
Desta vez, a Sala de Guerra recebeu um total de 194 perguntas para o bate-papo com o Generale di Brigata Aerea Giacomo Metellini. Confesso que foi muito difícil selecionar apenas 10 perguntas, entre tantas tão interessantes. Como gosto muito desse tema, resolvi estender um pouquinho mais a entrevista, mas sem abusar da boa vontade do General, e acabei escolhendo 12 perguntas. Acredito que o resultado ficou bom e, pra quem tiver mais curiosidade, há seu livro autobiográfico "Un Pilota Racconta", disponível ainda somente em italiano.
1-Como piloto de caça na Segunda Guerra Mundial, que combate aéreo nunca esquecerá, e por quê? Raimundo Nonato Rodrigues, 49, Brasília – DF.
Olá Raimundo. O mais duro combate aéreo que eu já enfrentei foi durante a chamada “Batalha do Meio de Agosto”. Tentando levar suprimentos para a combatente ilha de Malta, os ingleses montaram um comboio de navios mercantes com escolta pesada (Operação Pedestal) no verão de 1942. A escolta foi feita por quatro porta-aviões: Eagle, Argus, Indomitable e Victorious; dois couraçados: Rodney e Nelson; sete cruzadores e 24 destróieres. Todas essas embarcações tinham que dar proteção aos 14 navios de carga, porque era considerado vital para Malta que o comboio chegasse. O comboio foi rapidamente descoberto pelo Eixo e em 12 de agosto os combates aéreos começaram. No fim da tarde do dia 12 meu grupo foi chamado para escoltar a primeira leva de torpedeiro SM.79 contra o comboio. Estávamos obviamente preocupados com os Sea Hurricane que deveríamos encontrar, e com o fato de que combateríamos sobre o mar, longe da proteção da terra. Ainda me lembro do impressionante fogo antiaéreo dos navios de escolta. Enquanto o SM.79 tentava chegar perto dos navios de carga, bem baixo perto das ondas, os ingleses desenvolveram um sistema eficiente de proteção: eles disparavam não somente contra o SM.79 mas também no mar, em frente dele. Isso levantava imensas colunas de água em frente aos pobres torpedeiros; eles não tinham chance de passar por entre aquelas colunas. Ao mesmo tempo, tínhamos que protegê-los dos caças ingleses.
Haviam muitos aviões e uma grande confusão. Voltei pra casa em segurança. No dia seguinte, 13, nosso grupo foi chamado para escoltar outra onda de SM.79s. Os Macchi MC.202s iriam suprir escolta de alto nível enquanto meu grupo tinha que escoltar os torpedeiros voando ao lado deles. Por alguma razão, quando nos encontramos os torpedeiros, só havia eu e meus dois alas Reggiane Re.2001s do lado esquerdo da formação. Os dois outros conjuntos que deveriam estar do lado direito perderam o ponto de encontro. O líder dos torpedeiros decidiu ir em frente, mesmo com nossa pequena escolta; obviamente sabíamos pelo dia anterior o que iríamos encontrar e vimos poucas chances de voltar! Quando chegamos ao comboio, fomos imediatamente atacados por Sea Hurricanes; fizemos o melhor possível para proteger os SM.79s mas éramos muito poucos. Me lembro de ter parado de manobrar apenas por uns segundos e fui atingido... Por sorte não fui ferido! Já que o Re.2001 parecia que ainda podia voar, decidi tentar alcançar a ilha da Sardenha. Foi um longo caminho de volta para casa, já que eu estava preocupado que o motor pudesse falhar ainda em cima do mar, e também que algum caça britânico me avistasse tentando manter o controle do avião e me derrubasse. Por sorte consegui pousar em segurança.
2-Que caça Aliado o senhor mais temia encontrar, e por quê? Caio César Saraiva, 50, São Paulo – SP.
