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terça-feira, 30 de outubro de 2007

Baú da Sala



A Sala de Guerra quer fazer uma homenagem a todos os veteranos da Segunda Guerra Mundial, publicando uma foto sua e contando um pouco de sua história.

Você tem algum parente ou conhecido que participou da II Grande Guerra? Então mande para nós uma foto dessa pessoa, junto com um pequeno histórico. Todas as semanas a Sala de Guerra irá mostrar essas pessoas e contar suas histórias. Seu pai, avô ou amigo podem ser os próximos, envie o material para:


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domingo, 28 de outubro de 2007

Felix Steiner


Felix Steiner
SS-Obergruppenführer
(1896 - 1966)

Felix Martin Julius Steiner nasceu em Ebenrode, na Prússia Oriental, em 23 de maio de 1896. Durante a Primeira Guerra Mundial ele combateu em ambos os fronts oriental e ocidental, ganhando as duas classes da Cruz de Ferro. Steiner teve particular interesse no desenvolvimento do conceito de Sturmtruppe tão efetivamente empregado na ofensiva alemã da primavera de 1918. Ele permaneceu no Reichswehr no fim da guerra, mas somente quando o Major Steiner foi transferido para o SS-Verfügungstruppe – a precursora da Waffen-SS – foi que ele teve a oportunidade de desenvolver treinamento para essas táticas, livre do pensamento tradicionalista do Exército do entre-guerras. O lema de Steiner, “Suor poupa sangue”, se provou inteiramente válido.

O SS-Regiment “Deustchland” lutou bem sob o comando do SS-Standartenführer Steiner em 1940, e ele ganhou a Cruz do Cavaleiro em 15 de agosto. Quando no mês seguinte tomou-se a decisão de formar uma divisão incluindo voluntários dos “países germânicos”, o revolucionário Steiner foi escolhido para liderá-la e recebeu a promoção para SS-Brigadeführer. Formada a partir do regimento “Germania” do SS-VT, a nova formação (originalmente nomeada “Germania”, mas depois de algumas semanas rebatizada “Wiking”) também incluía homens da Holanda, Dinamarca, Noruega, Bélgica e Bálcãs, e ainda alguns voluntários das neutras Suécia e Suíça. Sob a liderança de Steiner, “Wiking” se tornou uma das melhores unidades da Waffen-SS, inicialmente motorizada, depois mecanizada e finalmente blindada. Ele a comandou no setor sul do front russo a partir de junho de 1941, lutando em Tarnopol, Uman e Korsun antes de ser parado no rio Mius em dezembro. No mês seguinte ele foi promovido a SS-Gruppenführer.

Em 1942 a divisão de Steiner tomou parte na mais profunda penetração da Wehrmacht, via Rostov no Don até Tuapse, os campos petrolíferos de Maikop e o rio Terek no Cáucaso. Em 23 de dezembro de 1942 ele foi condecorado com as Folhas de Carvalho para a Cruz do Cavaleiro. No início de 1943 a reequipada SS-Panzergrenadier Division “Wiking” foi essencial em impedir o Exército Vermelho de romper em direção ao Mar de Azov e cercar um grande número de tropas alemãs na área perto dos rios Don e Donets.

No começo de março de 1943, Felix Steiner foi apontado comandante do recém-formado III (germanisches) SS-Panzerkorps, o qual liderou com distinção até outubro de 1944, sendo promovido a SS-Obergruppenführer em julho de 1943. Sua unidade estava na cabeça-de-ponte de Oranienbaum, sudoeste de Leningrado, quando a ofensiva soviética partindo daquela cidade e ao longo do Golfo da Finlândia começou em janeiro de 1944. Seus homens ficaram envolvidos em feroz luta defensiva até setembro, quando foram finalmente forçados a recuar para os países bálticos. Por sua impressionante habilidade de comando, Steiner recebeu as Espadas para a Cruz do Cavaleiro em 10 de agosto de 1944; em setembro o que restava de sua unidade recebeu um breve descanso na Croácia.

Steiner comandou o 11º Exército Panzer durante a defesa da Pomerânia no começo de 1945. Embora na prática muito mais fraca do que o nome sugeria, essa unidade parou o avanço de Zhukov com desesperados contra-ataques ao redor de Stargard, antes de ser forçada a recuar para oeste sobre o rio Oder. Nos últimos dias do Terceiro Reich, Hitler manteve a fantasia de que as tropas de Steiner atacariam para o sul, em sua última esperança de salvar Berlim. Steiner não tinha nenhuma intenção de desperdiçar as vidas de seus homens restantes, e simplesmente ignorou as ordens vindas dos Generais Jodl, Keitel e Heinrici. Foi após saber da recusa de Steiner, na conferência da tarde de 22 de abril, que Hitler teve um de seus últimos grandes acessos de fúria e admitiu que a guerra estava perdida, dizendo que ficaria em Berlim até o fim.

Após sua libertação do cativeiro britânico em 1948, Steiner foi atuante no trabalho pelo bem-estar dos veteranos alemães. Ele escreveu uma série de livros descrevendo suas experiências durante a guerra, o mais famoso sendo Armee der Geächten (Exército dos Foras-da-Lei). Felix Steiner faleceu durante sua aposentadoria na cidade de Munique, em 12 de maio de 1966, aos 69 anos de idade.

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sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Fiat CR.42 Falco


ORIGENS

O nascimento do último caça biplano a servir na Segunda Guerra Mundial aconteceu durante o julgamento para escolher o novo caça monoplano da Regia Aeronautica (o chamado avião "Serie 0"). Esperando pela avaliação e testes de vários monoplanos, o comandante em chefe da R.A., General Valle, encomendou a produção do CR.42 que era identificado como "caça transitório de motor radial, concebido para facilitar a conversão de novos interceptadores".

Isso levou à construção do primeiro protótipo no início de 1938 e em 23 de maio do mesmo ano ele voou pela primeira vez. Naturalmente, com a experiência ganha pelo designer Celestino Rosatelli com excelentes biplanos como o CR.30 e o CR.32, também seu CR.42 tinha excelentes características de vôo, tanto que antes de obter os resultados dos testes militares oficiais, a primeira série de 200 CR.42s já tinha sido encomendada, um número maior do que o Macchi C.200 ou o Fiat G.50, mas isso poderia ser atribuído também aos persistentes problemas dos novos monoplanos.

O paradoxal resultado foi que, embora ambos o C.200 e o G.50 já estivessem fora de produção em meados de 1942, o CR.42 "Falco" ainda estava em produção em 1944, enquanto o novo jato alemão Me 262 já era operacional! Equipado com o confiável motor Fiat A.74 RC.38, o Falco estava em serviço com o 53º Stormo em maio de 1939 e antes da entrada da Itália na guerra, 300 aeronaves já haviam sido entregues à Regia Aeronautica, constituindo 40% de toda a sua força aérea.

SERVIÇO NO ESTRANGEIRO

Enquanto isso, o avião recebeu diversas encomendas estrangeiras: Hungria (50 unidades), Bélgica (40 unidades) e Suécia (72 unidades). A Hungria foi a primeira a comprar o biplano italiano para seu Magyar Királyi Légierõ (força aérea) e iniciou pedidos para 52 aeronaves durante o verão de 1938, equipando quatro esquadrões (1./1, 1./2, 1./3 e 1./4 do 1º Regimento de Caça) na primavera de 1940. Os CR.42 da Força Aérea Húngara voaram numerosas missões durante o ataque húngaro-germânico à Iugoslávia, lançado em 6 de abril de 194. Uma Brigada Especial da Força Aérea foi formada menos de dois meses depois para acompanhar o Corpo Aéreo Húngaro no ataque à União Soviética em 22 de junho de 1941. O principal elemento de caça eram 12 CR.42s do Esquadrão 1./3. Em dezembro de 1941, após cinco meses de operações contínuas em que o 1./3 sozinho tinha voado mais de 300 missões, destruindo 17 aeronaves soviéticas em combate com a perda de dois CR.42s, a qualidade da Brigada da Força Aérea se deteriorou rapidamente e foi chamada de volta à Hungria e os CR.42s relegados a treinamento.

