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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Memórias de veterano da USAAF, que mora no Brasil, se tornarão livro


Há algumas semanas fui contatado pelo autor potiguar Rostand Medeiros, que contou-me a interessante história do veterano norte-americano Emil Anthony Petr, hoje residente de Natal-RN. Abro então espaço na Sala de Guerra para que todos vocês também possam conhecer esta história:

Memórias de veterano da USAAF, que mora no Brasil, se tornarão livro


por Rostand Medeiros

No último o dia 13 de novembro, em meio ao dia de “Portões Abertos” do exercício militar CRUZEX 5, e depois de 66 anos, Emil Anthony Petr, o único veterano norte-americano da II Guerra Mundial vivendo no Rio Grande do Norte, estava novamente ao lado de uma aeronave de combate da Força Aérea dos Estados Unidos – no caso um moderno caça F-16. Este veterano foi respeitosamente tratado pelos militares do seu país.

Em janeiro de 1942, quando o jovem Emil buscou um local de alistamento para se engajar lutar contra os nazi-fascistas, este filho de simples agricultores, natural da pequena cidade de Deweese, Nebraska, tinha certeza que “Não queria lutar em trincheiras, mas no ar”.

Foi primeiramente designado para o 57º Esquadrão de Controle de Caça, na área de Boston. Quando estava para seguir com a sua unidade para o deserto do Norte da África, ele conseguiu a aprovação para cursar a escola de formação de navegadores, em San Marco, no Texas. Em 1943, após conseguir a patente de Segundo-Tenente, foi designado para atuar em bombardeiros
B-24 Liberator. Mas não era o fim de sua preparação. O Tenente Petr seguiu para a base aérea de Langley, Virginia, onde se especializou na tarefa de bombardeio por radar.

Em abril de 1944 chegou a sua transferência para a 15ª Força Aérea, no sul da Itália, para atuar no 139º Esquadrão, do 454º Grupo de Bombardeio, baseado no campo de San Giovanni, próximo a cidade de Cerignola.

Durante o trajeto para a Europa o Tenente Emil esteve no Brasil, mas não em Natal. Seu trajeto passou pelas cidades de Belém e Fortaleza, onde guardou boas lembranças. “Não era para ter conhecido Natal na época da guerra, mas foi para cá que optei por viver e me casar”.

Os B-24 que transportavam radar eram diferentes das outras aeronaves deste modelo. Era retirada a torre de metralhadora no formato de bola, que se encontrava na parte inferior do quadrimotor, para a colocação de um domo de radar. Devido à configuração deste radar, com as antenas em formato de “orelhas de rato”, estes B-24 eram conhecidos como “Radar Mickey”. Estes aviões especiais transportavam 11 pessoas, ao invés de 10, que era o número normal de tripulantes de um B-24.

No 454º Grupo de Bombardeio havia uma seção específica de pessoas que trabalhavam com sistemas de radar. Quando Emil era escolhido para uma missão de bombardeio, ele me disse que ficava extremamente focado em seu trabalho. Porque ele sabia que qualquer erro podia comprometer todo o grupo de aeronaves e suas tripulações.

De abril a setembro de 1944 o Tenente Emil participou de 38 missões sobre a Europa ocupada. Em uma delas, atacaram a fábrica da Messerschmitt, em Bad Voslau, na Áustria. O bombardeamento desta estratégica unidade fabril rendeu ao 454º Grupo de Bombardeio uma citação do presidente dos Estados Unidos e o Tenente Emil estava lá.

Mas no dia 13 de setembro de 1944, quando na sua 39º missão, a de número 117 do grupo, cujo objetivo era uma refinaria na cidade alemã de Odertal, seu B-24J foi atingido pela artilharia antiaérea. O comandante da nave, o Capitão Allen Leroy Unger tentou retornar à Itália. Próximo à cidade de Modra, no atual território eslovaco, Emil e seus 10 companheiros tiveram de saltar de paraquedas.