Olá Caio. O que mais temia eram os Spitfires sobre Malta. Eles eram mais rápidos e mais bem armados do que o Re.2001 (eles tinham canhões de 20 mm contra nossas metralhadoras de 12,7 mm). Também, seus pilotos eram muito bons porque, no verão de 1942, eles foram escolhidos entre os melhores pilotos de caça, na maioria veteranos da Batalha da Inglaterra e das campanhas africanas. Tive a chance de voar o Spitfire após a guerra e fiquei surpreso ao descobrir quão bom aquele avião era, e como os pilotos ingleses, com um avião tão bom como aquele, não conseguiram derrubar todos nós em combate... na época de Malta, sabíamos que o Spitfire era bom, mas não TÃO bom!
3-Havia discordância de idéias entre os líderes e subordinados? Como era ter que aceitar as ordens dos políticos, sem concordar com elas? Carlos Jazz, 17, Pirapora – MG.
Olá Carlos. Posso dizer que havia um ótimo relacionamento entre todos nós, em particular entre os oficiais. Não era nossa tarefa discutir política ou políticos. Todos tínhamos nossos pensamentos, mas os guardávamos para nós. Nosso dever era fazer nosso trabalho da melhor maneira que conseguíssemos, defendendo nosso país e sua bandeira com orgulho e honra.
4-Por favor, descreva a experiência de voar o Reggiane Re.2001. Na sua opinião era o melhor caça italiano da época? Demerval Moura Neto, 31, Manaus – AM.
Olá Demerval. O Re.2001 era um ótimo avião, o primeiro caça sério que tivemos após o primeiro monoplano, o Fiat G.50, que voei na África e não era nada bom. O Reggiane era muito manobrável, tinha boa visibilidade, era prazeroso de voar, confiável e podia fazer curvas mais fechadas que o Spitfire. Essa última característica se provou muito útil nos duros combates sobre Malta. De fato, somente a alta manobrabilidade do Re.2001 nos permitiu sobreviver a muitos combates e possibilitou que derrubássemos alguns inimigos. Eu pessoalmente consegui derrubar um Spitfire e um Hurricane. Os caças alemães não gostavam de voar missões de escolta conosco por causa da forma peculiar da asa do Reggiane. Realmente, nossa asa elíptica era similar à do Spitfire, e os pilotos alemães ficavam preocupados em nos atingir durante os combates.
Dessa forma, nunca lutávamos juntos e, quando missões de escolta eram planejadas, os caças alemães sempre voavam acima de nós, nas chamadas “escoltas indiretas”. O Reggiane era um caça muito bom naquele tempo, mas sofria de falta de potência do motor e armamento insuficiente (tínhamos somente duas metralhadoras 12,7 mm e duas 7,7 mm, enquanto Spits e Me 109s tinham canhões de 20 mm). O Macchi MC.202 também era bom, mas o melhor dos caças italianos foi o Macchi MC.205, no qual tive a chance de voar após a guerra, e que podia competir com todos os caças Aliados. Infelizmente ele chegou muito tarde e em poucos números, perto do fim da guerra. Se o tivéssemos sobre Malta, a história teria sido diferente!
5-O senhor pode descrever os combates sobre Malta? Maíra Siqueira, 24, Ouro Preto – MG.
Olá Maíra. Os combates sobre Malta eram duros. Muitas vezes éramos chamados para escoltar bombardeiros Ju 88 e SM.84, e outras vezes íamos para Malta nas missões chamadas “caccia libera”, onde voávamos sobre a Ilha tentando encontrar os Spitfires. Infelizmente, especialmente quando tínhamos que escoltar os bombardeiros, os Spitfires sabiam por radar que estávamos chegando e então decolavam e subiam bem alto para nos esperar. Nós normalmente tínhamos que voar bem perto dos bombardeiros, o que significava voar a baixa altitude. O Spitfire costumava nos atacar por cima, contra o sol, num mergulho muito rápido, atirando em nossos aviões e continuando a mergulhar. Não tínhamos chance de vê-los antes do último segundo e não podíamos segui-los em mergulho porque eram mais rápidos que nós e não podíamos abandonar os bombardeiros. Isso era muito frustrante e perigoso para nós! No entanto, quando tínhamos a chance de entrar em contato com eles, podíamos lutar praticamente no mesmo nível porque o Reggiane Re.2001 era altamente manobrável e podia fazer curvas mais fechadas que o Spit. Em boas mãos o Reggiane era um oponente perigoso, mas sempre tendo em mente que o Spit era mais rápido e melhor armado.
