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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Uma visita ao Museu Militar Conde de Linhares



O Rio de Janeiro é o berço de nossa história militar. Enquanto capital nacional – durante a Colônia, Império e grande parte da República – era lá que as grandes decisões eram tomadas, os grandes oficiais viveram e os grandes quarteis ficavam.

O resultado disso tudo é que o Rio de Janeiro hoje guarda tesouros quase secretos que não podem ser encontrados em nenhum outro lugar do nosso Brasil. E para o amante da história das guerras, a cidade é um prato cheio.

Bom, hoje vou falar um pouco sobre uma visita recente que fiz a um lugar que fica fora das vistas e principais roteiros turísticos da capital carioca, mas que guarda um verdadeiro rol de tesouros da nossa história bélica: o Museu Militar Conde de Linhares.

Localizado na Av. Pedro II, 383, no Bairro São Cristóvão, o museu foi inaugurado em 1998, e ocupa uma grande área construída na década de 1920, que foi sede de diversas unidades do Exército Brasileiro até 1996. Hoje comandado pelo Coronel Antonino Brum, o Conde de Linhares está bem organizado e com um acervo bem cuidado, iniciando também um profundo processo de reformas que lhe dará ainda mais qualidade.

Chegar ao Museu não é muito difícil, mas realmente o bairro de São Cristóvão é um pouco distante dos conhecidos Copacabana, Ipanema e Leblon. Chegando lá, fui recebido pela guarnição do local, que prontamente direcionou-me para o guichê, onde o visitante paga um taxa módica (eu paguei apenas 2 reais) para realizar a visitação.

A exposição começa com uma mostra de armas do nosso período colonial, passando pela Independência e primeiras décadas do Império. Ali podemos ver diversos mosquetes, pistolas, canhões e espadas que foram testemunhas da nossa evolução militar ao longo do século XIX. O destaque vai para o canhão de sítio Whitworth 32, de 105 mm, fabricado na Inglaterra e usado pelo Brasil na Guerra do Paraguai e na Guerra de Canudos. O visitante pode também ver um projétil desses canhões, e imaginar o impacto daquele petardo nos inimigos do nosso Exército.

Há também no acervo uma impressionante chapa de aço do couraçado Alagoas, da Marinha do Brasil, que, com seus 8 cm de espessura, conta-nos em primeira mão como era feita a couraça defensiva das belonaves dois séculos atrás. É como tocar a história, literalmente.

A seguir, somos apresentados às primeiras armas automáticas do Exército, na forma de grandes metralhadoras giratórias cujo uso hoje só podemos imaginar. Mas confesso que me peguei imaginando aqueles monstros em ação, e o choque daqueles que as enfrentavam em combate.

Chega-se então a um grande salão, onde estão expostas diversas peças de nossa artilharia, desde fins do século XIX até outras aposentadas há poucos anos. Há de tudo um pouco: artilharia de campanha, antitanque, antiaérea, rifles, pistolas, bazucas, lança-chamas, e o que, na minha opinião, coroa o recinto: dois tanques precursores de nossa força blindada.

O primeiro deles é um Renault FT-17, carro francês que se tornou um dos mais conhecidos da Primeira Guerra Mundial, e que se tornou o primeiro blindado do Exército Brasileiro, que adquiriu 12 unidades em 1920. Armado com uma metralhadora 7,92 mm e com tripulação de duas pessoas, este pequeno e “estreito” carro foi o fundador de nossa escola de cavalaria blindada, introduzindo o país na guerra moderna. Foram finalmente desativados em 1942, quando foram substituídos pelos M-4 Sherman (e para aqueles que comentaram “nossa, mas o Brasil usou um tanque da Primeira Guerra até 1942!”, saibam que os franceses ainda os usavam em 1940, e os alemães os utilizaram em combates de rua em 1944!).

O outro tanque a que me referi é um pequenino Fiat Ansaldo L3/35, cujo lote de 23 exemplares foi adquirido da Itália em 1938, sendo utilizados no Brasil até 1945. Este pequeno veículo, de dois tripulantes e armado com duas metralhadoras, foi o primeiro que, com sucesso, equipou uma unidade de cavalaria blindada em nosso Exército, tendo inclusive o General Plínio Pitaluga – então 1º Tenente – comandado uma unidade deles em Recife em 1942. Conhecendo também o histórico desses carros, no próprio Regio Esercito italiano – que os utilizou na invasão da Abissínia em 1935 e no deserto norte-africano durante a Segunda Guerra Mundial – não pude deixar de passar longos momentos imaginando como este pequenino L3/35 havia participado de combates em regiões tão longínquas.

Saindo do primeiro prédio, adentrei a Sala da Major Elza Cansanção, enfermeira da FEB. O acervo lá conta com as medalhas e uniformes da Major, juntamente com bustos em bronze e um grande quadro com os retratos de todas as 73 enfermeiras brasileiras que foram para a Itália.

