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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Entrevista com Adolf Galland - Parte 2


Entrevista com o General da Luftwaffe
Adolf Galland - Continuação


-Bem, a maioria dos pilotos acreditava que sua designação para general dos caças era a melhor coisa que podia ter acontecido com a Luftwaffe, exceto talvez uma demissão de Göring.
-Sim, era uma grande responsabilidade, e você nunca conseguia o que queria. Nossa força de caça era pequena, e não éramos entendidos por Göring.

-Falando em Göring, o senhor teve mais contato com ele do que todos os outros pilotos, e entendia os problemas dele. O que acha dele pessoalmente?
-Sim, ele tinha muitos problemas, mas ele era basicamente um homem inteligente e bem-educado, vindo da aristocracia. Ele tinha muitos pontos fracos na vida, e sempre estava sob pressão de Hitler, mas mesmo assim nunca o contradisse ou o corrigiu em nenhum ponto. Foi onde ele cometeu seus maiores erros. Essa fraqueza aumentou com o decorrer da guerra, junto com seu vício em drogas, até que não sobrou nada. No tocante à nossa Luftwaffe, ele era ainda menos e deveria ter sido substituído.

-É verdade que apesar da posição de Göring os pilotos de caça procuravam sua liderança na maioria das vezes?
-Sim, é verdade.

-Quais são suas impressões de Hitler, já que ficou meses em sua presença e o conhecia bem?
-Sim, passei meses com ele, conversando e tendo reuniões, mas acho que ninguém nunca realmente conheceu Adolf Hitler. Não fiquei muito impressionado com ele. A primeira vez que o encontrei foi depois da Espanha quando fomos chamados para a Chancelaria. Lá estava Hitler, pequeno, cinzento e não muito forte, e falava numa linguagem complicada. Ele não nos permitia fumar, nem nos ofereceu nada para beber, nada desse tipo. Essa impressão foi reforçada em todos os anos que convivi com ele e seus erros se amontoavam ao custo de vidas alemãs, os erros que Göring deveria ter levado à sua atenção. Os oficiais o fizeram, e eles foram demitidos, mas ao menos fizeram a coisa certa e manifestaram suas objeções. Göring seguindo-o sem discussão era uma situação terrível para mim.

-Então o senhor sente que Hitler deveria ter substituído Göring no comando da Luftwaffe muito antes da situação se tornar terminal?
-Claro, se Hitler se importasse, mas quem iria tomar o lugar de Göring e enfrentar Hitler, fazer a coisa certa? Pessoas não estão fazendo fila para esse trabalho, isso te digo. Hitler era incapaz de pensar em três dimensões, e tinha um péssimo entendimento quando se tratava da Luftwaffe, assim como com os U-Boats. Ele era estritamente um soldado de terra.

-Bem, de todos os homens que liderou e se tornou amigo hoje, há algum que simplesmente tornou-se um grande líder separadamente de seu número de vitórias?
-Ah, sim, isso seria uma longa lista, e você conhece a maioria deles. De todos os nomes que poderia mencionar, ainda acho que talvez o maior líder seja Mölders. Todos os outros ainda são excelentes amigos meus, mas somos velhos agora, e a vida não é tão rápida quanto era no cockpit. No entanto, como líder deles também cometi muitos erros. Poderia ter feito melhor. Eu era jovem e inexperiente na vida, presumo. É muito fácil olhar para trás e se criticar, no entanto, naquela época era muito difícil. Minha situação era que eu tinha que lutar com Göring e Hitler para cumprir o que queriam, mas sem o suporte deles, se é que isso faz algum sentido. Göring era um espinho pra mim, e Hitler simplesmente destruiu nosso país e outros sem se preocupar com o bem-estar de ninguém.

-O que levou à Revolta dos Pilotos em janeiro de 1945?
-Basicamente, eram os problemas que tínhamos com Göring, e o fato de que ele nos culpava, os pilotos de caça, que bombardeios e por estarmos perdendo a guerra. Todos os Kommodoren sênior trouxeram suas angústias para mim, e nos escolhemos um porta-voz para nos representar. Eu então arranjei uma reunião com Göring.