Em fins de setembro de 1939 o governo belga comprou 34 CR.42s para suprir as necessidades de renovação da frota de seu corpo aéreo para a guerra, mas o pedido não foi completado e somente 26 CR.42s foram entregues, equipando a 3ª e 4ª Escadrilles, lutando contra a Luftwaffe a partir de 10 de maio de 1940, efetuando 35 missões operacionais e conseguindo cinco vitórias aéreas com a perda de apenas dois Fiats em combate antes da rendição da Bélgica em 28 de junho.

Os primeiros CR.42 suecos (nomeados J-11) foram comprados juntamente com o pedido de 120 Reggiane Re.2000s. O pedido do caça da Fiat foi de 72 aeronaves e era a terceira e maior exportação do Falco. Os caças italianos que serviram na Força Aérea Sueca tinham a designação J20 (Re.2000) e J11 (CR.42). Os J11s foram entregues entre fevereiro de 1940 e setembro de 1941. Em novembro de 1941 todos os Falcos estavam em serviço e foram enviados ao F9 (Fiottilj) em Gothenburg. Modificações incluíam uma placa protetora de 20 mm atrás do piloto, equipamento de rádio e skis para serviços de inverno. O CR.42 foi declarado obsoleto em 1945 e as aeronaves remanescentes foram compradas pelo AB Svensk Flygtjanst e usado nos anos do pós-guerra treinador de mira.

Houve também uma pequena experiência do CR.42 na Finlândia. De fato, 12 CR.42s haviam sido comprados e os cinco primeiros foram recebidos em abril de 1940 pelo Suomen Ilmavoimat, mas eles foram desativados (os problemas com os Fiat G.50 foram demais para os finlandeses) e mandados de volta à Suécia.

COM A REGIA AERONAUTICA

Voltando a Regia Aeronautica, suas primeiras operações na Segunda Guerra em 10 de junho de 1940 contra a França foram efetuadas pelos CR.42s do 53º Stormo (150º e 151º Gruppi) e do 3º Stormo (18º e 23º Gruppi). Dois dias depois o 13º Gruppo na Líbia começou a operar contra as forças inglesas. No front francês, os CR.42s clamaram dez vitórias contra cinco derrotas, mas essa estimativa é otimista, quando na verdade deve ter sido 1 para 1. Na África, as operações mais intensas aconteceram na Somália e Etiópia e lá, o comando da Africa Orientale Italiana tinha 36 CR.42 disponíveis, empregando-os de 3 a 19 de agosto de 1940, obtendo superioridade aérea contra a RAF. Mas as perdas eram grandes e embora 51 Falcos tivessem sido entregues desmontados dentro de SM.82s, o isolamento do AOI começou a ser uma pesada necessidade a ser superada, sendo que em 10 de janeiro de 1941 o número de aeronaves caiu para 26 e apenas cinco em meados de abril. Os dois únicos CR.42s sobreviventes conseguiram lutar em outubro de 1941, mas em 27de novembro o AOI foi perdido, e com ele 87 CR.42s.

Outra operação que aconteceu em fins de 1940 foi o infame Corpo Aereo Italiano (C.A.I.). Foi apenas uma operação de propaganda para ter aeronaves italianas lutando contra a RAF no Canal da Mancha e se provou mal concebida e conduzida, mostrando todos os defeitos da Regia Aeronautica. Os Fiat CR.42s que operaram no C.A.I. eram cinqüenta, pertencentes ao 18º Gruppo. Em 19 de outubro de 1940 eles foram transferidos para o campo belga de Ursel. A primeira ação ocorreu em 29 de outubro, quando 39 CR.42s escoltavam os Fiat BR.20s em Ramsgate.

Em 11 de novembro os bombardeiros foram escoltados sobre Harwich por 40 CR.42s mas foram interceptados por Spitfires e Hurricanes causando a perda de três Fiats (um deles era o avião pilotado por Pietro Salvadori que conseguiu pousar em solo britânico e que a aeronave está atualmente sendo exibida no museu da RAF em Hendon) enquanto outros 19 tiveram que fazer um pouso forçado na Bélgica devido à falta de combustível causada pela batalha. A última ação de novembro ocorreu no dia 29 entre Margate e Folkestone em um combate contra Spitfires que causou a perda de mais dois CR.42s (as perdas britânicas são incertas, se ocorreram). Em 10 de janeiro de 1941 os Falcos começaram a voltar para a Itália. A falta de equipamento de aquecimento, os cockpits abertos, rádios primitivos em adição à absoluta falta de senso de navegação dos pilotos italianos (o treino específico só foi implantado após 1942) transformaram essa operação em um pesadelo para os envolvidos.

Os CR.42s ainda eram usados em 1943, quando foi assinado o armistício. A partir daquele momento, a maioria dos sobreviventes foi usada pelos alemães (em unidades de ataque e escolas de treinamento) ou, em pequenos números, pela Força Aérea Italiana Co-Beligerante e ANR, como aeronaves de serviço e treinadores.

CONCLUSÃO

Mais ou menos quarenta CR.42s sobreviveram à guerra e quase vinte deles foram usados pela Força Aérea Italiana no fim dos anos quarenta como treinadores (pelo menos onze foram modificados como bipostos) e aeronaves de serviço. A carreira do Falco tinha realmente acabado, um tipo de monumento a um grande avião, o último de sua espécie, mas também um monumento à incapacidade da Regia Aeronautica em desenvolver em tempo um sucessor para uma aeronave idosa que representava uma fórmula obsoleta.

DADOS TÉCNICOS

Tripulação: 1
Comprimento: 8.25 m
Envergadura: asa superior: 9.70 m, asa inferior: 6.50 m
Altura: 3.06 m
Área alar: 22.4 m²
Peso vazio: 1.782 kg
Peso cheio: 2.295 kg
Motor: 1× Fiat A.74 RIC38 de 840 hp (627 kW)
Velocidade máxima: 441 km/h
Alcance: 780 km
Teto operacional: 10.210 m
Armamento: 2× metralhadoras Breda SAFAT de 12,7 mm, 2x bombas (200 kg)

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quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Entrevista com Luigi Gorrini - Parte 3


