nacional – durante a Colônia, Império e grande parte da
República – era lá que as grandes decisões eram tomadas, os grandes oficiais
viveram e os grandes quarteis ficavam.
O resultado disso tudo é que o Rio de Janeiro hoje guarda
tesouros quase secretos que não podem ser encontrados em nenhum outro lugar do
nosso Brasil. E para o amante da história das guerras, a cidade é um prato
cheio.
Bom, hoje vou falar um pouco sobre uma visita recente que
fiz a um lugar que fica fora das vistas e principais roteiros turísticos da
capital carioca, mas que guarda um verdadeiro rol de tesouros da nossa história
bélica: o Museu Militar Conde de Linhares.
Localizado na Av. Pedro II, 383, no Bairro São Cristóvão, o
museu foi inaugurado em 1998, e ocupa uma grande área construída na década de
1920, que foi sede de diversas unidades do Exército Brasileiro até 1996. Hoje
comandado pelo Coronel Antonino Brum, o Conde de Linhares está bem organizado e
com um acervo bem cuidado, iniciando também um profundo processo de reformas
que lhe dará ainda mais qualidade.
Chegar ao Museu não é muito difícil, mas realmente o bairro
de São Cristóvão é um pouco distante dos conhecidos Copacabana, Ipanema e
Leblon. Chegando lá, fui recebido pela guarnição do local, que prontamente
direcionou-me para o guichê, onde o visitante paga um taxa módica (eu paguei
apenas 2 reais) para realizar a visitação.
A exposição começa com uma mostra de armas do nosso período
colonial, passando pela Independência e primeiras décadas do Império. Ali
podemos ver diversos mosquetes, pistolas, canhões e espadas que foram
testemunhas da nossa evolução militar ao longo do século XIX. O destaque vai
para o canhão de sítio Whitworth 32, de 105 mm, fabricado na Inglaterra e usado pelo
Brasil na Guerra do Paraguai e na Guerra de Canudos. O visitante pode também
ver um projétil desses canhões, e imaginar o impacto daquele petardo nos
inimigos do nosso Exército.
Há também no acervo uma impressionante chapa de aço do
couraçado Alagoas, da Marinha do Brasil, que, com seus 8 cm de espessura, conta-nos
em primeira mão como era feita a couraça defensiva das belonaves dois séculos atrás.
É como tocar a história, literalmente.
A seguir, somos apresentados às primeiras armas automáticas do
Exército, na forma de grandes metralhadoras giratórias cujo uso hoje só podemos
imaginar. Mas confesso que me peguei imaginando aqueles monstros em ação, e o
choque daqueles que as enfrentavam em combate.
Chega-se então a um grande salão, onde estão expostas
diversas peças de nossa artilharia, desde fins do século XIX até outras
aposentadas há poucos anos. Há de tudo um pouco: artilharia de campanha, antitanque,
antiaérea, rifles, pistolas, bazucas, lança-chamas, e o que, na minha opinião,
coroa o recinto: dois tanques precursores de nossa força blindada.
O primeiro deles é um Renault FT-17, carro francês que se
tornou um dos mais conhecidos da Primeira Guerra Mundial, e que se tornou o
primeiro blindado do Exército Brasileiro, que adquiriu 12 unidades em 1920. Armado
com uma metralhadora 7,92 mm
e com tripulação de duas pessoas, este pequeno e “estreito” carro foi o
fundador de nossa escola de cavalaria blindada, introduzindo o país na guerra
moderna. Foram finalmente desativados em 1942, quando foram substituídos pelos
M-4 Sherman (e para aqueles que comentaram “nossa, mas o Brasil usou um tanque
da Primeira Guerra até 1942!”, saibam que os franceses ainda os usavam em 1940,
e os alemães os utilizaram em combates de rua em 1944!).
O outro tanque a que me referi é um pequenino Fiat Ansaldo
L3/35, cujo lote de 23 exemplares foi adquirido da Itália em 1938, sendo
utilizados no Brasil até 1945. Este pequeno veículo, de dois tripulantes e
armado com duas metralhadoras, foi o primeiro que, com sucesso, equipou uma
unidade de cavalaria blindada em nosso Exército, tendo inclusive o General Plínio Pitaluga
– então 1º Tenente – comandado uma unidade deles em Recife em 1942. Conhecendo
também o histórico desses carros, no próprio Regio Esercito italiano – que os
utilizou na invasão da Abissínia em 1935 e no deserto norte-africano durante a
Segunda Guerra Mundial – não pude deixar de passar longos momentos imaginando
como este pequenino L3/35 havia participado de combates em regiões tão longínquas.
Saindo do primeiro prédio, adentrei a Sala da Major Elza Cansanção,
enfermeira da FEB. O acervo lá conta com as medalhas e uniformes da Major,
juntamente com bustos em bronze e um grande quadro com os retratos de todas as
73 enfermeiras brasileiras que foram para a Itália.