-Seu porta-voz foi Günther Lützow?
-Sim, Lützow era um grande líder e um verdadeiro guerreiro, um cavalheiro. Quando todos eles se sentaram com Göring, ele disse a Göring que se ele interrompesse, o que ele sempre fazia para mostrar sua importância, nada mais seria cumprido. Lützow, Johannes Steinhoff e eu mesmo já tinham reclamado muitas vezes, mas já que eu não fui convidado para essa reunião, Hannes Trautloft junto com Lützow me mantiveram informado de suas recomendações para que Göring cedesse para o bem do serviço. Bom, fui demitido como general dos caças, Steinhoff foi banido da Alemanha e enviado à Itália, e Göring disse a Lützow que ele seria fuzilado por alta traição.

-Qual estava a atmosfera na época, e o que os Kommodoren pensaram da reunião? -Bem, Göring sabia que não teria a lealdade deles, e sabíamos que não podíamos contar com Berlim para fazer nada por nós, então estávamos sozinhos, como sempre. Pelo menos agora estava claro, não às escuras.

-O que o senhor se lembra da morte do ás Walter Nowotny, e o senhor sentiu que sua morte teve algum impacto no programa de construção do caça a jato Messerschmitt Me 262?
-Eu já insistia com Hitler por mais de um ano, desde meu primeiro vôo com o Me 262, que somente o Focke-Wulf Fw 190 deveria continuar em produção de aeronaves convencionais, e que o Messerschmitt Me 109 deveria ser descontinuado, pois era obsoleto, e todo o foco deveria ser dado numa maciça construção de caças a jato. Eu estava na Prússia Oriental para uma demonstração do jato, que era fantástico, um desenvolvimento totalmente novo. Isso foi em 1943, e eu estava lá com o professor Willy Messerschmitt e outros engenheiros responsáveis pela máquina. O caça estava quase pronto para produção em massa na época, e Hitler queria ver uma demonstração. Quando o 262 foi trazido às suas vistas em Insterburg, e eu estava em pé ao seu lado, Hitler ficou muito impressionado. Ele perguntou ao professor: “Essa aeronave pode carregar bombas?” Bem, Messerschmitt disse: “Sim, meu Führer, pode com certeza carregar uma bomba de 250 kg, talvez duas.” No típico estilo Hitler, ele disse: “Bem, ninguém pensou nisso! Esse é o bombardeiro blitz (relâmpago) que eu tenho pedido há anos. Ninguém pensou nisso. Eu ordeno que esse 262 seja usado exclusivamente como bombardeiro relâmpago, e você, Messerschmitt, tem que fazer todas as preparações necessárias para que isso se torne realidade.” Esse foi realmente o começo do uso errôneo do Me 262, já que cinco alas de bombardeio deveriam ser equipadas com o jato. Esses pilotos de bombardeio não tinham nenhuma experiência com caças, como vôo de combate ou prática de tiro, e esta é a razão pela qual tantos foram derrubados. Eles só podiam escapar deixando para trás os caças perseguidores. Esse foi o maior erro ao usar-se o Me 262, e eu acredito que o 262 poderia ter sido feito operacional como caça pelo menos um ano e meio antes e construído em grandes números para que pudéssemos mudar o rumo da guerra aérea. Muito provavelmente não mudaria o resultado final da guerra, porque já tínhamos perdido completamente, mas provavelmente poderia ter atrasado o fim, já que a invasão da Normandia em 6 de junho de 1944 provavelmente não teria acontecido, pelo menos não com sucesso se o 262 estivesse operacional. I certamente penso que 300 jatos voando diariamente pelos melhores pilotos teriam um impacto gigantesco no curso da guerra aérea. Isso teria, claro, prolongado a guerra, então o erro de Hitler para com a aeronave talvez não tenha sido tão ruim assim. Mas sobre Nowotny...

-Sim, como o senhor o escolheu para ser o primeiro comandante de uma unidade de caças a jato da história?
-Eu procurava o tipo certo de piloto, alguém ousado e bem-sucedido que poderia liderar pelo exemplo de sua coragem de determinação, e Walter Nowotny tinha todas essas qualidades. O jato estava sendo testado por alguns pilotos em Achmer e outros lugares, então quando Walter deixou de ser instrutor na escola de pilotos de caça na França, ele foi ordenado a tomar os jatos para si e treinar os pilotos. Queríamos provar a Hitler que o jato era na verdade um caça, e mostrar o que acreditávamos ser os melhores resultados possíveis. Essa unidade se tornou conhecida como “Kommando Nowotny” em julho de 1944.

