
-O que aconteceu após a Batalha da Inglaterra?
-Nós voltamos, mas antes tivemos que remover a carenagem do trem de pouso já que havia muita neve (e as rodas encalhavam). Voltamos porque as coisas tinham ficado ruins na África. Aconteceu a retirada do Gen. Graziani e em dois dias fomos parar em Sirte, pousando com tempo horrível. Mas leve em conta que durante a transferência nós nunca, eu disse nunca, perdemos uma única aeronave. De Mirafiori pousamos em Pisa, então em Reggio Calabria, depois Pantelleria, Zuare, Castelbenito e finalmente Sirte, bem perto da linha de frente. Podíamos ver as infinitas colunas de soldados debandados, estavam em fuga, e ninguém conseguia pará-los. Imediatamente decolamos para atacar as colunas inglesas, em particular ao redor de Agedabia, e conseguimos mantê-las à distância. Me lembro que nosso Maggiore, com outros oficiais, tomou posição na Via Balbia, com pistolas nas mãos, tentando parar e reagrupar os debandados, enquanto continuávamos indo e indo, de novo e de novo (voltávamos somente quando estávamos sem munição). Acho que nossa participação foi bem importante, como também a do 8º Gruppo e outros. Ficamos lá por alguns meses. As condições eram desastrosas, comíamos apenas “gallette” (terríveis biscoitos secos do Exército, acredite, provei daquilo!) e latas; essa porcaria costuma inchar no estômago em grande altitude causando muita dor... Não tínhamos água, e tudo era cheio de moscas e escorpiões. No fim, nos mandaram de volta para descansar e deixamos as aeronaves para o grupo de Vizzotto ou Balio, não me lembro direito. Voltamos para a Itália, onde tivemos 20 dias de folga e nos trouxeram para Caselle, onde fizemos alguns vôos com o G.50, para terminar com o Macchi MC.200, o “Saetta”, monoplano de motor radial. Então de lá fomos para a Grécia em Araxos em 1941, bem perto do mar. Realizamos alguns cruzeiros de escolta. Me lembro que Argostoli e Cefalonia eram zonas proibidas para vôo, por ordem do Quartel-General. Me lembro de ter visto um dia, junto com meu ala, um avião negro voando para Argostoli. O segui e ia derrubá-lo, e então vi as cruzes alemãs, mas meu ala, um jovem Sergente, pensou que eu tinha errado e alvejou-a. O avião estava cheio de gasolina e foi ao chão. Houve um julgamento, mas o novato foi inocentado porque o avião fez um pouso forçado em terra (acredito que a tripulação sobreviveu). Fizemos vários vôos de escolta para o sul do Mar Egeu. Em certo ponto nos chamaram de volta: nosso Gruppo, o 18º, era autônomo e podia ser engajado em qualquer lugar. O outro Gruppo, o 23º, estava sobre Malta. Nos mandaram novamente pro Norte da África, dessa vez com o Macchi MC.200.
-O Macchi MC.200 era melhor do que o CR.42?
-Sim, era melhor, mas ainda era obsoleto se comparado às máquinas inglesas. Ainda tinha um cockpit aberto, o que em qualquer lugar da África não era uma coisa ruim... Pousamos em Bengazi, onde eu já tinha derrubado antes, com o CR.42, dois Bleheim que iam bombardear o porto, e depois derrubei outro. Vi muitos deles passarem bem em frente ao meu nariz, por uma simples razão: eles eram mais rápidos que nós. Se estivéssemos em grande altitude podíamos pegá-los, de outra forma era impossível. O Bleheim era um bombardeiro leve e era escoltado pelo Beaufighter, um caça pesado: duas máquinas lindas. De Bengazi fomos para Ouadi-Tamed e lá, já que continuávamos comendo aqueles horríveis biscoitos e latas, um dia eu tive uma grande idéia. Peguei um CR.42 e voei sobre Ouadi. Havia muitas gazelas bebendo água e se escondendo nos arbustos, mas com o barulho do avião elas correram em campo aberto e eu abati três ou quatro delas. Um caminhão as pegou e então teve carne pra todo mundo. Outra vez estávamos no Golfo de Bomba e eu disse pro guarda do paiol: “Hoje vamos comer peixe, tire os fusíveis dessas bombas de 50 kg”. Ele tirou e depois que as jogamos na água, tínhamos um monte de peixes subindo!