-Em 25 de julho Mussolini caiu, o povo sabia o que ia acontecer em seguida?
-Olha, nosso moral sempre estava bem elevado. Ficávamos no Hotel Margherita de Ladispoli, perto de Cerveteri. Lá havia muitas estrelas de cinema da Cinecittà, que haviam fugido de Roma: muitas atrizes. À noite, após o jantar, íamos tomar café no único bar da cidade, onde podíamos encontrá-las todas. E quem derrubava um avião recebia uma garrafa de spumante (espécie de champanhe italiano), era divertido, pode imaginar? O que aconteceu em 25 de julho não nos afetou. Prosseguimos como se nada tivesse acontecido. Sabíamos que em Fregene, próximo a nós, estava Ettore Muti; se ele tivesse vindo ficar conosco, talvez sua vida tivesse sido salva, ao invés de o terem matado. Um dia nos mandaram defender Nápoles, o que já tínhamos feito muitas vezes, mas dessa vez o bombardeio já tinha acontecido. Começamos então a perseguição à formação inimiga e fomos atacados por Spits. Fui atingido por uma granada de canhão, eu estava sobre o rio Volturno e por sorte estava acima de 8.500 m; meus colegas continuaram me seguindo, mas o motor continuou funcionando e por rádio me disseram para ficar calmo. Tinha sido atingido no radiador e, mantendo a velocidade baixa, consegui não queimar o motor. Eu nem esperava chegar a Cerveteri, que tinha sido consertada, mas pelo menos a Ciampino. Mas não pude fazer isso porque tive medo de bater nas Colli Albani [colinas a leste de Roma]. O rádio continuou a me dizer pra ficar calmo e, finalmente, vi à minha esquerda um aeroporto, que era o de Pratica di Mare, onde estavam os alemães. Comecei a perder altitude e baixei o trem de pouso: o motor parou de repente e eu tive que subir as rodas para passar pela cerca. Então o trem de pouso não quis baixar de novo, já que era conectado ao motor, então tive que operar a bomba manual de emergência. Eu pousei sobre uma asa, levei um choque tremendo e a única coisa que me lembro é que os alemães foram bem rápidos em me resgatar e evitar que o avião virasse. Eles me levaram para Celio (um hospital militar de Roma) que estava completamente cheio e me recusaram; então me transportaram para o Hospital Littorio, onde também estava o Tenente Cavatore, que tinha sido derrubado por uma granada de canhão [sic] de um Lightning que ele enfrentou face a face; ele tinha sido atingido na mão esquerda, e os controles foram arrancados de suas mãos. Ele estava pilotando um Messerschmitt e conseguiu pousar na terceira tentativa segurando a alavanca com as pernas e a potência com a mão boa, e eu salvei sua vida derrubando aquele Lightning. Cavatore me viu na maca segurada por dois alemães que haviam me deixado no primeiro espaço vago. Eu não dava nenhum sinal de vida e ninguém sabia se eu era italiano, alemão ou mesmo inglês: minha roupa estava cheia de óleo, e eu não tinha nenhuma identificação pessoal. Foi Cavatore que me reconheceu: “Esse é o Gorrini!”, ele disse, “ele salvou minha vida há dez dias...” E, já que desde minha vitória sobre Sulmona eu tinha ficado famoso, e tinha sido citado no boletim de guerra e na capa do Domenica del Corriere (um famoso jornal) desenhado por Beltrame, outras pessoas também me reconheceram. Eles me curaram e fui atendido por Susana Agnelli, que era enfermeira no Hospital Littorio (ela era irmã de Giovanni Agnelli, filho do cara que fundou a Fiat). Houve até certo carinho entre nós e... Nós tínhamos que nos casar, mas eu disse a ela “Você é a Fiat, e eu sou só um pequeno Sergente”. Ainda somos bons amigos, e ainda estamos em contato.

-E o 8 de setembro?
-Quando veio o 8 de setembro, Susana, que havia feito um novo uniforme pra mim, me propôs fugir com ela para Rocca di Pappa. Mas eu queria voltar pra casa, e depois de alguma discussão, ela me acompanhou até o trem e nos despedimos. No meu vagão havia dois oficiais alemães: eu carregava uma condecoração alemã, a Cruz de Ferro de 2ª Classe. Eles não sabiam como agir diante de tudo aquilo que estava acontecendo, e nem eu. Falando e tentando entender, com algumas palavras em francês, mantivemos uma conversa até Orvieto, onde infelizmente tiveram que descer. Em Orvieto subiu uma senhorita, que foi comigo até Bolonha. A cidade estava completamente destruída; eu a ajudei com as malas enquanto cruzávamos a cidade para pegar o trem que seguia para Milão. Subimos no trem, que foi parado em Reggio Emilia por soldados alemães. Eles nos olharam e deram as ordens: todos os homens deveriam descer. “Fique aqui”, ela disse, “sou búlgara”. Os soldados com placas subiram no trem, a Feldgendarmerie. Ela jogou seu sobretudo por cima de mim e os alemães simplesmente passaram por nós, rindo. Chegamos a Fidenza e descemos, nos sentamos em um bar para tomar alguma coisa. Ela me disse que morava na Praça Piemonte de Milão, e me deu seu endereço. Na estação, pedi para alguém me levar em casa, e encontrei um sujeito com um trator de carvoeira. Havia meses que minha família não tinha notícias minhas. O cara do trator estava com medo dos alemães, mas eu consegui convencê-lo a me levar.

-Como decidiu continuar a luta com a RSI?
-Eu estava em casa a duas semanas, quando o comandante Falconi disse pelo rádio que todos os seus pilotos, do 3º Stormo, deveriam se reunir em Mirafiori. Falconi permaneceu no 3º Stormo e após o 8 de setembro, depois de ordenar que todas as aeronaves incapazes de voar fossem destruídas para evitar a captura pelos alemães, ele conseguiu de Kesselring uma série de documentos e garantias bilíngües. Isso reuniu os pilotos, perguntando se queriam continuar a luta; caso a resposta fosse afirmativa, deveriam ir para Turim. Todos aceitaram, exceto o Tenente Melis que, juntamente com todos os sardenhos de seu grupo, preferiram voltar para a Sardenha num Caproni Ca.133. Parti para Turim de bicicleta, saí de manhã e cheguei lá às cinco da tarde. Como eu ainda estava engessado, um motorista veio me acompanhar até Molinette. Ali me disseram que eu estava bom e removeram o gesso. Ali também fui apresentado aos outros pilotos que eu não conhecia e nem me conheciam. “Este é o comandante da 1ª Squadrigia do I Gruppo da Aeronautica Nazionale Reppublicana”, era o Capitano Visconti. Falconi que me colocar na 2ª Squadriglia, mas Visconti queria a todo custo me levar com ele para sua unidade. Assim, todos os pilotos do 3º Stormo terminaram na 2ª Squadriglia, a “Vespa”, menos eu, que fui para a “Asso di Bastoni”. Os únicos pilotos do 3º Stormo que não foram para a 2ª foram o pobre Cavatore e eu. Então recomeçamos tudo: Visconti era um homem excepcional. E que belos combates fiz com ele. Ele era de Trípoli. Não era casado... Estávamos tentando tirá-lo de Musocco, mas Aniasi sempre se opunha; ele iria morrer junto com outros dois... Agora ele carrega a culpa. Os partisans vermelhos controlavam o campo onde Visconti aceitara render-se a eles, com a garantia prévia de livre passagem para seus homens e a mediação do engenheiro Vismara. Estávamos em Gallarate e armados até os dentes, ainda tínhamos alguns aviões prontos e armados para decolar. Os partisans não podiam fazer nada em nosso campo, só podiam chegar perto com tanques. Visconti, apesar de outros oficiais e líderes de esquadrilha estarem desconfiados, dizendo que deveríamos nos render somente aos americanos, confiou na palavra deles. Os intermediários, imediatamente após a assinatura dos papéis, já foram ficar nas barracas dos partisans em Montello, onde antes ficava a Cavalaria de Savóia. Hoje eu luto para colocar uma lápide em memória do sacrifício de Visconti e Stefanini. Todos nós vamos todos os anos, em 29 de abril, a Musocco honrar sua memória. Porém, tem mais: no campo de Montello, Visconti e outros oficiais foram primeiramente desarmados e depois disseram a Visconti para seguir para um posto de interrogatório e Stefanini, que era seu ajudante, o seguiu. Assim que não estavam mais à vista, atiraram em seus ombros. Ele só teve tempo de gritar “Covardes!”

Stefanini tentou cobri-lo com o corpo, e morreu imediatamente. Mas para Visconti foi necessário o golpe de misericórdia. Desfizeram-se de um homem da mais alta ordem que existe, como piloto e como pessoa. O mais belo combate que fiz ao seu lado nunca me sai da cabeça... Subimos a 11 mil metros com os 205. Imagine que ele foi um dos últimos a combater, sobre o Lago di Garda, talvez em 20 de abril de 1945, enfrentando Mustangs face a face... A RSI foi um belo período. Tínhamos um comandante que sabia o que queríamos. Poucos aviões e o inimigo voando em grandes formações... Tínhamos dois Gruppi operando, a República tinha três grupos de caça, um de transporte e um Aerosiluranti [torpedeiros], o “Faggioni”. Claro que os americanos estavam felizes que éramos poucos, porque todo o dano que causamos os fez rir. Nosso Gruppo derrubou 112 aeronaves e número similar foi conseguido pelo II Gruppo. Certamente perdemos quase 200 pilotos... Mas vendemos nossa pele por um preço alto. O Gruppo foi formado em Turim e então treinamos sob comando dos alemães, que a princípio não confiavam em nós, mas mesmo assim nos engajamos no primeiro combate. Me lembro do primeiro abatimento quando os americanos vieram bombardear Villa Perosa. Então nos moveram para Compoformido, perto de Udine. Ali foi incrível, estávamos sempre no ar, indo e vindo, de dia e de noite, chegando a quatro combates por dia. Nos jogávamos contra formações de 500 quadrimotores que iam bombardear a Alemanha: primeiro os interceptávamos mas éramos chamados para cumprir outras tarefas; eles seguiam sem escolta passando pelos Alpes, onde eram interceptados pela Luftwaffe. Na volta, os pegávamos novamente, então eles tiveram que mudar de tática: decolavam de Foggia, bombardeavam a Alemanha e seguiam diretamente pra Inglaterra.