Cheguei finalmente ao salão da FEB! Decorado com fotos em alta-resolução nas paredes, o salão é dotado de muitas vitrines onde estão contidos diversos tipos de itens, desde uniformes, capacetes e bolsas até armas italianas e alemãs. O visitante é saudado pela Canção do Expedicionário tocando no sistema de som, e um pequeno documentário sobre a trajetória da Força Expedicionária na Itália também é mostrado num telão, que fica posicionado logo acima de uma maquete que mostra a conquista de Monte Castelo. Existe também um segundo salão, com iluminação reduzida, na qual você passa por jipes, metralhadoras e canhões, com luzes piscantes e sons de rajadas de fogo rápido e bombas caindo – fazendo com que o visitante se sinta envolvido num cenário de combate da Segunda Guerra. Meus parabéns ao museu por este trabalho.

Contudo, minha visita não estaria concluída sem uma visita ao pátio dos blindados, na área externa do museu. Muitos veículos estão distribuídos pelo pátio, retratando 70 anos de evolução tecnológica do nosso Exército.

À primeira vista, o que salta aos olhos é o canhão ferroviário Bethlehem Steel de 177mm, comprado dos EUA em 1941 para reforçar as defesas do Rio de Janeiro. Embora tenham sido adquiridos diversos exemplares, este é hoje – no mundo todo – o único sobrevivente do modelo. E encontra-se em estado absolutamente magnífico, devo dizer! Pude subir na peça, e olhar com detalhes toda sua estrutura. Poucos sabem que existe um canhão deste tipo no Brasil, e ainda mais em tão bom estado! É fantástico estar no mesmo lugar em que sua tripulação esteve, durante a Segunda Guerra, pronta para defender nossa capital, se necessário.

Apenas um pequeno M-3 Stuart separa o gigantesco canhão ferroviário de outra peça única e admirável do museu: nossa maior presa de guerra, um canhão alemão Krupp K-18 de 170 mm! Capturado por nossas tropas na Itália em 1945, um destes canhões foi responsável pelo incessante bombardeio do quartel-general do Gen. Mascarenhas de Morais na cidade de Porreta Terme, durante o inverno de 1944-45. Sua pintura é o padrão mediterrâneo usado pelos alemães, que assemelha-se à cor de areia. E é realmente impressionante estar ao lado dele, e saber que foi fabricado na Alemanha, tendo disparado em fúria contra as tropas Aliadas na Itália, para ser capturado ao fim da guerra por nossos soldados. Quanta história em uma única peça!

O pátio dos blindados ainda conta com outros tesouros de nossa história militar, como um M-8 Greyhound (que equipou o Esquadrão de Reconhecimento da FEB) e um M-4 Sherman. Diversos outros veículos e canhões – que por falta de espaço não irei descrever aqui – também estão no acervo, e com certeza irão te impressionar tanto quanto me impressionaram.

Como último detalhe, não poderia deixar de mencionar o Posto de Comando Móvel do Gen. Mascarenhas de Morais na Itália, presente do Gen. Mark Clark, que encontra-se também na exposição. Para qualquer apaixonado pela história da FEB, ou mesmo qualquer brasileiro com interesse em nossa história, ver de perto o carro em que “nosso chefe” passou aqueles turbulentos dias é uma experiência fantástica. Só posso sugerir-lhes que vão lá e vejam por si próprios.

O Coronel Brum recebeu-me em seu escritório, onde pudemos discutir sobre o acervo e seus planos para o futuro do museu. É ótimo saber que uma pessoa tão concentrada e competente está à frente do Conde de Linhares e de nosso tesouro histórico-militar. Dou-lhe meus parabéns pelo trabalho que está sendo feito e pelos planos que está executando.

E concluo convidando todos vocês a passarem pelo Museu Militar Conde de Linhares na próxima vez que estiverem no Rio de Janeiro. Vale a pena – não tenham dúvidas. O que você verá lá não é encontrado em nenhum outro lugar no Brasil!

Entrada do Museu Militar Conde de Linhares.

Chapa de aço do couraçado Alagoas.


Canhão de sítio Whitworth 32, 105 mm.



Renault FT-17.

Fiat Ansaldo L3/35.

Frente do L3/35.

Armamento italiano e alemão.

Tanque M-41B.

Canhão ferroviário Bethlehem Steel 177 mm.

Canhão alemão Krupp K-18 170 mm, capturado pela FEB.

Carros blindados no pátio.

M-3 Stuart.

M-4 Sherman.

Canhão antiaéreo alemão Krupp 88 mm.

Posto de Comando Móvel do Gen. Mascarenhas de Morais.

Interior do Posto de Comando Móvel


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2 comentários:

Evandro Moreira dos Santos. disse...

O que o EB fez em Canudos foi um tremanda covardia. Quanto ao Museu já visitei uma vez, eu moro pertinho, 30 minutos de carro.

KingRiderBR disse...

que maneiro!! onde isso tem um museu? estou curiosidade