Eu podia prover nossa unidade até com carros, porque durante um vôo de perseguição, ou devo dizer, um reconhecimento noturno para interceptar comandos que atacavam nossas bases à noite, eu vi um monte de carros abandonados no meio do deserto. Não tínhamos carros. Apenas pegamos um caminhão SPA 38, um barril de gasolina e um de água, e montamos uma metralhadora de uma aeronave abatida no topo. Fomos desse jeito. Encontramos os carros, sem sinal de balas, nem corpos, e todos aqueles carros eram ingleses, alguns do exército de De Gaulle. Nós até achamos algumas armas. Ficamos bastante animados e conseguimos muita coisa. Alguns dos carros funcionavam, outros tivemos que rebocar com o SPA. Estávamos prontos pra partir quando escutamos um único tiro de rifle; não sabíamos de onde tinha vindo e retornamos fogo de metralhadora. Vimos um homem saindo dos arbustos, sujo e com roupas rasgadas, com uma longa barba ruiva e as mãos para cima. Ele era artilheiro de um Bleheim, que tinha saltado após sua aeronave ser atingida durante um bombardeio em Tobruk. Ele perambulou pelo deserto até chegar ali, e ficou lá por trinta dias bebendo água dos radiadores. Também descobrimos porque os carros estavam abandonados: estavam no meio de um campo minado. Meus companheiros ficaram preocupados, mas pouco a pouco conseguimos sair de lá ilesos. Voltamos com nossas aeronaves procurando por nós, trouxemos alguns caminhões e um Peugeot francês que oferecemos ao nosso comandante. Também encontrei uma Guzzi com motor em V com placa de Turim. Esses veículos foram muito úteis depois, durante a retirada de 5.000km de El Alamein.
Estávamos em Abu-Agad quando instalaram em nossos aviões os suportes para bombas especiais, as “Mazzolino”, que eram bem poderosas mas com corpo de alumínio. Foi dito que com tais bombas os alemães tinham sobrepujado a Linha Maginot. O problema era que se alguém voltasse com essas bombas ainda presas aos suportes, ele podia explodir facilmente, e isso infelizmente aconteceu duas vezes. Então, retiraram esses suportes e instalaram outros para um par de bombas de 50 kg. Então, tínhamos que funcionar também como bombardeiros, em particular quando avançamos até Mersa-Matruh, quando nos juntamos ao outro grupo nosso, já equipado com o Macchi 202. O fato de que atuávamos como caças-bombardeiros explica nosso brasão: uma vespa furiosa segurando uma adaga em uma mão, que representa o caça-interceptador, e na outra mão uma luva de boxe, representando o caça-bombardeiro.
-O Macchi 202 era uma aeronave definitivamente melhor?
-Já era uma aeronave competitiva com certeza. De qualquer forma, quando tínhamos que enfrentar enxames de P-40s e Spitfires, nem essa máquina podia fazer muito.
-Então o Spitfire era um páreo duro?
-O Spit era um páreo duro... Tinha muitas metralhadoras, mais dois canhões de 20mm e era mais rápido. O 202 era significativamente inferior em termos de velocidade e armamento. Em certo ponto o 4º Stormo, que parecia a melhor unidade italiana (mais tarde os comandantes se tornariam comandantes da força aérea) e era sempre provida com as melhores aeronaves, foi chamado de volta quando a situação começou a se deteriorar e nos deixou, o 18º Gruppo, com seus Macchi 202 e nós demos nossos MC.200 para os caras do 8º Stormo que ainda tinham o CR.42. Finalmente, quando tivemos uma aeronave competitiva, foi um inferno, já que enxames de aeronaves inimigas começaram a vir contra nós.
-Quando o senhor percebeu o que acontecendo, quero dizer, a derrota em El Alamein?
-Bem tarde, mesmo que estivéssemos preocupados com os bombardeios que ficavam cada vez mais freqüentes, de dia e de noite. E de longe nos vimos a primeira linha que foi martelada pela artilharia. Mas até essa época nossa posição foi deixada em paz, estávamos em Abu-Agad, perto do mar. Até quando deixávamos algumas luzes acesas durante a noite os aviões deles não nos atacavam. Mas uma noite então... um dos bombardeiros deles fez duas passagens e lançou duas bombas de fragmentação, para nosso pessoal ao invés de destruir nossas aeronaves. Não eram bombas concebidas para explodir a fundo, elas mataram muitos pilotos. Naquela noite eu estava na cama na minha tenda, mas alguns estavam acordados jogando cartas. As luzes estavam ligadas dentro e fora, e não havia abrigos; a única proteção era uma linha de barris de petróleo vazios perto do mar, com arame farpado e uma metralhadora pesada para nos proteger de incursões anfíbias. Estava dormindo na minha cama de campanha, a tenda estava fechada. Não me lembro quem abriu mas me lembro que corri pra fora seminu. Eu primeiro, seguido por Sandini e Scocchetti, e as bombas caíram em meio a nós. Eu pulei no buraco que usávamos como latrina, que por sinal já estava cheia de gente. Eu ouvi gritos, pessoas pedindo ajuda, e eu estava pelado porque meu pijama foi rasgado pelas explosões. Eu achei Scocchetti segurando seu abdômen enquanto seus intestinos caíam...