Não tínhamos chance de fugir de um combate por causa de nossa velocidade inferior, então tínhamos que “jogar o jogo deles” e fazer nosso melhor. Durante os combates havia uma grande quantidade de aviões tentando manobrar melhor que o outro, uma grande confusão... não se tinha tempo para observar oponentes ou parar um pouco. Em combates de caça você tem que se mover rápido e nunca (NUNCA) parar de se mover e manobrar: se você parar, se torna um alvo fácil para o inimigo e é imediatamente atingido! Os combates sobre Malta duravam apenas alguns minutos: alguns segundos antes o céu estava vazio, então as lutas começavam com diversos aviões, então, de repente, o céu estava vazio de novo. Tínhamos que voar 20 minutos na ida e na volta a partir da costa da Sicília, e para muitos dos meus camaradas, com a aeronave danificada após um combate aéreo, essa distância se mostrou grande demais e eles caíram na água. Essa não era uma idéia bonita para nós. Pelo menos os ingleses podiam saltar de pára-quedas em sua ilha, ou se fossem para no mar, podiam ser resgatados por barcos de patrulha. Não tínhamos essa esperança e isso aumentava o nervosismo em nossos combates.
6-Fale-nos sobre a vida diária no 6º Stormo e nos fale um pouco sobre seus colegas, como Carlo Seganti, Diulio Fanali, Vittorio Minguzzi e outros. Ricardo Antunes, 28, Ribeirão Preto – SP.
Olá Ricardo. Como piloto de caça eu estava no 2º Gruppo Caccia, um dos dois grupos que compunham o 6º Stormo. O 2º Gruppo estava operando a partir da Sicília, separadamente do 6º Stormo. Então, não tive chance de conhecer camaradas do 6º Stormo que estavam fora do meu grupo. Eu tenho boas memórias de Carlo Seganti, um bom amigo, um sujeito alegre e de muito bom caráter. Infelizmente ele foi derrubado junto com o comandante do nosso grupo, Tenente-Colonello Aldo Quarantotti, durante uma missão de resgate em busca de um de nossos pilotos que tinha caído no mar. Diulio Fanali foi um dos melhores oficiais que já conheci; infelizmente, ele sobreviveu à guerra para morrer, muitos anos depois, enquanto estava de férias em seu veleiro.
7-Enquanto voava como escolta dos Aerosiluranti, o senhor conheceu Buscaglia? Descreva essas missões para nós, por favor. Adriano Costa, 20, Rio de Janeiro – RJ.
Olá Adriano. Nós, pilotos de caça, nunca soubemos quem era o comandante dos aviões que escoltávamos, e de qualquer forma, não nos importávamos muito com isso. Nós obviamente conhecíamos o nome de Buscaglia por suas lendárias aventuras e também sabíamos que ele poderia estar em algum dos aviões que escoltávamos. Mas isso não nos afetava. Nunca tive a chance de encontrá-lo; provavelmente ele foi o que me disse pelo rádio, durante a Batalha do Meio de Agosto, que iria enfrentar o comboio de qualquer forma, mesmo com somente três caças de escolta. Como poderíamos desapontá-lo?
8-Como foi a experiência de voar o CR.42 como caça noturno? Como funcionavam as táticas italianas de caça noturna? Sérgio Pereira de Medeiros, 26, Brasília – DF.
Olá Sérgio. O CR.42 era um avião muito forte, muito manobrável e fácil de voar; contudo, não era apto para o papel que queriam que interpretasse. Não tinha motor forte o suficiente para ser um caça, especialmente à noite. O alerta para decolar sempre nos era dado tarde demais, então não tínhamos chance de entrar em contato com os bombardeiros que voavam em grande altitude: quando atingíamos o nível de vôo deles, eles sempre já tinham ido. Também era impossível pegá-los à noite porque não tínhamos radares de bordo para ver os aviões chegando: éramos orientados para o alvo seguindo pobres instruções de rádio que diziam “grande formação de bombardeiros se aproximando do oeste”. Só isso! Então decolávamos, procurávamos por eles sem sucesso e então voltávamos, tentando achar nosso aeródromo na completa escuridão. Quando acreditávamos que tínhamos encontrado a pista, pedíamos por rádio para acenderem as luzes. Somente um linha de luzes era acendida e assim que tocávamos no chão com nossas rodas, pedíamos para desligá-las. Íamos taxiar na escuridão, esperando não sair da pista ou atingir alguma coisa... era tudo muito frustrante.