Chimicchi, Medaglie d’Oro com a força aérea do sul, me disse: “Gigi, eu estava no sul, mas meu coração estava com você, e muitos outros comigo! Vocês realmente não sabem quantos aviões derrubaram. Eu os contava na saída e os contava no retorno. Eu trabalhei com um grande comandante de um grupo de Lightnings. Quando era para ir contra os alemães eles relaxavam, mas quando sabiam que era contra vocês, muitos se agarravam firmes nas cadeiras.” Eles achavam que éramos animais selvagens, pessoas dispostas a tudo; viram que nossa fúria e determinação era grande. No retorno contávamos os bombardeiros derrubados e avariados. Todos os anos, no primeiro domingo de junho, acontece uma reunião dos veteranos da ANR no Lago di Garda, que eu organizei durante vinte anos. Nos víamos em meio a centenas de pessoas, e chegavam inclusive alemães. Neumann veio, Galland veio, e depois Steinmann, que me deu um pacote de cigarros. Eu o tinha salvado nos céus de Udine... Ele estava com seu Messerschmitt em chamas e sendo perseguido por dois Thunderbolts. Eu consegui derrubar um deles e afugentar o outro. Ele ficou com sérias feridas, completamente queimado... Depois se tornou comandante da força aérea da República Federal Alemã. Eu ganhei a Cruz de Ferro de 1ª Classe.

-Qual foi seu último combate?
-Meu último combate foi quando fui abatido, enquanto voltava para Reggio Emilia com o 205. Na RSI, eu sempre tive à minha disposição o 205, de vez em quando um Fiat G.55. Tivemos um alarme com pouca antecedência, mas mesmo assim decolamos. Não conseguimos chegar a tempo de encontrá-los, e fui abatido sobre Fogliano. Eu abri o pára-quedas, mas bati no chão violentamente com a espinha (ainda dói muito) e perdi a consciência. Os camponeses ao redor pensaram que eu era inglês ou americano. O grande Visconti veio me buscar em seu carro e me levou ao médico, que me visitou e conseguiu uma vaga pra mim no hospital de Reggio. Os médicos em Reggio me deram uma licença: eu estava muito ferido, próximo de um colapso nervoso, e fui pra casa. Quando voltei, tudo estava quase acabado.

-Como viu o fim da guerra? Onde estava em 25 de abril de 1945?
-Estava em Milão, e foi em tempo de ver Mussolini ser pendurado... Junto com outros pilotos, aluguei um quarto na Rua Leoncavallo... Ironicamente, na esquina da Praça Sire Raul.

-Nunca encontrou os partisans?
-Quando já estava em Reggio... Um dia eu achei um carro, um Balilla Coppa d’Oro que era de Villoresi, um piloto das 1000 Milhas. O comprei por 40 mil liras, estava bem conservado e belíssimo. Quando Visconti o viu pensou que tinha sido roubado ou confiscado de alguém. Então ele começou a usá-lo para passear com Gianna, sua namorada, para não usá-lo para propósitos militares. No entanto, aconteceu o seguinte: O pobre Magnaghi estava fazendo um teste de motor para uma equipe do Cinejornal Luce. Eles queriam que ele fizesse algumas acrobacias... Magnaghi então subiu e esqueceu de ligar o rádio; quando estava aterrissando foi atacado por quatro Lightnings, que atiraram nele e o atingiram numa das pernas. Ele estava mal, e um dia o doutor me disse: “Gorrini, esse cilindro está vazio. Pega seu carro e vai até a farmácia de Reggio pegar outro...” Peguei meu carro e fui, cheguei a um hospício e vi uma luz vermelha, era muito tarde, umas duas ou três da madrugada. “Onde está indo?” Me disse uma voz seca. Eu estava de uniforme: “Vou à farmácia pegar um cilindro.” “Estão com falta disso?” “Sim.” Me deixou passar, assim como três dias depois. Tratamos a perna de Magnaghi, mas a gangrena atacou e não havia nada que pudéssemos fazer. Veja, aqueles partisans conheciam o grupo de Visconti, sabiam o que estávamos fazendo e nos deixaram em paz. Já aquela brigada, a que matou Visconti, obedecia ordens que vinham do alto-comando, da CLN [Comitato di Liberazione Nazionale], em particular de Pertini e provavelmente de Cadorna. Visconti dava medo neles: era um homem de carisma excepcional, um desconforto para eles.

De volta a Milão, no Dia da Liberação, voltamos pra casa e encontramos dois sujeitos feios... os dois da Questura [Polícia do Estado]. “Sigam-nos.” Fomos à Questura e depois para Bresso, numa espécie de campo de concentração: havia pessoas de todos os tipos. Um pedaço de pão por dia. Guardamos o dinheiro, porque à noite aqueles pobres rapazes da GNR [Guardia Nazionale Reppublicana] e da Decima MAS... Você podia ter 10 partisans nas mãos, mas os outros 10 vinham com chutes e coronhadas, muitos morriam após os primeiros golpes. Ou esperavam alguém ir fazer as necessidades em um canto e a sentinela, sem nenhuma razão, simplesmente atirava... Fui capaz de me salvar porque guardei um bilhete que usei para subir em um trem com outros três caras. Me fizeram preencher um questionário e, duas semanas depois, mais duas de prisão domiciliar, me mandaram para San Vittore. Quatro meses. Estava magro, degradado, e sendo processado... Me fizeram de tudo. No julgamento, eu não tinha dinheiro para pagar um advogado. O promotor me disse: “Você é o Sergente Maggiore Luigi Gorrini”, e segurando um livro nas mãos “Mas essa aqui é a lei.” Eu não queria apenas completar o formulário que me deram, eu queria colocar coisas de memória. Eu queria descrever tudo que tinha feito, absolutamente tudo. Duvidaram de mim: “Nem o Chefe de Estado-Maior da ANR pode fazer isso.” “Posso confirmar que tudo é verdade!” Então ele fechou o livro, o pôs no armário e olhou pra mim. “Vai, vai, tem muito mais gente esperando.” Sai e voltei pra casa pedalando tão rápido que não prestei atenção em nada no caminho. Cheguei em casa e voltei ao serviço em Lecce, como instrutor de acrobacias e outras funções, mas isso é diferente e talvez não tão interessante.

-Pode dizer o que pensa da atualidade?
-Te digo uma coisa: me dar uma Medaglie d’Oro após 13 anos, por vôos que fiz antes de 8 de setembro! Eles pararam 3 vezes, dissolvendo os respectivos comitês. Toda vez que o comitê criava coragem, uma instância superior decidia parar tudo. Isso sem mencionar que eu estive na RSI, mas a medalha era referente ao período anterior. O Chefe de Estado-Maior da AMI [Aeronautica Militare Italiana] Generale Remondino, disse ao Generale Via, que continuava a parar o processo: “Se Gorrini merece a Medaglie d’Oro, dê a ele. Se é pra fuzilá-lo pelo que fez depois de 8 de setembro, então o fuzile.” Houve algum trabalho com a documentação e então ele assinou pessoalmente os documentos. Quanto à promoção, teve que ser nos parâmetros de 1942, porque se eu estivesse na RSI em 1972 já seria Tenente Colonello, mas infelizmente eu não era nem comissionado. Me deram 2,1 milhões [de Liras] como pensão. Uma miséria por 40 anos de vôo, muitos deles arriscando a vida em guerra! Mas não me preocupo com dinheiro: não é uma questão moral. Não tenho filhos e estou com minha mulher. Os americanos já quiseram comprar minha casa e minhas memórias. Mas quero ficar na Itália.

