
Ao retornar da Alemanha ano passado, constatei um fato: eu tinha acumulado uma boa experiência conhecendo e conversando com veteranos da Segunda Guerra Mundial, seja pessoalmente, por e-mail ou cartas. Eu tinha ido à Europa duas vezes, visitado Alemanha e Romênia, e feito diversos amigos em países como Itália, Rússia e Estados Unidos. Mas faltava uma coisa.
Faltava conhecer nossos próprios herois.
Me deparei com uma falha até mesmo grosseira da minha parte: eu até então não havia ido ao Rio de Janeiro para conhecer os bravos Jambocks, nossos aviadores que tão bonito fizeram nos céus da Itália. Isso eu tinha que resolver – e o quanto antes.
Bom, através do meu amigo Celso Menezes, autor da HQ “Jambocks”, fiquei sabendo dos detalhes das cerimônias que cercam a data de 22 de abril, comemorado aqui no Brasil como Dia da Aviação de Caça. Todos os anos nesta data, realiza-se na Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, uma cerimônia em honra do 1º Grupo de Caça e seus membros caídos em combate.
Configura-se esta uma excelente ocasião para conhecer melhor os nossos veteranos e bater um papo com eles. Decidi-me a comparecer este ano, sem falta. Como não sabia ao certo como proceder (nunca tinha estado no Rio de Janeiro a passeio), decidi buscar uma luz na melhor das fontes: o próprio Brigadeiro Rui Moreira Lima. Escrevi-lhe, apresentei-me e pedi instruções.
Alguns dias depois, eis que meu telefone toca com uma agradável surpresa: o Brigadeiro Rui me liga para agradecer o interesse (se alguém estava agradecido e honrado, esse alguém era eu com certeza), e ele mesmo fez uma reserva de hotel para mim e me colocou na lista de convidados para as festividades. Agradeci-lhe e nos despedimos, dando um até logo.
No dia 20 de abril, tomei o avião no trajeto Montes Claros – Belo Horizonte – Rio de Janeiro, inesperadamente sem atrasos nem contratempos. Cheguei ao hotel do Clube da Aeronáutica rapidamente, pois este fica bem ao lado do Aeroporto Santos Dumont. O Clube é um bom local, com o único contratempo de meu quarto ficar bem ao lado da pista de decolagem, e o barulho dos jatos em operação não é pouco. De qualquer maneira, eu tinha pela frente uma boa noite de descanso, pois no dia seguinte, 21 de abril, haveria meu primeiro contato com os nossos Avestruzes.
Na manhã do dia 21, aprontei-me e desci para o térreo às 10h da manhã. O Brigadeiro Rui havia me dito por telefone que neste dia haveria uma missa às 11h, seguido do almoço do 1º Grupo de Caça, no qual comparecem os veteranos com suas famílias e amigos convidados. É uma comemoração mais informal, que acontece sempre um dia antes do Dia da Aviação de Caça, destinada a ser um ponto de confraternização.
Pois bem, após dar umas voltas pelas instalações, vejo o primeiro a chegar: o Capitão Osias, que foi auxiliar de operações do Grupo. Vestido bastante despojadamente com um paletó branco e camisa com gola por cima da lapela, Osias exibe uma saúde invejável e parece ser a força física motora por trás da organização dos eventos. Ao seu lado, já mais frágil um pouco, andando com o auxílio de uma bengala, um outro senhor, cuja fisionomia me escapou no primeiro momento. Aproximei-me para apresentar-me, e ele respondeu: “Prazer, Tenente Varela”. Nossa, como fui deixar de lembrar dele! Uma expressão bastante serena e bondosa caracteriza este veterano que por tantas vezes armou nossos P-47 para o combate.
Minha próxima surpresa foi conhecer o veterano Geraldo Perdigão, um dos últimos veteranos vivos da nossa 1ª Esquadrilha de Observação e Ligação (ELO), que atuou em apoio da Divisão de Infantaria Expedicionária comandada pelo General Mascarenhas de Moraes. Perdigão é mineiro de João Monlevade, e ficou muito satisfeito em encontrar um conterrâneo de seu estado natal. Presenteou-me com um belo chaveiro com as insígnias do Senta a Pua e da 1ª ELO. Perdigão também contou-me passagens divertidíssimas, como quando namorou algumas pilotas russas. Por minha experiência prévia com veteranos, este exemplo soma-se a incontáveis outros, que demonstram que nada substitui o contato pessoal com eles. São histórias que não estão nem nunca estariam registradas em livros, e que você somente consegue em primeira mão.