9-O senhor já atacou uma formação de bombardeios pesados Aliados? Se sim, digamos como atacava (de frente, por baixo) e descreva a experiência. Marcos Parani, 19, Campinas – SP.
Olá Marco. Como eu disse antes, nunca tive a oportunidade de atacar bombardeiros Aliados de noite. Alguns dos meus colegas que conseguiram fazer isso de dia me disseram que costumavam ir contra eles pela frente, já que era o ponto mais fraco da formação. Como pode imaginar, os ataques eram muito rápidos e a luta não durava muito. Nossos caças, normalmente os MC.202s ou os MC.205s, também tinham que se resguardar contra as escoltas, especialmente depois de 1943. Então, era tudo uma tentativa de derrubar alguns bombardeiros e uma luta principalmente para não ser atingido pelos caças de escolta, que eram sempre mais numerosos que nossos aviões...
10-O fim da guerra se aproxima e seus camaradas continuam a lutar, apesar das terríveis perspectivas, constante bombardeio e ataques dos Aliados... O quão difícil foi continuar nessa situação? João Batista Rocha, 45, Rio de Janeiro – RJ.
Olá João. Somente posso dizer que um bom soldado não faz comentários ou dá opiniões, mesmo que obviamente tenha seus próprios pensamentos; ele é chamado para cumprir seu dever de defender seu país e irá ir em frente lutando por isso, apesar de todas as dificuldades, mesmo ao custo de perder a vida.
11-Chega setembro de 1943; por favor conte pra nós o que aconteceu com o senhor durante a rendição. Fernanda Alves da Silva, 27, São Paulo – SP.
Olá Fernanda. Quando chegou setembro de 1943, eu era comandante da 152ª Squadriglia Intercettori em Sarzana. Nós soubemos sobre a rendição pelo rádio. Todos sentimos uma mistura de diferentes sentimentos: alegria, tristeza, mas acima de tudo incerteza sobre o futuro e sobre o que deveríamos fazer. Na total falta de quaisquer ordens de nossos comandantes, quando os soldados alemães começaram a chegar à nossa base no começo da noite, deixei meus camaradas e soldados agirem de acordo com suas opiniões e vontades. Alguns decidiram voltar para casa, outros se juntaram aos Aliados no sul, outros se juntaram aos alemães no norte da Itália. Na minha compreensão eu já tinha chegado ao limite; após lutar contra os Aliados por quatro anos e ter perdido muitos camaradas, eu não podia ser chamado, assim de repente, para me juntar a eles. Isso era para mim algum tipo de traição. Ao mesmo tempo, eu não gostava dos alemães e nunca tinha sido fascista, então não tinha intenção de me juntar a eles. Então decidi esperar e ver o que acontecia, esperando que os Aliados liberassem a Itália dos alemães logo. Infelizmente isso não aconteceu, então nos meses seguintes eu tive que me esconder. Na verdade eu tinha oficialmente me recusado a juntar-me aos alemães e à Aeronautica Repubblicana e, portanto, tinha me tornado um inimigo e ativamente procurado pelos alemães. No fim, tive que fugir para a Suíça onde fui mantido prisioneiro até o fim da guerra.
12-Com os olhos de nostalgia, talvez, e podendo observar hoje como foram as coisas no front, como se sente tendo lutado no maior conflito militar da história ? André Luiz Motta, 24, Alagoinhas – BA.