Lambertini foi mortalmente ferido nas costas e morreu do meu lado; outro, que aparentemente não tinha sido atingido, morreu por causa da explosão de ar. Perdemos 12 entre pilotos e especialistas. Outro cara amputou sua própria perna com sua faca, pobre Leo, enquanto o levávamos para o hospital. Então, a retirada começou. Uma cena indescritível, era difícil acreditar no que estava acontecendo, no que eu vi. Nos movemos com nossos aviões que sobraram, de base em base, ou onde quer que pudéssemos pousar, e esperávamos que a Luftwaffe nos viesse trazer gasolina durante a noite; algumas vezes eles nem sabiam onde jogavam aqueles barris. Reabastecíamos os aviões, rearmávamos, e esperávamos os inimigos chegarem com seus tanques. Quando estavam bem perto, decolávamos para encontrá-los. Ataque e vôo de volta para outro aeroporto: fizemos isso por 4.000 km. No fim, chegamos à Trípoli, onde tinha um circuito de corrida. Não tínhamos nada para comer nem beber. Uniformes e calças eram mantidos juntos por arame, sujo. Tivemos que ir para Zuara, mas quatro pilotos tiveram que ficar lá com o Tenente Speicher e, quando todo mundo tivesse partido, jogar gasolina nos depósitos e incendiar tudo. Dentro tinha praticamente de tudo. Montanhas de café, uniformes, roupas pro deserto. Tivemos que jogar gasolina e atirar lá dentro para que tudo queimasse. Havia pilhas de garrafas d’água de Ciampino, montes de roupas, nos divertimos abrindo um monte de caixas, estávamos curiosos. Quebramos tudo; eu achei uma caixa cheia de câmeras fotográficas e pus quatro delas no pescoço, mas as perdi no caminho. Atiramos lá dentro e queimamos tudo. Então chegamos a Sfax, Medelin e Korba. Agora, estávamos na Tunísia. Me lembro que roubamos os lençóis do Maggiore Camarda e tive a oportunidade de participar da Batalha de Kasserine, onde os americanos foram duramente derrotados pelos alemães; escoltávamos tanques alemães, como foi representado numa pintura feita por uma associação de pilotos de caça americanos que dirige dois importantes museus. Sei que no Arizona, em Mesa, há uma grande foto minha, junto com o Maggiore Visconti; me convidaram para ir aos EUA diversas vezes, mas não me sinto a vontade em ir lá. Me convidaram também em Londres e em Munique; no final vieram até aqui e me fizeram assinar um bocado de fotos minhas feitas por um pintor, me mostrando como membro da Regia Aeronautica e escoltando Tigers alemães na Tunísia. Essa pintura esta exposta ao lado de outras que mostram ações de Clostermann, o francês, Adolf Galland, o alemão, e Townsend, o inglês: os grandes ases do ar. Eu assinei 600 delas e as venderam por mais de meio milhão (de Liras). Um amigo meu viu isso, um cara que, depois da guerra, teve de ir para a América por medo; houve muitos de nós que foram para a América e se tornaram pilotos civis.
-Agora é 1943: Tunísia, Sicília, a guerra piora. O que o senhor sentiu?
-Não fui mandando pra Sicília... Entretanto, entendíamos que a guerra estava perdida após El-Alamein. Vimos os recursos que eles tinham, derrubávamos dez e, no dia seguinte, o dobro nos atacava. Não podíamos mais repor as perdas e estávamos ficando sem aeronaves; saímos e deixamos as aeronaves pra quem ficava.
-No verão de 1943 começou o bombardeiro maciço de cidades italianas: quase todas as cidades foram atingidas, em particular as maiores como Nápoles, Gênova, Turim, Milão e finalmente Roma. O que fez pra defendê-las?