-E como foram os primeiros resultados?
-Animadores. Eles tinham derrubado alguns bombardeiros, e as perdas foram mínimas, desde que caças convencionais voassem como cobertura para proteger os jatos nas decolagens e pousos. Os caças americanos ficavam de espreita para tentar derrubá-los nesses momentos de fraqueza.

-O que o trouxe a Achmer em 8 de novembro?
-Cheguei naquele dia para inspecionar a unidade e escrever um relatório, e conversei com Nowotny naquela tarde; ele iria me dar os relatórios de seus pilotos a respeito de suas ações. No dia seguinte, um grupo de B-17s foi detectado vindo na nossa direção, então a unidade decolou, cerca de seis jatos, se me lembro corretamente, na primeira leva, depois outra. Os Fw 190Ds estavam esperando na pista para decolar e cobrir seu retorno, engajando os caças Aliados que com certeza apareceriam. O líder de vôo no solo, Hans Dortenmann, requisitou permissão para decolar e ajudar, mas Nowotny recusou, disse para esperar. As baterias antiaéreas defensivas começaram a atirar em alguns Mustangs que se aproximaram do campo, mas em seguida se afastaram, pelo que entendi, e os jatos chegaram. Um Me 262 tinha sido derrubado, e Nowotny reportou um de seus motores como danificado. Ele estava voando somente com o motor direito, o que o fez vulnerável. Eu fui para fora para assistir sua aproximação da pista, quando um caça inimigo apareceu não muito longe de nós. Escutei o barulho de um motor a jato e vi esse 262 saindo das nuvens claras à baixa altitude, rolando devagar e depois atingindo o solo. As explosões atingiram o ar, e somente uma coluna de fumaça negra subiu detrás das árvores. Nós pegamos um carro e fomos até o local da queda, e lá estava o avião de Nowotny. Após procurar nos destroços, as únicas coisas que puderam ser recuperadas foram sua mão esquerda e pedaços de sua condecoração dos Diamantes.

-Que impacto isso teve no relatório de progresso para Hitler sobre os caças a jato?
-Hitler, pelo que entendi, ficou aborrecido com a perda, mas não acho que ele tenha dito alguma coisa a respeito comigo. Bem, os remanescentes daquela unidade iriam formar o JG.7, comandado por nosso amigo Johannes Steinhoff. Steinhoff recrutou outros grandes ases para comandar os diversos grupos.

-Após ser demitido como general dos caças, o senhor foi substituído por uma pessoa que os pilotos não respeitavam, certo?
-Sim, Gordon Gollob, e ele não era bem quisto. Embora fosse um bom piloto, com os Diamantes, ele não tinha caráter. Ele não era a primeira escolha de Göring. Hajo Hermann foi considerado, e ele teria sido uma escolha mais acertada. Quando fui dispensado, Göring estava preparando um golpe contra minha pessoa, e quando Hitler soube disso e ordenou que Göring parasse suas ações contra mim. Hitler ordenou minha substituição, mas me permitiu formar minha própria unidade de Me 262s, basicamente me permitindo manter minha patente, mas com responsabilidades reduzidas.

-Como se sentiu se tornando mais uma vez um líder de esquadrão, posição em que começou a carreira?
-Eu fiquei feliz. Então escolhi todos os pilotos que pude encontrar e que quiseram se juntar a mim, e todos tinham a Cruz do Cavaleiro ou grau mais alto. Isso foi no começo de março de 1945, quando criei o Jagdverband 44. Fiz de Steinhoff meu oficial de recrutamento, e ele viajou por todas as grandes bases, escolhendo pilotos que queriam mais uma vez sentir a aventura. Tínhamos grande parte dos grandes, como Gerd Barkhorn, Walter Krupinski, Heinz Bär, Erich Hohagen, Günther Lützow, Wilhelm Herget e outros. Tentei conseguir Erich Hartmann. Ele voou algumas missões e foi bem-sucedido usando os foguetes R4M, que disparávamos contra formações de bombardeiros. Durante meu primeiro ataque com foguetes, Krupinski era meu ala, e observamos o poder dessas armas. Derrubei dois Martin B-26 Marauders.