O que fiz no passado, com a RSI, estou pronto para fazer de novo porque eu acreditava que estava do lado certo. Não tínhamos partido, estávamos defendendo a Itália dos bombardeiros inimigos, nossas casas e nossa honra. Todos já sabiam que a guerra estava perdida, mas eu a perdi duas vezes: em 8 de setembro e em 25 de abril. Mas novamente, o que eu fiz lá... As toneladas de bombas das quais poupamos nossas cidades, isso é um mérito histórico inquestionável. Não abaixo meus olhos para ninguém, e faria tudo de novo. Mas pensei que depois de tudo que passamos a Itália iria para as mãos de pessoas honestas.

-Como o senhor vê o futuro da Itália?
-Há o risco de acabarmos como a Iugoslávia e a Albânia. Rezo a Deus para que eu esteja errado, mas até vermos as pessoas corretas. A cada dia mais dores de cabeça...

FIM

Pra terminar, um interessante vídeo dos primeiros dias da ANR, quando os alemães tinham pintado suásticas nos Macchis e ensinavam aos italianos as táticas da Luftwaffe. Nele aparecem Günther Freitag, comandante do II./JG 77 e Luigi Gorrini:

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segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Combates Aéreos: Os Tigres Voadores


Aqui está o episódio da série "Combates Aéreos" (Dogfights), do History Channel, em que são mostrados os Tigres Voadores. Um dos entrevistados é justamente o recém-falecido "Tex" Hill. Boas animações e muita adrenalina:

Parte 1


Parte 2


Parte 3


Parte 4


Parte 5

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sábado, 13 de outubro de 2007

Nota de Falecimento: Tex Hill


David Lee "Tex" Hill
(13/07/1915 - 11/10/2007)
Faleceu no último dia 11 de outubro em San Antonio, Texas, aos 92 anos de idade, um dos mais lendários pilotos de combate norte-americanos, David Lee "Tex" Hill.

Nascido em Kwangju, na Coréia, "Tex" Hill tornou-se aviador naval em 1939 junto à um esquadrão de torpedeiros. Em 1941, Tex voluntariou-se para servir no American Voluntary Group (AVG), grupo criado por Claire Chennault para lutar contra os japoneses na China. Os pilotos do AVG entrariam para história como "Os Tigres Voadores" (Flying Tigers). Voando o Curtiss P-40, Tex se tornou o expoente maior do grupo, sendo designado líder do 2º Esquadrão.

Quando os Tigres foram debandados em julho de 1942, Tex continuou com Chennault voando junto ao 75º Esquadrão de Caça. No Dia de Ação de Graças de 1943, ele liderou a primeira formação aérea norte-americana a atacar as bases japonesas em Formosa (Taiwan). Acredita-se que ele foi o primeiro a derrubar um Zero com um Mustang. Tex terminou a guerra com 18,25 vitórias confirmadas, sendo condecorado com a Distinguished Service Cross, Silver Star, Distinguished Flying Cross e uma variedade de medalhas chinesas e aliadas.

Após a guerra, ele juntou-se à Guarda Aérea Nacional do Texas, aposentando-se como o mais jovem Brigadeiro-General da força em 1968. Recentemente publicou uma auto-biografia chamada "Tex" Hill: Flying Tiger. Os grande ás faleceu às 17h (horário local de Houston) do último dia 11/10 de falência cardíaca. Tex pode ser visto no episódio sobre os Tigres Voadores da série "Combates Aéreos" do History Channel.


"Tex" Hill com os Tigres Voadores na China.
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quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Nota de Falecimento: Jan Reznak


Jan Reznak
(14/04/1919 - 19/09/2007)

Faleceu no último dia 19 de setembro, em Martin, na Eslováquia, aos 88 anos de idade, o maior dos ases eslovacos, Jan Reznak.

Nascido na cidade de Jablonica, Reznak começou seu treinamento de vôo em abril de 1938 e foi designado para o 13º Esquadrão, então equipado com biplanos Avia B.534, na cidade de Piestany, em dezembro de 1939. Ele realizou seu primeiro conjunto de missões na URSS entre junho e agosto de 1941, porém não encontrou nenhuma aeronave inimiga. Reznak então foi para a Dinamarca receber treinamento no Messerschmitt Bf 109.

Reznak foi um piloto de inquestionável sorte durante sua carreira militar, envolvendo-se em diversos acidentes e sempre saindo ileso. Certa vez conseguiu trazer de volta um Bf 109 com sessenta furos de metralhadora e três de granadas de canhão; em outra ocasião, escapou da morte por um triz quando um Stuka atravessou seu caminho enquanto ele pousava. Apesar de seu enorme histórico de incidentes, Reznak acumulou 32 vitórias confirmadas, se tornando o maior ás de seu pequeno país.

Após a guerra, Reznak trabalhou como instrutor de vôo, engenheiro de design e inspetor técnico, até aposentar-se em 1979. Um homem sempre alegre e disposto a contar piadas, Reznak faleceu num hospital da cidade de Martin, sendo enterrado no dia 27 de setembro em Piestany, onde voou operacionalmente pela primeira vez.


Jan Reznak em foto recente, mostrando um antigo retrato seu
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quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Entrevista com Luigi Gorrini - Parte 2



-O que aconteceu após a Batalha da Inglaterra?
-Nós voltamos, mas antes tivemos que remover a carenagem do trem de pouso já que havia muita neve (e as rodas encalhavam). Voltamos porque as coisas tinham ficado ruins na África. Aconteceu a retirada do Gen. Graziani e em dois dias fomos parar em Sirte, pousando com tempo horrível. Mas leve em conta que durante a transferência nós nunca, eu disse nunca, perdemos uma única aeronave. De Mirafiori pousamos em Pisa, então em Reggio Calabria, depois Pantelleria, Zuare, Castelbenito e finalmente Sirte, bem perto da linha de frente. Podíamos ver as infinitas colunas de soldados debandados, estavam em fuga, e ninguém conseguia pará-los. Imediatamente decolamos para atacar as colunas inglesas, em particular ao redor de Agedabia, e conseguimos mantê-las à distância. Me lembro que nosso Maggiore, com outros oficiais, tomou posição na Via Balbia, com pistolas nas mãos, tentando parar e reagrupar os debandados, enquanto continuávamos indo e indo, de novo e de novo (voltávamos somente quando estávamos sem munição). Acho que nossa participação foi bem importante, como também a do 8º Gruppo e outros. Ficamos lá por alguns meses. As condições eram desastrosas, comíamos apenas “gallette” (terríveis biscoitos secos do Exército, acredite, provei daquilo!) e latas; essa porcaria costuma inchar no estômago em grande altitude causando muita dor... Não tínhamos água, e tudo era cheio de moscas e escorpiões. No fim, nos mandaram de volta para descansar e deixamos as aeronaves para o grupo de Vizzotto ou Balio, não me lembro direito. Voltamos para a Itália, onde tivemos 20 dias de folga e nos trouxeram para Caselle, onde fizemos alguns vôos com o G.50, para terminar com o Macchi MC.200, o “Saetta”, monoplano de motor radial. Então de lá fomos para a Grécia em Araxos em 1941, bem perto do mar. Realizamos alguns cruzeiros de escolta. Me lembro que Argostoli e Cefalonia eram zonas proibidas para vôo, por ordem do Quartel-General. Me lembro de ter visto um dia, junto com meu ala, um avião negro voando para Argostoli. O segui e ia derrubá-lo, e então vi as cruzes alemãs, mas meu ala, um jovem Sergente, pensou que eu tinha errado e alvejou-a. O avião estava cheio de gasolina e foi ao chão. Houve um julgamento, mas o novato foi inocentado porque o avião fez um pouso forçado em terra (acredito que a tripulação sobreviveu). Fizemos vários vôos de escolta para o sul do Mar Egeu. Em certo ponto nos chamaram de volta: nosso Gruppo, o 18º, era autônomo e podia ser engajado em qualquer lugar. O outro Gruppo, o 23º, estava sobre Malta. Nos mandaram novamente pro Norte da África, dessa vez com o Macchi MC.200.

