
Como uma preparação para a viagem que irei empreender na próxima semana, vou começar os relatos (super atrasados) dos eventos aos quais compareci na Alemanha em 2010. Os textos também ficam como dica para aqueles que estejam planejando uma viagem pelo país e desejem ver algo relacionado à Segunda Guerra Mundial.
Pois bem.
Uma das melhores opções para viajar para a Alemanha é a nossa TAM. Com seus Boeing 777, ela faz voos diários partindo de Guarulhos para a Frankfurt, sempre no fim da noite. Uma vez dentro do (de certa forma, para a classe econômica) confortável avião, são 11h de voo até o destino. Refeições decentes e um bom sistema de entretenimento individual são marcas da aeronave.
A dica é: tentem pegar uma janela do lado direito, pois é desse lado que você poderá observar a costa norte-africana durante um belo nascer do sol a 10 mil metros de altitude. Vale muito a pena. Lá embaixo (e dependendo da rota escolhida no dia) pode-se ver o Marrocos e o Estreito de Gibraltar, a costa espanhola e, umas horas adiante, os Alpes do sul da França.
Pouso em Frankfurt no dia 7 de outubro, mais ou menos às 14h (já ajustado o fuso-horário), e partimos para a estação de trem. Explicando: a melhor maneira de se viajar pela Alemanha é usando a Deutsches Bahn – a companhia nacional de trens – que liga praticamente o país inteiro. Para seu conforto, o aeroporto de Frankfurt tem sua própria estação, localizada no nível do subsolo. Então, após pegar as malas, rumamos direto pra lá. Na viagem foi comigo Gilberto Ziebarth Jr., afilhado do ás alemão Martin Drewes, que é nosso “chefe” e organizador das viagens.
Comprando o ticket diretamente na loja da DB acima da estação, pegamos o trem (no sentido Wiesbaden) rapidamente (sempre andam no horário). Trens alemães são amplos e não andam muito cheios (exceto em ocasiões que irei tratar mais à frente). Uma viagem de uma cidade à outra geralmente requer troca de trens. Porém, isso é uma coisa simples de ser feita: repare no seu ticket onde está escrito “Gleis” (Plataforma) e o número. É a plataforma onde você pegará o próximo trem. Claro que o ticket também te informa onde você vai ter que descer do trem e que horas. Para facilitar, todas as estações de trem alemãs são praticamente iguais, então depois de uma primeira experiência você logo acostuma. Só tomem cuidado com alguns trens regionais que têm umas travas de porta realmente complicadas de abrir. Procure observar alguém fazendo e depois tente você.
Pegamos um trem de mais ou menos duas horas até Oestrich-Winkel, uma pequena cidade às margens do Reno, e próxima à Geisenheim, onde aconteceria o Encontro Internacional dos Pilotos (Internationales Fliegertreffen) no dia seguinte. Martin havia marcado para nós quartos no hotel Advena Jesuitengarten – que, aliás, recomendo. Fica ao lado do rio e tem uma janela panorâmica belíssima no restaurante.
Acho que o real encanto da Alemanha está nas cidades pequenas. É lá que você vai vivenciar o país, a beleza natural e os locais históricos. Portanto, fuja dos pacotes turísticos. Viaje por conta própria.
Oestrich-Winkel é uma cidade pequenina, vinicultora, e que oferece tem uma balsa ligando-a diretamente à Ingelheim, na outra margem do Reno. No dia seguinte, fizemos esse passeio. Muito recompensador, pois numa pequena loja esportiva encontramos uma réplica perfeita de um Stahlhelm (o capacete alemão) por um preço absurdamente módico. Na volta, aproximando-me do hotel, vejo um senhor de cabelos brancos cujo semblante reconheci instantaneamente: Dr. Fritz Marktscheffel, veterano do Sonderkommando Elbe – a unidade experimental da Luftwaffe que em 7 de abril de 1945 realizou um ataque de choque contra bombardeiros quadrimotores americanos. Quem acompanha o (questionável) “Combates Aéreos” do History Channel conhece o Dr. Marktscheffel do episódio “Luftwaffe – A missão mortal”. Já trocava mensagem com ele há alguns meses, e ele fez questão de ir até Oestrich-Winkel encontrar-se conosco. Por curiosidade, 8 de outubro era justamente o aniversário dele.