-Nos fale sobre 26 de abril. Foi seu último vôo de combate, não foi?
-Sim, fui derrubado por um P-47D Thunderbolt pilotado por um homem chamado James Finnegan, que conheci alguns anos depois, e nos tornamos amigos. Estávamos interceptando bombardeiros perto de Neuberg. Eu estava liderando o vôo, e ataquei pela traseira. Meus foguetes não dispararam, mas eu disparei meus canhões de 30mm num dos bombardeiros, que caiu em chamas, e voei bem no meio da formação, atingindo outro. Não pude confirmar que aquele bombardeiro tinha caído, então dei a volta para outra passada, enquanto meu jato recebia acertos do fogo defensivo dos bombardeiros. De repente, meu painel de instrumentos desintegrou-se, minha capota espatifou-se e meu joelho direito foi atingido. Estava perdendo força e com forte dor. Pensei em salta de pára-quedas, mas percebi que isso era perigoso, já que alguns de nossos pilotos tinham sido alvejados após saltar de seus jatos. Voei para a base e me alinhei com a pista, que estava sob ataque. Cortei a força do motor que funcionava e deslizei pela pista. A roda do nariz estava furada, e fumaça subia de meu avião. Me levantei para sair, já que podia explodir, somente para encontrar bombas caindo e foguetes sendo disparados contra mim. Bem, nossa missão naquele dia resultou em cinco vitórias no total, e nenhum de nossos pilotos foi morto. Daquele ponto em diante, Bär tomou o comando operacional, e todas as unidades com jatos na Alemanha começaram a trazê-los para nós em Reim, perto de Munique. Por um longo tempo eu implorava por aviões. Agora que a guerra estava quase acabada eu tinha mais aviões do que homens para voá-los.

-O senhor estava lá quando Steinhoff teve seu acidente. O que se lembra desse ocorrido?
-Cinco de nós – eu, Barkhorn, Schallmoser, Faehrmann e Klaus Neumann – estávamos decolando em uma missão pouco após nossa base ter sido atacada, e o 262 de Steinhoff atingiu uma cratera feita por uma bomba. Seu jato fez-se ao ar, mas sem força suficiente para manter-se, e então bateu e explodiu.Retornamos para a base para encontrá-lo no hospital mais morto do que vivo. O fato dele ter sobrevivido já é algo extraordinário, e estou muito feliz que ele tenha conseguido, porque ele é um dos meus melhores amigos.

-Após ser capturado e libertado da prisão, o senhor foi para a Argentina com outros especialistas em aviação. Como foi isso?
-Juan Perón queria especialistas alemães para construir sua força aérea, e fui convidado a vir junto com outros. Fui e estabeleci uma escola de treinamentos e operações, desenvolvi o programa de treinamento tático deles, e fui permitido voar em alguns novos modelos comprados pela Argentina. Realmente adorei aquele período. Foi um dos mais felizes da minha vida. Kurt Tank (projetista da série de caças Focke-Wulf 190) veio, e ele foi um dos que convenceram o presidente Perón a me chamar. Fiquei lá até 1955, quando retornei para a Alemanha e entrei no mundo dos negócios, dando consultoria e construindo minha vida.

-Como o senhor provavelmente já sabe, a Força Aérea Argentina ainda usava muitas de suas estratégias e doutrinas durante a Guerra das Malvinas, com muito sucesso.
-Sim, eles perderam a guerra, mas tiveram muito sucesso no ar. Eram jovens brilhantes, dispostos a aprender rápido e assimilar o essencial do combate aéreo.

-Fale-nos sobre seus filhos.
-Tenho dois – Andreas-Hubertus, que chamamos de Andrus, combinando os dois nomes; e Alexandra, minha filha, dois anos mais nova que seu irmão e uma garota muito doce. Ambos são do meu primeiro casamento. Andreas-Hubertus recentemente se casou e está estudando para se tornar advogado, enquanto Alexandra está na escola e estuda línguas. São os raios de sol de minha vida.

Fonte: World War II Magazine, fevereiro de 1997.

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Um comentário:

Anonymous disse...

Parabéns Júlio. Bom mesmo.
Já emoldurou as fotos autografadas?

Abraços,
Leo