Olá André. Não sinto nada em particular e não sinto que fiz qualquer coisa especial: eu fiz o que muitos outros pilotos fizeram e o tempo de vida que passei na guerra é somente uma parte da minha história. Mas, pensando no que fiz durante a guerra, posso honestamente dizer estou orgulhoso de ter sido leal aos altos valores morais que um homem deve ter e deve sempre seguir.
Meus agradecimentos à Alessandro Metellini.
1-Como piloto de caça na Segunda Guerra Mundial, que combate aéreo nunca esquecerá, e por quê? Raimundo Nonato Rodrigues, 49, Brasília – DF.
Olá Raimundo. O mais duro combate aéreo que eu já enfrentei foi durante a chamada “Batalha do Meio de Agosto”. Tentando levar suprimentos para a combatente ilha de Malta, os ingleses montaram um comboio de navios mercantes com escolta pesada (Operação Pedestal) no verão de 1942. A escolta foi feita por quatro porta-aviões: Eagle, Argus, Indomitable e Victorious; dois couraçados: Rodney e Nelson; sete cruzadores e 24 destróieres. Todas essas embarcações tinham que dar proteção aos 14 navios de carga, porque era considerado vital para Malta que o comboio chegasse. O comboio foi rapidamente descoberto pelo Eixo e em 12 de agosto os combates aéreos começaram. No fim da tarde do dia 12 meu grupo foi chamado para escoltar a primeira leva de torpedeiro SM.79 contra o comboio. Estávamos obviamente preocupados com os Sea Hurricane que deveríamos encontrar, e com o fato de que combateríamos sobre o mar, longe da proteção da terra. Ainda me lembro do impressionante fogo antiaéreo dos navios de escolta. Enquanto o SM.79 tentava chegar perto dos navios de carga, bem baixo perto das ondas, os ingleses desenvolveram um sistema eficiente de proteção: eles disparavam não somente contra o SM.79 mas também no mar, em frente dele. Isso levantava imensas colunas de água em frente aos pobres torpedeiros; eles não tinham chance de passar por entre aquelas colunas. Ao mesmo tempo, tínhamos que protegê-los dos caças ingleses.
Haviam muitos aviões e uma grande confusão. Voltei pra casa em segurança. No dia seguinte, 13, nosso grupo foi chamado para escoltar outra onda de SM.79s. Os Macchi MC.202s iriam suprir escolta de alto nível enquanto meu grupo tinha que escoltar os torpedeiros voando ao lado deles. Por alguma razão, quando nos encontramos os torpedeiros, só havia eu e meus dois alas Reggiane Re.2001s do lado esquerdo da formação. Os dois outros conjuntos que deveriam estar do lado direito perderam o ponto de encontro. O líder dos torpedeiros decidiu ir em frente, mesmo com nossa pequena escolta; obviamente sabíamos pelo dia anterior o que iríamos encontrar e vimos poucas chances de voltar! Quando chegamos ao comboio, fomos imediatamente atacados por Sea Hurricanes; fizemos o melhor possível para proteger os SM.79s mas éramos muito poucos. Me lembro de ter parado de manobrar apenas por uns segundos e fui atingido... Por sorte não fui ferido! Já que o Re.2001 parecia que ainda podia voar, decidi tentar alcançar a ilha da Sardenha. Foi um longo caminho de volta para casa, já que eu estava preocupado que o motor pudesse falhar ainda em cima do mar, e também que algum caça britânico me avistasse tentando manter o controle do avião e me derrubasse. Por sorte consegui pousar em segurança.
2-Que caça Aliado o senhor mais temia encontrar, e por quê? Caio César Saraiva, 50, São Paulo – SP.
Olá Caio. O que mais temia eram os Spitfires sobre Malta. Eles eram mais rápidos e mais bem armados do que o Re.2001 (eles tinham canhões de 20 mm contra nossas metralhadoras de 12,7 mm). Também, seus pilotos eram muito bons porque, no verão de 1942, eles foram escolhidos entre os melhores pilotos de caça, na maioria veteranos da Batalha da Inglaterra e das campanhas africanas. Tive a chance de voar o Spitfire após a guerra e fiquei surpreso ao descobrir quão bom aquele avião era, e como os pilotos ingleses, com um avião tão bom como aquele, não conseguiram derrubar todos nós em combate... na época de Malta, sabíamos que o Spitfire era bom, mas não TÃO bom!