Quase que imediatamente (numa cena que parecia ter sido combinada hehe) Martin Drewes chegou de carro, e foi cumprimentado entusiasticamente por seu amigo Marktscheffel. Foi então que ajudamos com as bagagens e conversamos um pouco. Mas já estava na hora de nos aprontarmos para a noite.
Geisenheim é a cidade onde fica o monumento aos pilotos mortos em combate, de todas as nações. Uma torre bifurcada com duas águias que adornam o topo – ao lado do Reno. Nesta cidade, a cada dois anos, acontece o encontro. E como a cidade é minúscula, os participantes têm que ficar distribuídos em hoteis nas cidades vizinhas. Foi dessa maneira que a delegação brasileira acabou em Oestrich-Winkel. Ônibus são enviados para buscar os participantes em cada hotel.
Acho que fomos o segundo grupo a entrar no ônibus. Prosseguimos para outra cidade vizinha, onde embarcou a delegação russa, chefiava pelo Heroi da União Soviética, General Nikolai Antoshkin. Ele foi o comandante dos esforços aéreos que ajudaram a selar o reator de Chernobyl logo após a explosão em 1986. Outro conhecido meu a subir no ônibus foi o ás da Batalha da Inglaterra, Hans-Ekkehard Bob (que é feito de aço, não tenho dúvida).
Chegamos ao evento em Geisenheim, desta vez um restaurante, com diversas alas. As mesas, mais uma vez, identificadas com as bandeiras nacionais e insígnias de unidades. A nossa, portanto, tinha a bandeira brasileira e a insígnia do Nachtjagdgeschwader 1 (NJG 1), a unidade de caça noturna do Martin durante a guerra.
Geralmente, as primeiras noites dos eventos é chamada “caça livre”, onde você pode sair pedindo autógrafos para os veteranos. Então, como podem imaginar, é um vai-e-vem de gente pra todo lado. Tomando uma cervejinha perto da entrada estava Willi Desinger, ás de 7 vitórias e último piloto do JG 3. Como tínhamos nos conhecido no ano anterior, ele rapidamente me reconheceu e cumprimentou alegremente. Conversamos um bocado e ele me presenteou com uma cópia de seu diário de voo, constando todas as decolagens e pousos que fez na Luftwaffe, incluindo suas vitórias, enquanto pilotava o Me 109K-4 com o poderoso canhão de 30mm no nariz.
Pude rever também o ás de 81 vitórias e ganhador da Cruz do Cavaleiro Hugo Broch, com quem tivemos animada conversa. Hugo mantém-se com boa saúde, e talvez o vejamos no próximo encontro. Revi também meu caro amigo Theo Nau – o mais jovem piloto de Messerschmitt – sempre muito cavalheiro, e conhecemos o simpático Stefan Winzig, que voou torpedeiros Heinkel He 111 em diversas frentes. Compramos sua autobiografia que ele muito gentilmente autografou.
Confesso que realmente a grande surpresa foi a presença de ninguém menos que o ex-Presidente da Alemanha, Walter Scheel. Como todos que já leram “Sombras da Noite”, a autobiografia do Martin, já devem saber, os dois são grandes amigos desde a época da guerra, quando Scheel foi telefonista do III Grupo do NJG 1 (e posteriormente artilheiro de ré de uma das tripulações). Scheel, já com estrutura frágil e usando uma bengala para locomover-se, chegou e assentou-se ao lado do Martin, e foi muito interessante vê-los conversando e relembrando os velhos tempos. Muitas pessoas se aproximaram e pediram autógrafos ao velho presidente, que assinou com muita paciência.
Bom, fim de noite. Esperando o último ônibus, tivemos a oportunidade de trocar umas palavras com o General Antoshkin e o General Andreev. Como meu russo ainda se reduz às expressões básicas, tivemos o auxílio de seu tradutor, designado pela Luftwaffe para acompanhá-lo.
