Sobre: Vivendo com a possibilidade-Qual era o efeito de viver constantemente com o pensamento de lançar um ataque nuclear contra um alvo específico?
-Era algo que te afetava. A maior coisa na sua vida era sua missão de guerra. E você seria cobrado por aquilo. Vivia por aquilo. Sabia que eles podiam soar o apito a qualquer momento, e quando o fizessem, era pra lá que você ia. Comandantes de unidades, de grupos, de alas, nunca estavam permitidos de ficar distantes mais que três toques de telefone. Quando você estava voando, você estava preso ao centro de comando do TAC ou do SAC. Mas quando estivesse no solo, você batia seu ponto e dizia o número pelo qual podia ser contatado. Se quisesse sair para jantar com a esposa, família, você tinha um rádio no carro e dizia “Estou saindo com o móvel, quando eu sair do móvel estava no número tal e tal” (número do restaurante ou teatro). Se tivesse de ir ao banheiro, tinha que dizer a eles com quem você estava, e deixá-los sabendo da possibilidade de você poder receber uma ligação enquanto estivesse lá dentro. Então era um modo de vida muito controlado.
-O quão real parecia a ameaça? Quão real era a possibilidade de ir para a guerra com essa tremenda nova força?
-Bem, todos sentíamos que isso estava nas cartas, que se não fossemos bons – se bobeássemos, se não fossemos capazes de fazer nosso trabalho, os russos eventualmente se moveriam e dominariam a situação. Não sabíamos se eles viriam com bombas contra nós, mas havia outras coisas que podiam fazer que acionaria a máquina em Washington e lançaria o SAC. Então era assim – era assim... eu acho, o limiar da Guerra Fria. E era nisso que os comandantes e tripulações do SAC estavam empenhados. Era uma linha muito tênue... Atletas não correm e permanecem assim pra sempre. E o que fizemos foi começar a correr e ficar dessa maneira por – por 10 anos, e viver correndo, e – sentindo a pressão que vem com aquilo. Então era – era uma vida dura.
Sobre: Sua impressão dos testes atômicos
-O senhor testemunhou diversos testes atômicos. Pode dizer que tipo de impressões eles deixaram no senhor?
-Bem, ficou bem claro que a natureza da guerra tinha mudado, e se tornou muito mais séria. Eu também assisti ao primeiro teste de uma Bomba H. Um certo número de pessoas do SAC pôde ir... Ah, 1954, eu acho que foi, quando aconteceu, porque eu era Brigadeiro-General e cerca de quatro ou cinco de nós – cinco eu acho – Brigadeiros-Generais do SAC foram assistir o primeiro teste da Bomba H em Eniwetok. Lá eu estava no ar e assisti.
Voei sobre os testes em Nevada umas duas vezes, e estava no solo em Nevada uma vez durante outro teste. Então estávamos – víamos essas bombas detonando. Vimos de diversos ângulos. As carregávamos em nossos compartimentos de bombas. E elas fizeram da guerra algo muito mais sério. E nos mantiveram constantemente cientes do fato de que não havia espaço para esconder-se ou se safar daquilo.
Sobre: A mudança nos alvos de bombardeio
-Com a chegada das Bombas H, houve algum impacto nos alvos que as tripulações recebiam?
-Sim. Foi uma mudança que nos atingiu quando o poder de destruição das armas aumentou. Em outras palavras, ao invés de ir atrás de três ou quatro fábricas individuais em torno de uma cidade, você podia mirar no centro da cidade e atingir todos os alvos com uma única bomba. E a filosofia da escolha de alvos foi certamente mudada quando recebemos sistemas de armas mais capazes.
-Houve algum pensamento em sua mente quando passou a lidar com o fato de estava mirando o centro de uma cidade ao invés de alvos específicos? Ou era apenas algo inevitável?
-Sim, pensávamos nisso... Certamente, eu não tive – nenhum arrependimento – ou sentimento, porque sabíamos que ao mesmo tempo em que fazíamos aquilo, eles estavam fazendo a mesma coisa conosco. Então – não, eu não tinha nada contra ir atrás dos alvos que me designassem.
Sobre: Voar o B-36 e o B-47
-O senhor escreveu bastante sobre o B-36 e o B-47. Diga-nos sua impressão sobre essas aeronaves que o acompanharam durante tantos anos.
-Bem, o B-36 não era muito divertido de voar. Era gigantesco. Eles diziam que era como sentar na sua porta da frente e voar com toda sua casa ao redor. Era enorme por fora e minúsculo por dentro. Muito cansativo para as tripulações, e as missões eram longas.
Os seis motores de popa ficavam enterrados nas asas, onde era difícil chegar a eles. Os mantivemos operacionais nas neves do inverno em Spokane. Então não era um trabalho prazeroso de diversas formas. Mesmo assim eu estava muito orgulhoso dele, porque o B-36 podia atingir alvos dentro da Rússia que não podiam ser atingidos de outra forma. Não tínhamos mísseis na época. Não tínhamos abastecimento aéreo. E o B-36 era o único avião que tinha pernas grandes o suficiente para chegar a alguns alvos.