3-Havia discordância de idéias entre os líderes e subordinados? Como era ter que aceitar as ordens dos políticos, sem concordar com elas? Carlos Jazz, 17, Pirapora – MG.
Olá Carlos. Posso dizer que havia um ótimo relacionamento entre todos nós, em particular entre os oficiais. Não era nossa tarefa discutir política ou políticos. Todos tínhamos nossos pensamentos, mas os guardávamos para nós. Nosso dever era fazer nosso trabalho da melhor maneira que conseguíssemos, defendendo nosso país e sua bandeira com orgulho e honra.
4-Por favor, descreva a experiência de voar o Reggiane Re.2001. Na sua opinião era o melhor caça italiano da época? Demerval Moura Neto, 31, Manaus – AM.
Olá Demerval. O Re.2001 era um ótimo avião, o primeiro caça sério que tivemos após o primeiro monoplano, o Fiat G.50, que voei na África e não era nada bom. O Reggiane era muito manobrável, tinha boa visibilidade, era prazeroso de voar, confiável e podia fazer curvas mais fechadas que o Spitfire. Essa última característica se provou muito útil nos duros combates sobre Malta. De fato, somente a alta manobrabilidade do Re.2001 nos permitiu sobreviver a muitos combates e possibilitou que derrubássemos alguns inimigos. Eu pessoalmente consegui derrubar um Spitfire e um Hurricane. Os caças alemães não gostavam de voar missões de escolta conosco por causa da forma peculiar da asa do Reggiane. Realmente, nossa asa elíptica era similar à do Spitfire, e os pilotos alemães ficavam preocupados em nos atingir durante os combates.
Dessa forma, nunca lutávamos juntos e, quando missões de escolta eram planejadas, os caças alemães sempre voavam acima de nós, nas chamadas “escoltas indiretas”. O Reggiane era um caça muito bom naquele tempo, mas sofria de falta de potência do motor e armamento insuficiente (tínhamos somente duas metralhadoras 12,7 mm e duas 7,7 mm, enquanto Spits e Me 109s tinham canhões de 20 mm). O Macchi MC.202 também era bom, mas o melhor dos caças italianos foi o Macchi MC.205, no qual tive a chance de voar após a guerra, e que podia competir com todos os caças Aliados. Infelizmente ele chegou muito tarde e em poucos números, perto do fim da guerra. Se o tivéssemos sobre Malta, a história teria sido diferente!
5-O senhor pode descrever os combates sobre Malta? Maíra Siqueira, 24, Ouro Preto – MG.
Olá Maíra. Os combates sobre Malta eram duros. Muitas vezes éramos chamados para escoltar bombardeiros Ju 88 e SM.84, e outras vezes íamos para Malta nas missões chamadas “caccia libera”, onde voávamos sobre a Ilha tentando encontrar os Spitfires. Infelizmente, especialmente quando tínhamos que escoltar os bombardeiros, os Spitfires sabiam por radar que estávamos chegando e então decolavam e subiam bem alto para nos esperar. Nós normalmente tínhamos que voar bem perto dos bombardeiros, o que significava voar a baixa altitude. O Spitfire costumava nos atacar por cima, contra o sol, num mergulho muito rápido, atirando em nossos aviões e continuando a mergulhar. Não tínhamos chance de vê-los antes do último segundo e não podíamos segui-los em mergulho porque eram mais rápidos que nós e não podíamos abandonar os bombardeiros. Isso era muito frustrante e perigoso para nós! No entanto, quando tínhamos a chance de entrar em contato com eles, podíamos lutar praticamente no mesmo nível porque o Reggiane Re.2001 era altamente manobrável e podia fazer curvas mais fechadas que o Spit. Em boas mãos o Reggiane era um oponente perigoso, mas sempre tendo em mente que o Spit era mais rápido e melhor armado.