Chegamos ao hotel já perto da meia-noite, e o pessoal brasileiro se reuniu no saguão para um bate-papo de fim de expediente com Martin Drewes. O Major pede uma garrafa de champagne e vamos brindar aos amigos. Excelente dia!
Sábado de manhã começou bem cedo pra nós. Café da manhã com Karl-Fritz Schlossstein (3 “S” mesmo), ás de 9 vitórias do JG 5. Bate-papo extremamente interessante com esse simpático senhor, que fala inglês muito bem. Ele descreve sua primeira vitória, contra um Polikarpov soviético, de maneira tão vívida que quase puder “ver” a cena. Em seguida, pulando pro fim da guerra, ele faz uma revelação sensacional: “Estávamos em Berlim, e não dava pra ver nada com tanta poeira que tinha no ar [devido ao canhoneio da artilharia soviética]. Então recebemos a ordem de decolar [com Focke-Wulfs Fw 190] para escoltar o Marechal Greim...” Nesse ponto eu interrompi. “Só um instante, Sr. Schlossstein; o senhor está me dizendo que foi um dos Focke-Wulfs de escolta de Hanna Reitsch naquele último voo pra Berlim?” “Sim, sim.”
Passado o espanto momentâneo, deixei-o continuar a contar sua história. Mas que impressionante! Sem nem suspeitar, estava eu diante de um cara que testemunhou um momento histórico tão singular! Testemunhou não, fez parte dele! Que sorte...
Sem um destino determinado para ocupar o dia, acatamos uma sugestão e pegamos o trem para Rüdesheim, uma cidade turística a 20 minutos de trem. E puxa, que excelente sugestão viu!
Protegida pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade, Rüdesheim fica às margens do Reno, próxima a uma curva do rio, e possui excelentes cafés e restaurantes para todos os gostos. Fica no sopé de uma colina, em cujo cume se destaca ao longe o Niederwalddenkmal – o monumento à vitória alemã na Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871.
Vou parar o relato pra falar: se você está planejando viajar à Alemanha e passar pelos lados da Renânia e Hesse, é simplesmente uma parada OBRIGATÓRIA. O monumento é indescritivelmente belo e imponente, com quase 40 metros de altura. De lá, tem-se uma visão panorâmica da região, de tirar o fôlego. É inesquecível.
Você ascende ao monumento por um teleférico, que passa lentamente acima de imensas plantações de uva, que cobrem toda a face da colina. Lá embaixo, milhares de turistas lotam as ruas, principalmente Drosselgasse, recheada de lojas e restaurantes, e o castelo medieval Brömserburg (visitação gratuita!). A cidade também é palco regular de diversos eventos, entre eles a Gallustag, um festival medieval – que estava acontecendo quando estivemos lá. Comida, vestimentas e muitas armas medievais à venda. Diversão garantida e recomendada!
Contudo, de volta à Oestrich-Winkel, mais uma vez nos preparamos para o encontro. Agora, a cerimônia em honra dos pilotos mortos, no monumento em Geisenheim. Ônibus chega às 15:30h, e nos leva até o local. Com uma banda da Luftwaffe e um esquadrão de honra, a cerimônia é iniciada com toques solenes e a leitura dos nomes dos pilotos mortos durante o ano anterior. Em seguida, são colocadas as coroas de flores pela delegação de cada país presente, sendo o Brasil a primeira a fazê-lo.
Os ônibus levaram em seguida todos para um salão onde foi servido o banquete da noite de gala. Mais uma noite cheia de bate-papo e reencontros. Desta fez, somos chamados pelo General Antoshkin para um brinde com vodka. Detalhe: a vodka que ele mesmo produz e engarrafa! Aparentemente, na Rússia isso é meio que um costume entre celebridades.
Evento concluído, ônibus de volta pro hotel. O dia foi cheio e tudo que eu queria era dormir um pouco. No dia seguinte, bem cedo, teríamos que pegar o trem para Ingolstadt, na Bavária, o que significou praticamente cruzar o país de oeste pra leste. Lá visitamos o Flugwerk e a Fundação Messerschmitt. Mas isso fica pro próximo relato.