-O Macchi MC.200 era melhor do que o CR.42?
-Sim, era melhor, mas ainda era obsoleto se comparado às máquinas inglesas. Ainda tinha um cockpit aberto, o que em qualquer lugar da África não era uma coisa ruim... Pousamos em Bengazi, onde eu já tinha derrubado antes, com o CR.42, dois Bleheim que iam bombardear o porto, e depois derrubei outro. Vi muitos deles passarem bem em frente ao meu nariz, por uma simples razão: eles eram mais rápidos que nós. Se estivéssemos em grande altitude podíamos pegá-los, de outra forma era impossível. O Bleheim era um bombardeiro leve e era escoltado pelo Beaufighter, um caça pesado: duas máquinas lindas. De Bengazi fomos para Ouadi-Tamed e lá, já que continuávamos comendo aqueles horríveis biscoitos e latas, um dia eu tive uma grande idéia. Peguei um CR.42 e voei sobre Ouadi. Havia muitas gazelas bebendo água e se escondendo nos arbustos, mas com o barulho do avião elas correram em campo aberto e eu abati três ou quatro delas. Um caminhão as pegou e então teve carne pra todo mundo. Outra vez estávamos no Golfo de Bomba e eu disse pro guarda do paiol: “Hoje vamos comer peixe, tire os fusíveis dessas bombas de 50 kg”. Ele tirou e depois que as jogamos na água, tínhamos um monte de peixes subindo!

Eu podia prover nossa unidade até com carros, porque durante um vôo de perseguição, ou devo dizer, um reconhecimento noturno para interceptar comandos que atacavam nossas bases à noite, eu vi um monte de carros abandonados no meio do deserto. Não tínhamos carros. Apenas pegamos um caminhão SPA 38, um barril de gasolina e um de água, e montamos uma metralhadora de uma aeronave abatida no topo. Fomos desse jeito. Encontramos os carros, sem sinal de balas, nem corpos, e todos aqueles carros eram ingleses, alguns do exército de De Gaulle. Nós até achamos algumas armas. Ficamos bastante animados e conseguimos muita coisa. Alguns dos carros funcionavam, outros tivemos que rebocar com o SPA. Estávamos prontos pra partir quando escutamos um único tiro de rifle; não sabíamos de onde tinha vindo e retornamos fogo de metralhadora. Vimos um homem saindo dos arbustos, sujo e com roupas rasgadas, com uma longa barba ruiva e as mãos para cima. Ele era artilheiro de um Bleheim, que tinha saltado após sua aeronave ser atingida durante um bombardeio em Tobruk. Ele perambulou pelo deserto até chegar ali, e ficou lá por trinta dias bebendo água dos radiadores. Também descobrimos porque os carros estavam abandonados: estavam no meio de um campo minado. Meus companheiros ficaram preocupados, mas pouco a pouco conseguimos sair de lá ilesos. Voltamos com nossas aeronaves procurando por nós, trouxemos alguns caminhões e um Peugeot francês que oferecemos ao nosso comandante. Também encontrei uma Guzzi com motor em V com placa de Turim. Esses veículos foram muito úteis depois, durante a retirada de 5.000km de El Alamein.

Estávamos em Abu-Agad quando instalaram em nossos aviões os suportes para bombas especiais, as “Mazzolino”, que eram bem poderosas mas com corpo de alumínio. Foi dito que com tais bombas os alemães tinham sobrepujado a Linha Maginot. O problema era que se alguém voltasse com essas bombas ainda presas aos suportes, ele podia explodir facilmente, e isso infelizmente aconteceu duas vezes. Então, retiraram esses suportes e instalaram outros para um par de bombas de 50 kg. Então, tínhamos que funcionar também como bombardeiros, em particular quando avançamos até Mersa-Matruh, quando nos juntamos ao outro grupo nosso, já equipado com o Macchi 202. O fato de que atuávamos como caças-bombardeiros explica nosso brasão: uma vespa furiosa segurando uma adaga em uma mão, que representa o caça-interceptador, e na outra mão uma luva de boxe, representando o caça-bombardeiro.

-O Macchi 202 era uma aeronave definitivamente melhor?
-Já era uma aeronave competitiva com certeza. De qualquer forma, quando tínhamos que enfrentar enxames de P-40s e Spitfires, nem essa máquina podia fazer muito.

-Então o Spitfire era um páreo duro?
-O Spit era um páreo duro... Tinha muitas metralhadoras, mais dois canhões de 20mm e era mais rápido. O 202 era significativamente inferior em termos de velocidade e armamento. Em certo ponto o 4º Stormo, que parecia a melhor unidade italiana (mais tarde os comandantes se tornariam comandantes da força aérea) e era sempre provida com as melhores aeronaves, foi chamado de volta quando a situação começou a se deteriorar e nos deixou, o 18º Gruppo, com seus Macchi 202 e nós demos nossos MC.200 para os caras do 8º Stormo que ainda tinham o CR.42. Finalmente, quando tivemos uma aeronave competitiva, foi um inferno, já que enxames de aeronaves inimigas começaram a vir contra nós.

-Quando o senhor percebeu o que acontecendo, quero dizer, a derrota em El Alamein?
-Bem tarde, mesmo que estivéssemos preocupados com os bombardeios que ficavam cada vez mais freqüentes, de dia e de noite. E de longe nos vimos a primeira linha que foi martelada pela artilharia. Mas até essa época nossa posição foi deixada em paz, estávamos em Abu-Agad, perto do mar. Até quando deixávamos algumas luzes acesas durante a noite os aviões deles não nos atacavam. Mas uma noite então... um dos bombardeiros deles fez duas passagens e lançou duas bombas de fragmentação, para nosso pessoal ao invés de destruir nossas aeronaves. Não eram bombas concebidas para explodir a fundo, elas mataram muitos pilotos. Naquela noite eu estava na cama na minha tenda, mas alguns estavam acordados jogando cartas. As luzes estavam ligadas dentro e fora, e não havia abrigos; a única proteção era uma linha de barris de petróleo vazios perto do mar, com arame farpado e uma metralhadora pesada para nos proteger de incursões anfíbias. Estava dormindo na minha cama de campanha, a tenda estava fechada. Não me lembro quem abriu mas me lembro que corri pra fora seminu. Eu primeiro, seguido por Sandini e Scocchetti, e as bombas caíram em meio a nós. Eu pulei no buraco que usávamos como latrina, que por sinal já estava cheia de gente. Eu ouvi gritos, pessoas pedindo ajuda, e eu estava pelado porque meu pijama foi rasgado pelas explosões. Eu achei Scocchetti segurando seu abdômen enquanto seus intestinos caíam...