-O 3º Stormo voltou para a Itália, em Milão, e fomos equipados com o Macchi 202 e alguns Messerschmitts que os alemães nos deram. Já que éramos um grupo bem compacto, nos empregaram na defesa de Roma. Estávamos em Ciampino e éramos liderado por Tito Falconi, um homem muito bom que era invejado e odiado até se tornar campeão mundial de vôo invertido; ele era um homem independente que fazia as coisas à sua maneira, ignorando os burocratas do Ministério. Fomos todos empregados na pista sul do aeroporto, todo o Stormo, e embora devêssemos defender Roma, éramos constantemente chamados para ajudar na defesa de Nápoles que estava apenas fracamente defendida por algumas Squadriglie autônomas. Nosso Stormo consistia de seis Squadriglie, mais de sessenta aeronaves. Uma noite, nossos bombardeiros estavam decolando da pista norte em vôos solitários, os SM.79, um a cada cinco minutos. Um Beaufighter ficou na cauda de um SM.79 e o seguiu pra ver de onde tinha saído. Quando lançamos o foguete sinalizador para o pouso, a aeronave inglesa foi avistada e derrrubada pelo flak alemão. O Comandante Falconi disse: “Se aquele cara comunicou por rádio nossa posição de decolagem, amanhã eles destruirão nosso aeroporto.” Nessa época eles atacavam seus alvos com no mínimo duzentos quadrimotores, em formações massivas. Falconi não esperou pelas ordens ministeriais e ao amanhecer ordenou todas as aeronaves disponíveis para decolar e rumar para Cerveteri, no norte de Roma. Fomos para lá.
-Então, havia somente sessenta aviões para defender Roma?
-Sim, havia apenas nós e alguns caças-noturnos em Centocelle, só isso. Teve o Rotondi que voava com um Lightning capturado dos americanos e eu quase derrubei ele, aquele idiota... Em Cerveteri tivemos que esperar a ordem do Ministério antes de decolar, mas Falconi, assim que descobriu que havia uma formação de bombardeiros voando em direção a Roma, nos deu a ordem pra partir. Eu estava num 202, e voamos para Ostia. Aquele foi o dia do famoso bombardeio de Roma, 18 de julho de 1943, e é dito que o famoso ator de cinema Clark Gable participou dele: eu tentei em vão avistar o desenho que caracterizava sua aeronave.
Há algum combate em particular do qual queira falar?
-Bem... Um dia, logo depois do bombardeio de Roma, chegou a notícia de que um novo avião seria entregue ao Gruppo, o Macchi MC.205. Tivemos uma reunião para decidir quem iria pilotar a nova máquina e, devido ao número de vitórias aéreas que eu já tinha, consegui um. Me deram uma permissão para viagem e fui para o norte pegar a nova aeronave; quando a vi, perguntei por informações e explicações. “O que tenho que te dizer?” disse o piloto de testes, um romano, “este ainda é o 202. Só uma coisa: se você tiver que atirar, não atire com todas as armas ao mesmo tempo, o coice é bem forte. Ou você dispara os canhões de 20mm ou as metralhadoras 12,7mm.” No entanto, nunca segui esse conselho e sempre atirei com todas as armas ao mesmo tempo: se for, foi... “Esse é o 202, venha, vá!”... Ao invés, assim que estava no ar, percebi que o motor era mais potente. Cheguei a Cerveteri e o Maggiore Camarga disse: “Gorrini, amanhã você está de folga”. E eu: “Enquanto eu não tiver lutado com esse aqui, estarei no alerta todos os dias”. Aquela aeronave durou só 48 horas!
O comandante ordenou que decolasse com os outros, já que eu tinha a mais poderosa e bem-armada aeronave e deveria ser seu ala, enquanto todos os outros estavam na ala esquerda. Era o Capitano Giuntella, hoje um Generale. Eles partiram e eu parti também, finalmente, em meio a uma grande nuvem de poeira; chegamos à costa de Ostia e avistamos uma grande formação de bombardeiros inimigos. Não tínhamos noção de onde estavam indo, acreditávamos que era Roma de novo, mas depois descobrimos que o objetivo era Sulmona e lá estava, escondida entre as árvores, a divisão blindada Hermann Goering. Uma imensa formação, ali bem em frente aos meus olhos: o comandante me sinalizou para ficar calmo, já que estávamos em silêncio de rádio, mas no fim o Capitano Giuntella viu que eu estava insistindo e me deixou ir. Eu subi, e enquanto ascendia ataquei o último da esquerda, mirando entre a asa e a fuselagem: era um B-17, uma “Fortaleza Voadora”. Fiz um looping e voltei, bem a tempo de ver a asa literalmente destroçada, com os dois motores ainda girando e a aeronave caindo em parafuso. O avião caiu no aeroporto de Nettuno: Eu estava a 7 mil metros, mas pude sentir o deslocamento de ar e vi dois ou três pára-quedas