Até lá.
Pois bem.
Uma das melhores opções para viajar para a Alemanha é a nossa TAM. Com seus Boeing 777, ela faz voos diários partindo de Guarulhos para a Frankfurt, sempre no fim da noite. Uma vez dentro do (de certa forma, para a classe econômica) confortável avião, são 11h de voo até o destino. Refeições decentes e um bom sistema de entretenimento individual são marcas da aeronave.
A dica é: tentem pegar uma janela do lado direito, pois é desse lado que você poderá observar a costa norte-africana durante um belo nascer do sol a 10 mil metros de altitude. Vale muito a pena. Lá embaixo (e dependendo da rota escolhida no dia) pode-se ver o Marrocos e o Estreito de Gibraltar, a costa espanhola e, umas horas adiante, os Alpes do sul da França.
Pouso em Frankfurt no dia 7 de outubro, mais ou menos às 14h (já ajustado o fuso-horário), e partimos para a estação de trem. Explicando: a melhor maneira de se viajar pela Alemanha é usando a Deutsches Bahn – a companhia nacional de trens – que liga praticamente o país inteiro. Para seu conforto, o aeroporto de Frankfurt tem sua própria estação, localizada no nível do subsolo. Então, após pegar as malas, rumamos direto pra lá. Na viagem foi comigo Gilberto Ziebarth Jr., afilhado do ás alemão Martin Drewes, que é nosso “chefe” e organizador das viagens.
Comprando o ticket diretamente na loja da DB acima da estação, pegamos o trem (no sentido Wiesbaden) rapidamente (sempre andam no horário). Trens alemães são amplos e não andam muito cheios (exceto em ocasiões que irei tratar mais à frente). Uma viagem de uma cidade à outra geralmente requer troca de trens. Porém, isso é uma coisa simples de ser feita: repare no seu ticket onde está escrito “Gleis” (Plataforma) e o número. É a plataforma onde você pegará o próximo trem. Claro que o ticket também te informa onde você vai ter que descer do trem e que horas. Para facilitar, todas as estações de trem alemãs são praticamente iguais, então depois de uma primeira experiência você logo acostuma. Só tomem cuidado com alguns trens regionais que têm umas travas de porta realmente complicadas de abrir. Procure observar alguém fazendo e depois tente você.
Pegamos um trem de mais ou menos duas horas até Oestrich-Winkel, uma pequena cidade às margens do Reno, e próxima à Geisenheim, onde aconteceria o Encontro Internacional dos Pilotos (Internationales Fliegertreffen) no dia seguinte. Martin havia marcado para nós quartos no hotel Advena Jesuitengarten – que, aliás, recomendo. Fica ao lado do rio e tem uma janela panorâmica belíssima no restaurante.
Acho que o real encanto da Alemanha está nas cidades pequenas. É lá que você vai vivenciar o país, a beleza natural e os locais históricos. Portanto, fuja dos pacotes turísticos. Viaje por conta própria.
Oestrich-Winkel é uma cidade pequenina, vinicultora, e que oferece tem uma balsa ligando-a diretamente à Ingelheim, na outra margem do Reno. No dia seguinte, fizemos esse passeio. Muito recompensador, pois numa pequena loja esportiva encontramos uma réplica perfeita de um Stahlhelm (o capacete alemão) por um preço absurdamente módico. Na volta, aproximando-me do hotel, vejo um senhor de cabelos brancos cujo semblante reconheci instantaneamente: Dr. Fritz Marktscheffel, veterano do Sonderkommando Elbe – a unidade experimental da Luftwaffe que em 7 de abril de 1945 realizou um ataque de choque contra bombardeiros quadrimotores americanos. Quem acompanha o (questionável) “Combates Aéreos” do History Channel conhece o Dr. Marktscheffel do episódio “Luftwaffe – A missão mortal”. Já trocava mensagem com ele há alguns meses, e ele fez questão de ir até Oestrich-Winkel encontrar-se conosco. Por curiosidade, 8 de outubro era justamente o aniversário dele.