Lambertini foi mortalmente ferido nas costas e morreu do meu lado; outro, que aparentemente não tinha sido atingido, morreu por causa da explosão de ar. Perdemos 12 entre pilotos e especialistas. Outro cara amputou sua própria perna com sua faca, pobre Leo, enquanto o levávamos para o hospital. Então, a retirada começou. Uma cena indescritível, era difícil acreditar no que estava acontecendo, no que eu vi. Nos movemos com nossos aviões que sobraram, de base em base, ou onde quer que pudéssemos pousar, e esperávamos que a Luftwaffe nos viesse trazer gasolina durante a noite; algumas vezes eles nem sabiam onde jogavam aqueles barris. Reabastecíamos os aviões, rearmávamos, e esperávamos os inimigos chegarem com seus tanques. Quando estavam bem perto, decolávamos para encontrá-los. Ataque e vôo de volta para outro aeroporto: fizemos isso por 4.000 km. No fim, chegamos à Trípoli, onde tinha um circuito de corrida. Não tínhamos nada para comer nem beber. Uniformes e calças eram mantidos juntos por arame, sujo. Tivemos que ir para Zuara, mas quatro pilotos tiveram que ficar lá com o Tenente Speicher e, quando todo mundo tivesse partido, jogar gasolina nos depósitos e incendiar tudo. Dentro tinha praticamente de tudo. Montanhas de café, uniformes, roupas pro deserto. Tivemos que jogar gasolina e atirar lá dentro para que tudo queimasse. Havia pilhas de garrafas d’água de Ciampino, montes de roupas, nos divertimos abrindo um monte de caixas, estávamos curiosos. Quebramos tudo; eu achei uma caixa cheia de câmeras fotográficas e pus quatro delas no pescoço, mas as perdi no caminho. Atiramos lá dentro e queimamos tudo. Então chegamos a Sfax, Medelin e Korba. Agora, estávamos na Tunísia. Me lembro que roubamos os lençóis do Maggiore Camarda e tive a oportunidade de participar da Batalha de Kasserine, onde os americanos foram duramente derrotados pelos alemães; escoltávamos tanques alemães, como foi representado numa pintura feita por uma associação de pilotos de caça americanos que dirige dois importantes museus. Sei que no Arizona, em Mesa, há uma grande foto minha, junto com o Maggiore Visconti; me convidaram para ir aos EUA diversas vezes, mas não me sinto a vontade em ir lá. Me convidaram também em Londres e em Munique; no final vieram até aqui e me fizeram assinar um bocado de fotos minhas feitas por um pintor, me mostrando como membro da Regia Aeronautica e escoltando Tigers alemães na Tunísia. Essa pintura esta exposta ao lado de outras que mostram ações de Clostermann, o francês, Adolf Galland, o alemão, e Townsend, o inglês: os grandes ases do ar. Eu assinei 600 delas e as venderam por mais de meio milhão (de Liras). Um amigo meu viu isso, um cara que, depois da guerra, teve de ir para a América por medo; houve muitos de nós que foram para a América e se tornaram pilotos civis.

-Agora é 1943: Tunísia, Sicília, a guerra piora. O que o senhor sentiu?
-Não fui mandando pra Sicília... Entretanto, entendíamos que a guerra estava perdida após El-Alamein. Vimos os recursos que eles tinham, derrubávamos dez e, no dia seguinte, o dobro nos atacava. Não podíamos mais repor as perdas e estávamos ficando sem aeronaves; saímos e deixamos as aeronaves pra quem ficava.

-No verão de 1943 começou o bombardeiro maciço de cidades italianas: quase todas as cidades foram atingidas, em particular as maiores como Nápoles, Gênova, Turim, Milão e finalmente Roma. O que fez pra defendê-las?
-O 3º Stormo voltou para a Itália, em Milão, e fomos equipados com o Macchi 202 e alguns Messerschmitts que os alemães nos deram. Já que éramos um grupo bem compacto, nos empregaram na defesa de Roma. Estávamos em Ciampino e éramos liderado por Tito Falconi, um homem muito bom que era invejado e odiado até se tornar campeão mundial de vôo invertido; ele era um homem independente que fazia as coisas à sua maneira, ignorando os burocratas do Ministério. Fomos todos empregados na pista sul do aeroporto, todo o Stormo, e embora devêssemos defender Roma, éramos constantemente chamados para ajudar na defesa de Nápoles que estava apenas fracamente defendida por algumas Squadriglie autônomas. Nosso Stormo consistia de seis Squadriglie, mais de sessenta aeronaves. Uma noite, nossos bombardeiros estavam decolando da pista norte em vôos solitários, os SM.79, um a cada cinco minutos. Um Beaufighter ficou na cauda de um SM.79 e o seguiu pra ver de onde tinha saído. Quando lançamos o foguete sinalizador para o pouso, a aeronave inglesa foi avistada e derrrubada pelo flak alemão. O Comandante Falconi disse: “Se aquele cara comunicou por rádio nossa posição de decolagem, amanhã eles destruirão nosso aeroporto.” Nessa época eles atacavam seus alvos com no mínimo duzentos quadrimotores, em formações massivas. Falconi não esperou pelas ordens ministeriais e ao amanhecer ordenou todas as aeronaves disponíveis para decolar e rumar para Cerveteri, no norte de Roma. Fomos para lá.

-Então, havia somente sessenta aviões para defender Roma?
-Sim, havia apenas nós e alguns caças-noturnos em Centocelle, só isso. Teve o Rotondi que voava com um Lightning capturado dos americanos e eu quase derrubei ele, aquele idiota... Em Cerveteri tivemos que esperar a ordem do Ministério antes de decolar, mas Falconi, assim que descobriu que havia uma formação de bombardeiros voando em direção a Roma, nos deu a ordem pra partir. Eu estava num 202, e voamos para Ostia. Aquele foi o dia do famoso bombardeio de Roma, 18 de julho de 1943, e é dito que o famoso ator de cinema Clark Gable participou dele: eu tentei em vão avistar o desenho que caracterizava sua aeronave.

Há algum combate em particular do qual queira falar?
-Bem... Um dia, logo depois do bombardeio de Roma, chegou a notícia de que um novo avião seria entregue ao Gruppo, o Macchi MC.205. Tivemos uma reunião para decidir quem iria pilotar a nova máquina e, devido ao número de vitórias aéreas que eu já tinha, consegui um. Me deram uma permissão para viagem e fui para o norte pegar a nova aeronave; quando a vi, perguntei por informações e explicações. “O que tenho que te dizer?” disse o piloto de testes, um romano, “este ainda é o 202. Só uma coisa: se você tiver que atirar, não atire com todas as armas ao mesmo tempo, o coice é bem forte. Ou você dispara os canhões de 20mm ou as metralhadoras 12,7mm.” No entanto, nunca segui esse conselho e sempre atirei com todas as armas ao mesmo tempo: se for, foi... “Esse é o 202, venha, vá!”... Ao invés, assim que estava no ar, percebi que o motor era mais potente. Cheguei a Cerveteri e o Maggiore Camarga disse: “Gorrini, amanhã você está de folga”. E eu: “Enquanto eu não tiver lutado com esse aqui, estarei no alerta todos os dias”. Aquela aeronave durou só 48 horas!

