
Quatro milhões e meio de homens se posicionaram ao longo da imensa e sombria fronteira que corta longitudinalmente a Europa do Mar Báltico até o Mar Negro, há exatos 70 anos no passado. Quase três mil quilômetros de extensão tinha a gigantesca frente de combate, e atrás dela, um país desconhecido e enigmático.
No frio daquela madrugada, é dito que Erich von Manstein – então comandando o 56º Corpo Panzer – por horas contemplou aquela fronteira silenciosa, perguntando-se o que os aguardava do outro lado. O mesmo pensamento de milhões de soldados, distribuídos de norte a sul por toda a fronteira com o maior país do mundo, a União Soviética.
Lançada exatamente às 3:15 da madrugada de domingo, 22 de junho de 1941, a Operação Barbarossa foi a maior e mais custosa operação militar na história, e suas implicações ecoaram por todo o restante do século XX até os nossos dias. Significou a abertura de uma frente de combate que conheceu uma selvageria ímpar em intensidade e escala na história recente – somente sendo encerrada quatro anos depois, no coração da Europa.
Barbarossa não é um fato militar, é um
fato definitivo na nossa história. A decisão de
Adolf Hitler, de arriscar o destino da Alemanha e da Europa numa ofensiva-surpresa contra a potência de
Josef Stalin, desencadeou a sequência de eventos que construiu o mundo atual e afetou as vidas de
incontáveis seres humanos, incluindo a dele próprio.
Baseando-se em estimativas errôneas e mal-calculadas, Hitler foi levado a acreditar que derrotar a União Soviética seria uma questão de apenas aplicar um golpe duro inicial. Como ele disse: “Chute a porta, e casa inteira cairá”. Não podia estar mais longe da verdade. Os soviéticos vinham construindo a maior máquina militar do mundo, longe dos olhos dos estrangeiros, ultrapassando em muito qualquer coisa que os europeus ou americanos tivessem.
Quantidades impressionantes de tanques e aviões saíam das fábricas soviéticas, desde a ordem de mobilização emitida em 1939. Em apenas dois anos – entre 1939 e 1941 – o Exército Vermelho mais do que dobrou de tamanho, chegando ao dia 22 de junho de 1941 com 5,7 milhões de soldados. Stalin organizou todo seu dispositivo ao longo da fronteira ocidental da URSS, numa atitude até hoje não muito clara e que provoca infindáveis discussões entre historiadores do mundo todo.
Nas primeiras semanas da invasão, incontáveis depósitos de munição, peças de artilharia e verdadeiros “rebanhos” de soldados soviéticos foram capturados pelos soldados do Eixo em avanço. Dezenas de milhares de aeronaves e tanques foram destruídos em bases que margeavam a fronteira. Stalin entrou num estado de choque profundo, e desapareceu da vista de todos por 10 dias inteiros.
Desde o início, a justificativa alemã para o aparentemente não-provocado ataque à União Soviética foi de que se tratava de um ataque preventivo, em vista de uma poderosa invasão vermelha que se avizinhava, somente a semanas de distância. Esta justificativa foi prontamente descartada pela historiografia pós-guerra como mera propaganda. Mas seria mesmo completamente infundada?
Stalin certa vez chamou Hitler de “quebrador de gelo”. Um quebrador de gelo para quebrar o delicado equilíbrio, a "fina camada de gelo" que mantinha a Europa em estabilidade. O próprio Stalin brindou um acordo de não-agressão com os alemães, que continha um protocolo de partilha do estado polonês entre as duas potências. O próprio Stalin em seguida inventou um falso ataque finlandês para justificar a invasão daquele país, e tomar dele sua mais protegida zona de segurança, o Istmo da Karélia. O mesmo Stalin em junho de 1940 tomou os três estados bálticos Estônia, Letônia e Lituânia – criando para si uma fronteira direta com a Alemanha. E esse mesmo Stalin, nesse mesmo mês, tomou da Romênia as províncias da Bessarábia e Bucovina do Norte, aproximando-se dos poços petrolíferos de Ploiesti, a maior fonte de petróleo de Hitler.
Tudo isso aconteceu enquanto Hitler tomava os países ocidentais, França, Holanda, Noruega, Bélgica, Dinamarca e Luxemburgo – e enfraquecia a Europa como um todo. Um ano depois, Hitler colocou todo o peso de seu exército, e o de mais seis nações aliadas, numa guerra de tudo ou nada contra a União Soviética. Winston Churchill, até então um ferrenho anticomunista, abraçou a causa de Stalin instantaneamente, enviando ajuda e falando favoravelmente do déspota que já havia mandado milhões para a morte. Churchill confessou: “Se Hitler invadisse o inferno, pelo menos uma menção favorável ao demônio eu faria na Câmara dos Comuns”.
E assim foi. Como todos sabemos, a ofensiva alemã paralisou-se às portas de Moscou no inverno de 1941. Já nos limites de seus recursos, os alemães montaram uma segunda ofensiva, somente no setor sul da URSS, em 1942, que viria a terminar no desastre de Stalingrado. Daí para frente, foi a vez de Stalin tomar as rédeas da situação, e lentamente empurrar de volta as forças do Eixo em direção às suas fronteiras.
Apenas um ano após o fim da guerra, e da ocupação soviética do leste europeu, Churchill – agora uma figura decorativa sem qualquer poder – mais uma vez muda de opinião sobre Stalin e, nos EUA, profere as proféticas palavras:
“De Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu através de todo o continente. Por trás dessa linha jazem todas as capitais dos antigos estados da Europa Central e Oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sofia; todas essas famosas cidades e suas populações jazem no que chamo de esfera soviética, e sob crescente controle de Moscou”.
A exportação da revolução comunista foi atrasada em quatro anos, segundo a corrente que defende a teoria do ataque preventivo – e resultou em apenas metade do objetivo atingido: apenas meia Europa caiu sob julgo soviético, ao contrário do continente todo. A partir deste momento, soube Stalin, sua União Soviética estava condenada. O mundo ocidental colocou todo o peso de sua economia e força militar contra a URSS, e meio século depois, ela teve que pedir arrego.
O impacto de Barbarossa continua a ser sentido, 70 anos depois.
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