Quase que imediatamente (numa cena que parecia ter sido combinada hehe) Martin Drewes chegou de carro, e foi cumprimentado entusiasticamente por seu amigo Marktscheffel. Foi então que ajudamos com as bagagens e conversamos um pouco. Mas já estava na hora de nos aprontarmos para a noite.
Geisenheim é a cidade onde fica o monumento aos pilotos mortos em combate, de todas as nações. Uma torre bifurcada com duas águias que adornam o topo – ao lado do Reno. Nesta cidade, a cada dois anos, acontece o encontro. E como a cidade é minúscula, os participantes têm que ficar distribuídos em hoteis nas cidades vizinhas. Foi dessa maneira que a delegação brasileira acabou em Oestrich-Winkel. Ônibus são enviados para buscar os participantes em cada hotel.
Acho que fomos o segundo grupo a entrar no ônibus. Prosseguimos para outra cidade vizinha, onde embarcou a delegação russa, chefiava pelo Heroi da União Soviética, General Nikolai Antoshkin. Ele foi o comandante dos esforços aéreos que ajudaram a selar o reator de Chernobyl logo após a explosão em 1986. Outro conhecido meu a subir no ônibus foi o ás da Batalha da Inglaterra, Hans-Ekkehard Bob (que é feito de aço, não tenho dúvida).
Chegamos ao evento em Geisenheim, desta vez um restaurante, com diversas alas. As mesas, mais uma vez, identificadas com as bandeiras nacionais e insígnias de unidades. A nossa, portanto, tinha a bandeira brasileira e a insígnia do Nachtjagdgeschwader 1 (NJG 1), a unidade de caça noturna do Martin durante a guerra.
Geralmente, as primeiras noites dos eventos é chamada “caça livre”, onde você pode sair pedindo autógrafos para os veteranos. Então, como podem imaginar, é um vai-e-vem de gente pra todo lado. Tomando uma cervejinha perto da entrada estava Willi Desinger, ás de 7 vitórias e último piloto do JG 3. Como tínhamos nos conhecido no ano anterior, ele rapidamente me reconheceu e cumprimentou alegremente. Conversamos um bocado e ele me presenteou com uma cópia de seu diário de voo, constando todas as decolagens e pousos que fez na Luftwaffe, incluindo suas vitórias, enquanto pilotava o Me 109K-4 com o poderoso canhão de 30mm no nariz.
Pude rever também o ás de 81 vitórias e ganhador da Cruz do Cavaleiro Hugo Broch, com quem tivemos animada conversa. Hugo mantém-se com boa saúde, e talvez o vejamos no próximo encontro. Revi também meu caro amigo Theo Nau – o mais jovem piloto de Messerschmitt – sempre muito cavalheiro, e conhecemos o simpático Stefan Winzig, que voou torpedeiros Heinkel He 111 em diversas frentes. Compramos sua autobiografia que ele muito gentilmente autografou.
Confesso que realmente a grande surpresa foi a presença de ninguém menos que o ex-Presidente da Alemanha, Walter Scheel. Como todos que já leram “Sombras da Noite”, a autobiografia do Martin, já devem saber, os dois são grandes amigos desde a época da guerra, quando Scheel foi telefonista do III Grupo do NJG 1 (e posteriormente artilheiro de ré de uma das tripulações). Scheel, já com estrutura frágil e usando uma bengala para locomover-se, chegou e assentou-se ao lado do Martin, e foi muito interessante vê-los conversando e relembrando os velhos tempos. Muitas pessoas se aproximaram e pediram autógrafos ao velho presidente, que assinou com muita paciência.
Bom, fim de noite. Esperando o último ônibus, tivemos a oportunidade de trocar umas palavras com o General Antoshkin e o General Andreev. Como meu russo ainda se reduz às expressões básicas, tivemos o auxílio de seu tradutor, designado pela Luftwaffe para acompanhá-lo.