Ninguém morreu, mas a maioria foi capturada, entre estes o Tenente Emil. Todos foram levados para o campo de prisioneiros
Stag Luft III, em Sagan (atual Zagan, na Polônia) e o sofrimento foi grande. Depois de quatro meses como prisioneiro de guerra neste campo, as tropas russas estavam avançando a partir do leste e começaram a se aproximar do campo. Segundo os livros relativos à Segunda Guerra Mundial, Adolf Hitler mandou evacuar Stalag Luft III, pois além de não querer que estes 11.000 aviadores Aliados fossem libertados pelos russos, havia a intenção de utilizá-los como reféns.

A saída do campo se deu entre 27 e 28 de janeiro de 1945. Emil lembra que era uma noite muito fria quando os alemães lhe ordenaram a pegar o que pudesse para marchar para outro campo. A caminhada foi realmente terrível, pois estes prisioneiros já estavam bem debilitados e havia muita neve e frio. Seguiram para um lugar chamado Spremberg, em quase 100 quilômetros de marcha forçada.

Em 31 de janeiro os homens seguiram para o Stalag Luft VIIA, em Moosburg. Durante dois dias de viagem, os aviadores foram levados em vagões de transportar gado. As necessidades fisiológicas eram feitas ali mesmo, em pé e para dormir tinham que escorar-se uns nos outros; a viagem durou dois dias. Moosburg era uma verdadeira pocilga, onde os alemães amontoaram mais de 140.000 prisioneiros Aliados, entre estes alguns brasileiros.

Finalmente os prisioneiros foram libertados pelos soldados da 14ª Divisão Blindada, do 3º Exército dos EUA, comandado pelo
General George Patton.

Para o veterano residente em Natal, a lição mais importante da guerra foi a “falta de justificativas para a violência”, que no seu entendimento ainda não foi aprendida pela humanidade.

Depois de retornar aos Estados Unidos, Emil tentou ingreassar na Universidade de Lincoln, sem sucesso. Foi então trabalhar em uma empresa de construção da família. Mas este americano de origem eslava, de profunda devoção católica, decidiu trabalhar como um voluntário em obras assistenciais na América Latina, através de um programa criado pelo Papa João XVIII.

O destino o trouxe a Natal em 1963, onde conheceu Dom Eugenio de Araújo Sales (na época Bispo de Natal) e se incorporou no programa SAR – Serviço de Assistência Rural.

Emil teve oportunidade de conhecer o sertão potiguar, os aspectos ligados aos trabalhadores rurais nordestinos e veio a ser casar com a assistente social Célia Vale Xavier da cidade de Caicó. Chegaram a adotar a jovem Maria Isabel, mas a mesma faleceu de uma rara doença em 1984.

Nos últimos anos surgiu no veterano a vontade de contar sua história, principalmente depois do falecimento de sua esposa.

O autor deste artigo havia sido um dos realizadores do livro “Os cavaleiros dos céus – A saga do vôo de Ferrarin e Del Prete”, que narra a história da primeira travessia sem escalas entre a Europa e América do Sul, realizada pelos pilotos italianos Arturo Ferrarin e Carlo Del Prete, em 1928. Emil, um grande leitor de aviação, gostou do livro e me convidou para escrever sua biografia.

Desde o primeiro semestre de 2010 iniciamos a fase de entrevistas, daí seguimos para fazer contato com pessoas e entidades nos Estados Unidos e na Eslováquia. Depois partimos para a análise de suas cartas e de sua esposa, Célia Vale Petr. Outras fontes são seus apontamentos compilados em um diário, muitas fotos, além do livro da sua formatura como oficial navegador, o livro oficial do seu esquadrão (publicado em 1946) e outras fontes.

Justamente por esta relação junto aos potiguares o livro vai se chamar “Why? – O encontro de duas culturas”, pois era muito comum Emil ter de responder as pessoas de Natal a razão de ter escolhido esta cidade para viver.

O lançamento do livro está previsto para abril de 2011.

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