abrindo; cometi então o mesmo velho e estúpido erro que todos os pilotos que derrubam uma aeronave cometem, que é voltar e ver onde a aeronave caiu. Um caça de escolta, um P-38, me achou, e vi suas balas passando por cima da minha cabeça; errou por centímetros e em seguida fez a burrice de se por na minha linha de fogo: o acertei em cheio, ele explodiu e se eu não estive firme nos controles passaria por dentro da explosão. Vi o piloto, que teve tempo de saltar. Então voltei a perseguir a formação, cruzando toda a Itália e interceptando-a sobre o objetivo, onde ataquei o último B-17. Fiz diversos ataques e depois de um tempo vi 9 pára-quedas descendo, mas o avião continuou a voar novamente em seu curso. Eu ataquei novamente e fiz algo que repetiria somente algumas vezes, atirar na cabine. Mas não havia ninguém, eles tinham ativado o piloto automático. O avião começou a perder altitude e, de novo, o segui pra ver onde cairia. Doze Lightnings me atacaram, seis de um lado e seis do outro. Mantive a aeronave em curvas e, já que eu continuava a atirar em longas rajadas, as armas superaqueceram e o canhão esquerdo explodiu, perfurando minha asa. Eu tentei escapar, estava horrivelmente assustado e, lá pelos 3 mil metros meu canopy se soltou e quebrou a antena de radio, danificando a cauda. Nessas condições, com o único mapa que eu tinha sendo levado pelo vento, fiquei puxando o manche para o ponto onde conseguia algum controle. Desci para 1.500 metros e vi o mar. Tentei o rádio. Chamei, chamei... nada. Finalmente consegui uma resposta. Eu estava em Pescara, me lembro do porto; me deram alguns conselhos para me orientar, mas estava ficando sem gasolina. Mais ainda, me disseram para não aterrissar em Cerveteri porque a pista tinha sido destruída por um bombardeio. A primeira formação que interceptei foi seguida por uma segunda que atacou Cerveteri. Me disseram para aterrissar na pista perto de Ostia, perto da torre onde, algum tempo depois, Salvo D’Acquisto foi fuzilado. O combustível continuava baixando, eu não podia ver Cerveteri chegando, nem a pista: finalmente sobrevoei a área, mas o propulsor travou. Não havia uma única gota de gasolina restante. Me lembro dos cabos de alta tensão da ferrovia, e que embiquei para o solo para ver se conseguia velocidade para passá-los. Foi a força do desespero que me salvou, o trem de pouso também não funcionava direito. Pousei e o Maggiore veio ter comigo, furioso, fiquei com medo dele me comer vivo. A aeronave estava um arraso. “Comandante, eu peguei dois quadrimotores e um caça!” “Não me fale essas ********!” foi sua resposta. “Isso não é ********, eles não caíram no mar, caíram atrás de nossas linhas. Não sou um oficial comissionado. Vamos voltar e checar.” Pegamos um Fieseler Storch, um avião alemão de reconhecimento. Partimos, mesmo eu nunca tendo voado um daqueles antes, e chegamos à Nettuno. Havia uma cratera gigante, os caras da antiaérea nos disseram que dois pilotos conseguiram saltar e foram capturados pelos Carabinieri [polícia militar italiana] junto com alemães.
“Lá está o primeiro!” Fomos procurar por eles (os dois pilotos) e eles nos disseram que foram atacados por um único avião, extremamente rápido e sem insígnias. “Certo, vamos prosseguir”, e fomos procurar pelo Lightning no lago Nemi... Finalmente pousamos numa pista de grama e duas crianças nos disseram que tinham visto um motor nas redondezas e que o piloto tinha sido capturado pelos Carabinieri. Fomos vê-lo, o piloto era francês e ele nos disse que tinha tido uma luta com uma aeronave sem insígnias. Então tivemos de ir à Sulmona, e o Maggiore hesitou, já que tínhamos que cruzar os Apeninos e entramos numa tempestade que nos sacudiu por quarenta minutos. Queríamos voltar, mas atrás estava mais escuro que na frente, e água estava entrando no cockpit. Então chegamos à Sulmona e fomos ao QG dos alemães, onde ficavam os prisioneiros, entre eles um cara enorme. Ele era o comandante da Fortaleza Voadora, um australiano. Ele disse a mesma coisa que os outros disseram: caça rápido, sem insígnias, isolado. “Gostaria de conhecer o piloto”, ele acrescentou, e o Maggiore apontou pra mim. O cara estendeu a mão e apertou a minha com tanta força que quase o chutei. Então ele quis me dar um presente, abriu sua bota, tirou uma pistola 7,65mm e me entregou. Alguns dias depois me derrubaram sobre Frascati, após eu ter derrubado um Spit e ser atacado por quatro deles.
CONTINUA...
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