Chegamos ao hotel já perto da meia-noite, e o pessoal brasileiro se reuniu no saguão para um bate-papo de fim de expediente com Martin Drewes. O Major pede uma garrafa de champagne e vamos brindar aos amigos. Excelente dia!
Sábado de manhã começou bem cedo pra nós. Café da manhã com Karl-Fritz Schlossstein (3 “S” mesmo), ás de 9 vitórias do JG 5. Bate-papo extremamente interessante com esse simpático senhor, que fala inglês muito bem. Ele descreve sua primeira vitória, contra um Polikarpov soviético, de maneira tão vívida que quase puder “ver” a cena. Em seguida, pulando pro fim da guerra, ele faz uma revelação sensacional: “Estávamos em Berlim, e não dava pra ver nada com tanta poeira que tinha no ar [devido ao canhoneio da artilharia soviética]. Então recebemos a ordem de decolar [com Focke-Wulfs Fw 190] para escoltar o Marechal Greim...” Nesse ponto eu interrompi. “Só um instante, Sr. Schlossstein; o senhor está me dizendo que foi um dos Focke-Wulfs de escolta de Hanna Reitsch naquele último voo pra Berlim?” “Sim, sim.”
Passado o espanto momentâneo, deixei-o continuar a contar sua história. Mas que impressionante! Sem nem suspeitar, estava eu diante de um cara que testemunhou um momento histórico tão singular! Testemunhou não, fez parte dele! Que sorte...
Sem um destino determinado para ocupar o dia, acatamos uma sugestão e pegamos o trem para Rüdesheim, uma cidade turística a 20 minutos de trem. E puxa, que excelente sugestão viu!
Protegida pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade, Rüdesheim fica às margens do Reno, próxima a uma curva do rio, e possui excelentes cafés e restaurantes para todos os gostos. Fica no sopé de uma colina, em cujo cume se destaca ao longe o Niederwalddenkmal – o monumento à vitória alemã na Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871.
Vou parar o relato pra falar: se você está planejando viajar à Alemanha e passar pelos lados da Renânia e Hesse, é simplesmente uma parada OBRIGATÓRIA. O monumento é indescritivelmente belo e imponente, com quase 40 metros de altura. De lá, tem-se uma visão panorâmica da região, de tirar o fôlego. É inesquecível.
Você ascende ao monumento por um teleférico, que passa lentamente acima de imensas plantações de uva, que cobrem toda a face da colina. Lá embaixo, milhares de turistas lotam as ruas, principalmente Drosselgasse, recheada de lojas e restaurantes, e o castelo medieval Brömserburg (visitação gratuita!). A cidade também é palco regular de diversos eventos, entre eles a Gallustag, um festival medieval – que estava acontecendo quando estivemos lá. Comida, vestimentas e muitas armas medievais à venda. Diversão garantida e recomendada!
Contudo, de volta à Oestrich-Winkel, mais uma vez nos preparamos para o encontro. Agora, a cerimônia em honra dos pilotos mortos, no monumento em Geisenheim. Ônibus chega às 15:30h, e nos leva até o local. Com uma banda da Luftwaffe e um esquadrão de honra, a cerimônia é iniciada com toques solenes e a leitura dos nomes dos pilotos mortos durante o ano anterior. Em seguida, são colocadas as coroas de flores pela delegação de cada país presente, sendo o Brasil a primeira a fazê-lo.
Os ônibus levaram em seguida todos para um salão onde foi servido o banquete da noite de gala. Mais uma noite cheia de bate-papo e reencontros. Desta fez, somos chamados pelo General Antoshkin para um brinde com vodka. Detalhe: a vodka que ele mesmo produz e engarrafa! Aparentemente, na Rússia isso é meio que um costume entre celebridades.
Evento concluído, ônibus de volta pro hotel. O dia foi cheio e tudo que eu queria era dormir um pouco. No dia seguinte, bem cedo, teríamos que pegar o trem para Ingolstadt, na Bavária, o que significou praticamente cruzar o país de oeste pra leste. Lá visitamos o Flugwerk e a Fundação Messerschmitt. Mas isso fica pro próximo relato.
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