Eu saí dos B-36s direto pros B-47s. E isso pôs alguma diversão de volta no mundo. Fomos para Tucson, no Arizona, onde não tínhamos mais que nos preocupar com a neve. B-47s eram fáceis de manter: os seis motores a jato ficavam pendurados do lado de fora – fáceis de abrir e manusear. Tripulação de três homens, então você não tinha o problema de fator humano que havia com as tripulações de 14 ou 16 homens. Voar um B-47 era, de diversas maneiras, como voar um caça. Você tinha um cockpit solitário, ficava preso no assento. Não havia andanças pela aeronave. A principal diferença é que você tinha seis manetes de propulsão ao invés de uma.
Sobre: Os Planos de Guerra do SAC
-No fim dos anos 1950 a filosofia básica dos planos de guerra do SAC ainda não havia mudado. A idéia ainda era deter ataques ameaçando alvos estratégicos na Rússia. Mas esses alvos se multiplicaram e os estoques se multiplicaram.
-Correto. E se tornou um trabalho e tanto... Meu escritório ficava a três andares no subsolo. Eu tinha lá uma sala muito maior do que essa [17 x 20 metros], pelo que vejo, que era uma sala de computador. E era cheia de enormes gabinetes, gabinetes de computador... Mas esses computadores eram usados para monitorar os planos de guerra do SAC. As coisas mudariam. Colocamos no computador o programa meteorológico para o mês (ventos e visibilidade do alvo), e ajustávamos a decolagem dos aviões para que a cada mês o esquema fosse diferente. E os alternávamos – o computador nos permitia direcioná-los para que não voassem sobre a explosão da bomba de outro, ou sobre a nuvem radioativa de algum alvo já atingido. Coordenar os planos do SAC naquele tempo era muito, mas muito complicado, e não conseguiríamos fazer isso sem aquela sala cheia de computadores.
Agora eu sei o quão primitivo aquilo era. O calor produzido por todos aqueles tubos brilhantes era tremendo. Requeria uma imensa força de ar-condicionado. Mais adiante, toda aquela sala cheia de máquinas pôde ser substituída por um computador do tamanho da sua mesa. E acho que hoje poderia ser substituída por algo do tamanho de um maço de cigarros. Mas um computador teve que controlar o SAC no tempo que eu estava lá. Então era muito grande e muito complexo.
-Tudo isso era em função de um ataque absolutamente devastador contra o inimigo.
-Correto. E o General Power costumava dizer que ele gostaria de convidar todos os chefes de estado-maior russos, fazê-los visitar o SAC e receber uma orientação do plano de guerra. Ele dizia que era uma maneira eficaz de fazê-los entender exatamente o que podia fazer com eles. Mas você está certo. Repassando esses pensamentos, ter essa capacidade e não ser capaz de fazer as pessoas saberem que existia, e não dizer a elas especificamente o que era, exigia pessoas muito espertas na área de comunicação. Mas isso não era problema meu.
Sobre: Entendendo o poder da dissuasão nuclear
-Eu acho que o pensamento do presidente Eisenhower sobre armas nucleares mudou com os relatórios sobre bombas de hidrogênio no fim dos anos 1950. Antes, parece que ele pensava numa guerra nuclear como algo terrível, mas que se pudesse sobreviver. E acho que por 1955, 56, 57, após os testes com a Bomba H, fica claro que essas armas são poderosas demais para uma nação sobreviver se fossem usadas em guerra.
-Há uma anomalia aí. Eu sei que a senti, e tenho certeza que presidentes, não apenas Eisenhower, mas outros, devem ter sentido o mesmo. Essas armas eram muitíssimo poderosas, e provocavam tanto dano que – não éramos capazes nem de medir o montante de dano que podiam fazer. Não conhecíamos os prolongados efeitos da radiação. E então sentimos que a única maneira de evitar o acontecimento era ter a capacidade, aqui no SAC, de prevenir que os russos fizessem isso, e ter a honra e a ética americana de não fazer isso nós mesmos. Em outras palavras, autocontrole é fácil; se você tiver certeza de que o outro cara não fará nada. Então foi o uso dessas armas, se tornar perito em sua operação, e planejar para usá-las em capacidade máxima, que sentimos ser a única maneira de evitar um ataque nuclear total. Sei que isso é anômalo, mas não chegamos a nenhuma outra solução que conseguisse prevenir o pior.
Sobre: O papel do SAC no encerramento da Guerra Fria
-O senhor acredita que o SAC foi um elemento vital, se não “o” elemento vital, na sobrevivência e vitória na Guerra Fria?
-Sim, acredito. Eu acreditei nele, claro, quando fiz parte dele. Mas acho que o vi por fora durante a crise dos mísseis cubanos, quando não estava no SAC, mas na Europa, onde pude ver bem o que estava acontecendo lá. E estava convencido de que a postura do SAC foi a única coisa que os russos entendiam e que os fez recuar daquela confrontação que nos encarava de frente – sobre os mísseis em Cuba. Então acreditei nele naquele tempo, e ainda acredito que o SAC foi a principal força que manteve os russos quietos e preveniu que fossem obliterados.
Acredito que o SAC e a capacidade que construímos no SAC, e ter um homem como o General LeMay por perto para coordená-lo, foi o que nos permitiu atingir o ponto em que o Muro de Berlim foi demolido e pessoas pegassem pedaços dele para levar para casa como souvenires.
Veja também:
>>Entrevista com James Edmundson - Parte 1
>>Entrevista com Adolf Galland - Parte 1 , Parte 2
>>Entrevista com Luigi Gorrini - Parte 1 , Parte 2 , Parte 3
>>Jim Pattillo: Os problemas operacionais do B-29 no CBI
>>Maurice Ashland: A Campanha Aérea de Minagem
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