Não tínhamos chance de fugir de um combate por causa de nossa velocidade inferior, então tínhamos que “jogar o jogo deles” e fazer nosso melhor. Durante os combates havia uma grande quantidade de aviões tentando manobrar melhor que o outro, uma grande confusão... não se tinha tempo para observar oponentes ou parar um pouco. Em combates de caça você tem que se mover rápido e nunca (NUNCA) parar de se mover e manobrar: se você parar, se torna um alvo fácil para o inimigo e é imediatamente atingido! Os combates sobre Malta duravam apenas alguns minutos: alguns segundos antes o céu estava vazio, então as lutas começavam com diversos aviões, então, de repente, o céu estava vazio de novo. Tínhamos que voar 20 minutos na ida e na volta a partir da costa da Sicília, e para muitos dos meus camaradas, com a aeronave danificada após um combate aéreo, essa distância se mostrou grande demais e eles caíram na água. Essa não era uma idéia bonita para nós. Pelo menos os ingleses podiam saltar de pára-quedas em sua ilha, ou se fossem para no mar, podiam ser resgatados por barcos de patrulha. Não tínhamos essa esperança e isso aumentava o nervosismo em nossos combates.
6-Fale-nos sobre a vida diária no 6º Stormo e nos fale um pouco sobre seus colegas, como Carlo Seganti, Diulio Fanali, Vittorio Minguzzi e outros. Ricardo Antunes, 28, Ribeirão Preto – SP.
Olá Ricardo. Como piloto de caça eu estava no 2º Gruppo Caccia, um dos dois grupos que compunham o 6º Stormo. O 2º Gruppo estava operando a partir da Sicília, separadamente do 6º Stormo. Então, não tive chance de conhecer camaradas do 6º Stormo que estavam fora do meu grupo. Eu tenho boas memórias de Carlo Seganti, um bom amigo, um sujeito alegre e de muito bom caráter. Infelizmente ele foi derrubado junto com o comandante do nosso grupo, Tenente-Colonello Aldo Quarantotti, durante uma missão de resgate em busca de um de nossos pilotos que tinha caído no mar. Diulio Fanali foi um dos melhores oficiais que já conheci; infelizmente, ele sobreviveu à guerra para morrer, muitos anos depois, enquanto estava de férias em seu veleiro.
7-Enquanto voava como escolta dos Aerosiluranti, o senhor conheceu Buscaglia? Descreva essas missões para nós, por favor. Adriano Costa, 20, Rio de Janeiro – RJ.
Olá Adriano. Nós, pilotos de caça, nunca soubemos quem era o comandante dos aviões que escoltávamos, e de qualquer forma, não nos importávamos muito com isso. Nós obviamente conhecíamos o nome de Buscaglia por suas lendárias aventuras e também sabíamos que ele poderia estar em algum dos aviões que escoltávamos. Mas isso não nos afetava. Nunca tive a chance de encontrá-lo; provavelmente ele foi o que me disse pelo rádio, durante a Batalha do Meio de Agosto, que iria enfrentar o comboio de qualquer forma, mesmo com somente três caças de escolta. Como poderíamos desapontá-lo?
8-Como foi a experiência de voar o CR.42 como caça noturno? Como funcionavam as táticas italianas de caça noturna? Sérgio Pereira de Medeiros, 26, Brasília – DF.
Olá Sérgio. O CR.42 era um avião muito forte, muito manobrável e fácil de voar; contudo, não era apto para o papel que queriam que interpretasse. Não tinha motor forte o suficiente para ser um caça, especialmente à noite. O alerta para decolar sempre nos era dado tarde demais, então não tínhamos chance de entrar em contato com os bombardeiros que voavam em grande altitude: quando atingíamos o nível de vôo deles, eles sempre já tinham ido. Também era impossível pegá-los à noite porque não tínhamos radares de bordo para ver os aviões chegando: éramos orientados para o alvo seguindo pobres instruções de rádio que diziam “grande formação de bombardeiros se aproximando do oeste”. Só isso! Então decolávamos, procurávamos por eles sem sucesso e então voltávamos, tentando achar nosso aeródromo na completa escuridão. Quando acreditávamos que tínhamos encontrado a pista, pedíamos por rádio para acenderem as luzes. Somente um linha de luzes era acendida e assim que tocávamos no chão com nossas rodas, pedíamos para desligá-las. Íamos taxiar na escuridão, esperando não sair da pista ou atingir alguma coisa... era tudo muito frustrante.