Cheguei finalmente ao salão da FEB! Decorado com fotos em
alta-resolução nas paredes, o salão é dotado de muitas vitrines onde estão contidos
diversos tipos de itens, desde uniformes, capacetes e bolsas até armas
italianas e alemãs. O visitante é saudado pela Canção do Expedicionário tocando
no sistema de som, e um pequeno documentário sobre a trajetória da Força Expedicionária
na Itália também é mostrado num telão, que fica posicionado logo acima de uma
maquete que mostra a conquista de Monte Castelo. Existe também um segundo salão,
com iluminação reduzida, na qual você passa por jipes, metralhadoras e canhões,
com luzes piscantes e sons de rajadas de fogo rápido e bombas caindo – fazendo com
que o visitante se sinta envolvido num cenário de combate da Segunda Guerra. Meus parabéns ao
museu por este trabalho.
Contudo, minha visita não estaria concluída sem uma visita
ao pátio dos blindados, na área externa do museu. Muitos veículos estão distribuídos
pelo pátio, retratando 70 anos de evolução tecnológica do nosso Exército.
À primeira vista, o que salta aos olhos é o canhão ferroviário
Bethlehem Steel de 177mm, comprado dos EUA em 1941 para reforçar as defesas do
Rio de Janeiro. Embora tenham sido adquiridos diversos exemplares, este é hoje –
no mundo todo – o único sobrevivente do modelo. E encontra-se em estado
absolutamente magnífico, devo dizer! Pude subir na peça, e olhar com detalhes
toda sua estrutura. Poucos sabem que existe um canhão deste tipo no Brasil, e
ainda mais em tão bom estado! É fantástico estar no mesmo lugar em que sua tripulação
esteve, durante a Segunda Guerra, pronta para defender nossa capital, se necessário.
Apenas um pequeno M-3 Stuart separa o gigantesco canhão ferroviário
de outra peça única e admirável do museu: nossa maior presa de guerra, um canhão
alemão Krupp K-18 de 170 mm!
Capturado por nossas tropas na Itália em 1945, um destes canhões foi responsável
pelo incessante bombardeio do quartel-general do Gen. Mascarenhas de Morais na
cidade de Porreta Terme, durante o inverno de 1944-45. Sua pintura é o padrão mediterrâneo
usado pelos alemães, que assemelha-se à cor de areia. E é realmente
impressionante estar ao lado dele, e saber que foi fabricado na Alemanha, tendo
disparado em fúria contra as tropas Aliadas na Itália, para ser capturado ao
fim da guerra por nossos soldados. Quanta história em uma única peça!
O pátio dos blindados ainda conta com outros tesouros de
nossa história militar, como um M-8 Greyhound (que equipou o Esquadrão de
Reconhecimento da FEB) e um M-4 Sherman. Diversos outros veículos e canhões –
que por falta de espaço não irei descrever aqui – também estão no acervo, e com
certeza irão te impressionar tanto quanto me impressionaram.
Como último detalhe, não poderia deixar de mencionar o Posto
de Comando Móvel do Gen. Mascarenhas de Morais na Itália, presente do Gen. Mark
Clark, que encontra-se também na exposição. Para qualquer apaixonado pela história
da FEB, ou mesmo qualquer brasileiro com interesse em nossa história, ver de
perto o carro em que “nosso chefe” passou aqueles turbulentos dias é uma experiência
fantástica. Só posso sugerir-lhes que vão lá e vejam por si próprios.
O Coronel Brum recebeu-me em seu escritório, onde pudemos
discutir sobre o acervo e seus planos para o futuro do museu. É ótimo saber que
uma pessoa tão concentrada e competente está à frente do Conde de Linhares e de
nosso tesouro histórico-militar. Dou-lhe meus parabéns pelo trabalho que está
sendo feito e pelos planos que está executando.
E concluo convidando todos vocês a passarem pelo Museu
Militar Conde de Linhares na próxima vez que estiverem no Rio de Janeiro. Vale
a pena – não tenham dúvidas. O que você verá lá não é encontrado em nenhum
outro lugar no Brasil!
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| Entrada do Museu Militar Conde de Linhares. |
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| Chapa de aço do couraçado Alagoas. |
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| Canhão de sítio Whitworth 32, 105 mm. |
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| Renault FT-17. |
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| Fiat Ansaldo L3/35. |
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| Frente do L3/35. |
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| Armamento italiano e alemão. |
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| Tanque M-41B. |
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| Canhão ferroviário Bethlehem Steel 177 mm. |
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| Canhão alemão Krupp K-18 170 mm, capturado pela FEB. |
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| Carros blindados no pátio. |
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| M-3 Stuart. |
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| M-4 Sherman. |
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| Canhão antiaéreo alemão Krupp 88 mm. |
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| Posto de Comando Móvel do Gen. Mascarenhas de Morais. |
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| Interior do Posto de Comando Móvel |
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2 comentários:
O que o EB fez em Canudos foi um tremanda covardia. Quanto ao Museu já visitei uma vez, eu moro pertinho, 30 minutos de carro.
que maneiro!! onde isso tem um museu? estou curiosidade
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