Ao escutar o chamado para a missa, descemos para o térreo e fomos em direção ao Auditório Ten. Brig. Deoclécio, onde aconteceria a cerimônia. É um salão muito bonito, decorado com uma variedade de maquetes de aeronaves e uma galeria de patronos do Incaer (Instituto Cultural da Aeronáutica). Após a abertura feita pelo Osias e a Primeira Leitura, realizada pelo Varela, o Padre Campos fez um sermão muito bonito sobre nossos veteranos, e a importância deste momento, em que ainda os temos conosco, porém em números cada vez menores. Lá nos primeiros bancos estavam os Brigadeiros Rui e Meira, nossos dois pilotos presentes (o Brigadeiro Miranda Corrêa não compareceu por motivos de saúde e o Major Buyers por não conseguir vir de Maceió). Após a comunhão, o Brig. Rui tomou a palavra e falou um pouco sobre o Brigadeiro Nero Moura, comandante do 1º Grupo de Caça na Itália.
Com o fim da cerimônia religiosa, subimos para o salão, onde as mesas já estavam arrumadas e o almoço servido. Só então pude me aproximar do Brigadeiro Rui. Grande foi minha emoção, ao ver este verdadeiro guerreiro e heroi da pátria brasileira pessoalmente pela primeira vez. Ao apresentar-me, ele me deu um caloroso abraço e mostrou-se muito feliz com minha presença. Apresentou-me também ao impressionante Brigadeiro Meira. Será exagero ou redundância falar de veteranos da Segunda Guerra com saúde excelente? Pois então serei redundante mais uma vez: Meira é de um vigor físico implacável, e nem de longe aparenta ter seus 88 anos.
O Brig. Rui fez um discurso importante e intenso (como todos que o conhecem já podem esperar, hehe), falando sobre a origem do encontro de 21 de abril e agradecendo a presença dos veteranos franceses, poloneses e belgas também presentes no salão. Muito bem-humorado, o Brig. Rui, sempre auxiliado pelo Capitão Osias, chamou um garotinho para cantar o “Carnaval em Veneza”, o eterno hino da caça brasileira, criado pelos Jambocks durante a guerra. Para encerrar, o Brigadeiro puxou um pujante “Adelphi!”, saindo sob aplausos da plateia, impressionada com sua saúde em recuperação.
A este momento, seguiu-se o almoço propriamente dito. Diversos pratos bastante saborosos acompanhados de bebidas variadas regaram os convidados. Pude então conversar com o filho do Brig. Rui, Pedro Luis, que falou-me sobre seus projetos relacionados à história do Grupo.
Em seguida, dei início à minha tradicional coleta de autógrafos, fazendo um tour pelas mesas. Foi assim que travei contato com vários veteranos Jambocks que eu ainda desconhecia, como Raymundo Ferreira “Ferreirinha” de Brito, Ed Torres Furtado e outros. Tive ainda outra interessante oportunidade de papear com o Brig. Rui enquanto ele assinava fotos para mim.
A comemoração terminou às 16h. Balanço final deste dia? Tendo comparecido a encontros de veteranos na Alemanha e podido conversar com pessoas que compartilham os mesmos interesses que tenho sobre história militar, foi gratificante sentir o mesmo aqui no Brasil. Fiz novos amigos, conheci nossos herois Jambocks, e de quebra tudo isso na bela paisagem da Baía de Guanabara. Não dá pra pedir mais.
No dia seguinte, as comemorações oficiais do Dia da Aviação de Caça na Base Aérea de Santa Cruz. Mas isso fica para a próxima postagem.
Abraços!















Veja também:
>>Uma aventura da ELO no Norte da Itália – 1944
>>Livro: Brazilian Expeditionary Force in World War II
>>Fernando Corrêa Rocha
>>Livro: Jambocks!
>>Câmera de combate do P-47
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