9-O senhor já atacou uma formação de bombardeios pesados Aliados? Se sim, digamos como atacava (de frente, por baixo) e descreva a experiência. Marcos Parani, 19, Campinas – SP.
Olá Marco. Como eu disse antes, nunca tive a oportunidade de atacar bombardeiros Aliados de noite. Alguns dos meus colegas que conseguiram fazer isso de dia me disseram que costumavam ir contra eles pela frente, já que era o ponto mais fraco da formação. Como pode imaginar, os ataques eram muito rápidos e a luta não durava muito. Nossos caças, normalmente os MC.202s ou os MC.205s, também tinham que se resguardar contra as escoltas, especialmente depois de 1943. Então, era tudo uma tentativa de derrubar alguns bombardeiros e uma luta principalmente para não ser atingido pelos caças de escolta, que eram sempre mais numerosos que nossos aviões...
10-O fim da guerra se aproxima e seus camaradas continuam a lutar, apesar das terríveis perspectivas, constante bombardeio e ataques dos Aliados... O quão difícil foi continuar nessa situação? João Batista Rocha, 45, Rio de Janeiro – RJ.
Olá João. Somente posso dizer que um bom soldado não faz comentários ou dá opiniões, mesmo que obviamente tenha seus próprios pensamentos; ele é chamado para cumprir seu dever de defender seu país e irá ir em frente lutando por isso, apesar de todas as dificuldades, mesmo ao custo de perder a vida.
11-Chega setembro de 1943; por favor conte pra nós o que aconteceu com o senhor durante a rendição. Fernanda Alves da Silva, 27, São Paulo – SP.
Olá Fernanda. Quando chegou setembro de 1943, eu era comandante da 152ª Squadriglia Intercettori em Sarzana. Nós soubemos sobre a rendição pelo rádio. Todos sentimos uma mistura de diferentes sentimentos: alegria, tristeza, mas acima de tudo incerteza sobre o futuro e sobre o que deveríamos fazer. Na total falta de quaisquer ordens de nossos comandantes, quando os soldados alemães começaram a chegar à nossa base no começo da noite, deixei meus camaradas e soldados agirem de acordo com suas opiniões e vontades. Alguns decidiram voltar para casa, outros se juntaram aos Aliados no sul, outros se juntaram aos alemães no norte da Itália. Na minha compreensão eu já tinha chegado ao limite; após lutar contra os Aliados por quatro anos e ter perdido muitos camaradas, eu não podia ser chamado, assim de repente, para me juntar a eles. Isso era para mim algum tipo de traição. Ao mesmo tempo, eu não gostava dos alemães e nunca tinha sido fascista, então não tinha intenção de me juntar a eles. Então decidi esperar e ver o que acontecia, esperando que os Aliados liberassem a Itália dos alemães logo. Infelizmente isso não aconteceu, então nos meses seguintes eu tive que me esconder. Na verdade eu tinha oficialmente me recusado a juntar-me aos alemães e à Aeronautica Repubblicana e, portanto, tinha me tornado um inimigo e ativamente procurado pelos alemães. No fim, tive que fugir para a Suíça onde fui mantido prisioneiro até o fim da guerra.
12-Com os olhos de nostalgia, talvez, e podendo observar hoje como foram as coisas no front, como se sente tendo lutado no maior conflito militar da história ? André Luiz Motta, 24, Alagoinhas – BA.
Olá André. Não sinto nada em particular e não sinto que fiz qualquer coisa especial: eu fiz o que muitos outros pilotos fizeram e o tempo de vida que passei na guerra é somente uma parte da minha história. Mas, pensando no que fiz durante a guerra, posso honestamente dizer estou orgulhoso de ter sido leal aos altos valores morais que um homem deve ter e deve sempre seguir.
Meus agradecimentos à Alessandro Metellini.
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