O comandante ordenou que decolasse com os outros, já que eu tinha a mais poderosa e bem-armada aeronave e deveria ser seu ala, enquanto todos os outros estavam na ala esquerda. Era o Capitano Giuntella, hoje um Generale. Eles partiram e eu parti também, finalmente, em meio a uma grande nuvem de poeira; chegamos à costa de Ostia e avistamos uma grande formação de bombardeiros inimigos. Não tínhamos noção de onde estavam indo, acreditávamos que era Roma de novo, mas depois descobrimos que o objetivo era Sulmona e lá estava, escondida entre as árvores, a divisão blindada Hermann Goering. Uma imensa formação, ali bem em frente aos meus olhos: o comandante me sinalizou para ficar calmo, já que estávamos em silêncio de rádio, mas no fim o Capitano Giuntella viu que eu estava insistindo e me deixou ir. Eu subi, e enquanto ascendia ataquei o último da esquerda, mirando entre a asa e a fuselagem: era um B-17, uma “Fortaleza Voadora”. Fiz um looping e voltei, bem a tempo de ver a asa literalmente destroçada, com os dois motores ainda girando e a aeronave caindo em parafuso. O avião caiu no aeroporto de Nettuno: Eu estava a 7 mil metros, mas pude sentir o deslocamento de ar e vi dois ou três pára-quedas abrindo; cometi então o mesmo velho e estúpido erro que todos os pilotos que derrubam uma aeronave cometem, que é voltar e ver onde a aeronave caiu. Um caça de escolta, um P-38, me achou, e vi suas balas passando por cima da minha cabeça; errou por centímetros e em seguida fez a burrice de se por na minha linha de fogo: o acertei em cheio, ele explodiu e se eu não estive firme nos controles passaria por dentro da explosão. Vi o piloto, que teve tempo de saltar. Então voltei a perseguir a formação, cruzando toda a Itália e interceptando-a sobre o objetivo, onde ataquei o último B-17. Fiz diversos ataques e depois de um tempo vi 9 pára-quedas descendo, mas o avião continuou a voar novamente em seu curso. Eu ataquei novamente e fiz algo que repetiria somente algumas vezes, atirar na cabine. Mas não havia ninguém, eles tinham ativado o piloto automático. O avião começou a perder altitude e, de novo, o segui pra ver onde cairia. Doze Lightnings me atacaram, seis de um lado e seis do outro. Mantive a aeronave em curvas e, já que eu continuava a atirar em longas rajadas, as armas superaqueceram e o canhão esquerdo explodiu, perfurando minha asa. Eu tentei escapar, estava horrivelmente assustado e, lá pelos 3 mil metros meu canopy se soltou e quebrou a antena de radio, danificando a cauda. Nessas condições, com o único mapa que eu tinha sendo levado pelo vento, fiquei puxando o manche para o ponto onde conseguia algum controle. Desci para 1.500 metros e vi o mar. Tentei o rádio. Chamei, chamei... nada. Finalmente consegui uma resposta. Eu estava em Pescara, me lembro do porto; me deram alguns conselhos para me orientar, mas estava ficando sem gasolina. Mais ainda, me disseram para não aterrissar em Cerveteri porque a pista tinha sido destruída por um bombardeio. A primeira formação que interceptei foi seguida por uma segunda que atacou Cerveteri. Me disseram para aterrissar na pista perto de Ostia, perto da torre onde, algum tempo depois, Salvo D’Acquisto foi fuzilado. O combustível continuava baixando, eu não podia ver Cerveteri chegando, nem a pista: finalmente sobrevoei a área, mas o propulsor travou. Não havia uma única gota de gasolina restante. Me lembro dos cabos de alta tensão da ferrovia, e que embiquei para o solo para ver se conseguia velocidade para passá-los. Foi a força do desespero que me salvou, o trem de pouso também não funcionava direito. Pousei e o Maggiore veio ter comigo, furioso, fiquei com medo dele me comer vivo. A aeronave estava um arraso. “Comandante, eu peguei dois quadrimotores e um caça!” “Não me fale essas ********!” foi sua resposta. “Isso não é ********, eles não caíram no mar, caíram atrás de nossas linhas. Não sou um oficial comissionado. Vamos voltar e checar.” Pegamos um Fieseler Storch, um avião alemão de reconhecimento. Partimos, mesmo eu nunca tendo voado um daqueles antes, e chegamos à Nettuno. Havia uma cratera gigante, os caras da antiaérea nos disseram que dois pilotos conseguiram saltar e foram capturados pelos Carabinieri [polícia militar italiana] junto com alemães.

“Lá está o primeiro!” Fomos procurar por eles (os dois pilotos) e eles nos disseram que foram atacados por um único avião, extremamente rápido e sem insígnias. “Certo, vamos prosseguir”, e fomos procurar pelo Lightning no lago Nemi... Finalmente pousamos numa pista de grama e duas crianças nos disseram que tinham visto um motor nas redondezas e que o piloto tinha sido capturado pelos Carabinieri. Fomos vê-lo, o piloto era francês e ele nos disse que tinha tido uma luta com uma aeronave sem insígnias. Então tivemos de ir à Sulmona, e o Maggiore hesitou, já que tínhamos que cruzar os Apeninos e entramos numa tempestade que nos sacudiu por quarenta minutos. Queríamos voltar, mas atrás estava mais escuro que na frente, e água estava entrando no cockpit. Então chegamos à Sulmona e fomos ao QG dos alemães, onde ficavam os prisioneiros, entre eles um cara enorme. Ele era o comandante da Fortaleza Voadora, um australiano. Ele disse a mesma coisa que os outros disseram: caça rápido, sem insígnias, isolado. “Gostaria de conhecer o piloto”, ele acrescentou, e o Maggiore apontou pra mim. O cara estendeu a mão e apertou a minha com tanta força que quase o chutei. Então ele quis me dar um presente, abriu sua bota, tirou uma pistola 7,65mm e me entregou. Alguns dias depois me derrubaram sobre Frascati, após eu ter derrubado um Spit e ser atacado por quatro deles.

CONTINUA...

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segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Luto


Por motivo de luto pessoal, estarei me ausentando do blog por alguns dias. Um grande amigo meu veio a falecer na última madrugada. Conto com a compreensão de todos.

Júlio César
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quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Entrevista com Luigi Gorrini - Parte 1


Entrevista com Luigi Gorrini


Apresento-lhes uma longa entrevista concedida pelo ás Luigi Gorrini ao jornalista Andrea Benzi do jornal Corriere della Sera, no dia 17 de setembro de 2000, por ocasião da descoberta e recuperação dos restos mortais do herói da ANR Tenente Vittorio Satta, juntamente com seu MC.205. Em 25 de maio de 1944 Satta havia decolado para interceptar uma centena de Liberators escoltados por caças, atacando toda a formação. Ele foi atingido mortalmente pelo fogo inimigo e caiu do céu sobre Parma. Gorrini era um dos 10 pilotos italianos e alemães que também participaram daquela luta.

-Onde o senhor estava em 10 de junho de 1940 [dia da declaração de guerra italiana aos Aliados]?
- Em 10 de junho de 1940 havia um sentimento de que alguma coisa estava acontecendo. Eu estava baseado no aeroporto de Mondovà, com o 18º Gruppo do 3º Stormo que ficava em Mirafiori (perto de Turim), para onde voltamos pra armar os aviões. De lá, minha Squadriglia voou para Nuovi Ligure, então para Albenga (ambos na Ligúria) com ordens de nos armar contra os franceses. Aquele era um dos melhores aeródromos, já que a pista era feita de concreto, enquanto nos outros aeródromos a pista era de grama mesmo. Eu estava em Albenga quando Mussolini fez seu famoso discurso e logo depois disso houve um alerta aéreo sobre Gênova.

-Que tipo de aeronave o senhor voava?

-Tínhamos o Fiat CR.42, que naquela época já era uma aeronave obsoleta, super obsoleta. Um biplano coberto de lona, sem blindagem, sem rádio, com oxigênio falho. Era um avião muito bom em termos de manobrabilidade, armado com duas boas metralhadoras de 12,7mm, mas se você pensar nas oito metralhadoras 7,7mm dos Spits e Hurricanes... Houve alguns combates: fomos atacar seus aeroportos, perto de Toulon. O primeiro ataque deu errado: foi esquisito, porque conseguimos atingir o objetivo, achar todas as aeronaves deles e atacá-las, mas ninguém conseguiu confirmar se incendiamos alguma delas. Pensamos que nossas balas estavam com defeito e, novamente, fizemos um teste: ao invés de uma aeronave, atiramos num barril de gasolina, que imediatamente explodiu. O reconhecimento posterior certificou que apenas tínhamos atingido aeronaves falsas, eles nos tinham enganado. Mas no dia seguinte os pegamos: atacamos outro aeroporto ao meio-dia, com duas Squadriglie nos cobrindo enquanto atacávamos. Houve um combate pesado, e por sorte somente três ou quatro de seus Dewoitine D.520 conseguiram decolar: eles derrubaram dois dos nossos – os dois alas do comandante, Maggiore Mossilla, que já tinha sido comandante de aeronaves de ataque na Espanha.

-Qual era o sentimento geral, como estava o moral quando entraram em guerra?

-O moral estava bem alto. Também acreditávamos que nossos aviões eram bons, mas quando vimos o que nosso inimigo tinha, quero dizer, aqueles Dewoitines e Moranes franceses, tivemos que mudar de idéia. Mais tarde eu pude conhecer melhor aquelas aeronaves, quando fui para a França pegar algumas das máquinas que sobraram do governo de Vichy (estávamos sem aeronaves e precisávamos de tudo). Era como comparar um triciclo com uma Ferrari...

-Em que condições estava a Regia Aeronautica?

-No começo da guerra tínhamos dois tipos de aeronaves: o CR.42 da Fiat, biplano, e o Macchi MC.200, uma aeronave difícil. Nos primeiros modelos se você apertasse demais a curva começava um parafuso; mas era um bom monoplano que podia adaptar-se muito bem. No entanto, sabíamos e nos disseram que o 200 e o 202, também da Macchi, estavam disponíveis. A Fiat tinha um enorme contrato de produção do CR.42... Acredito que o mantiveram em produção até o fim da guerra... A Macchi podia fazer melhor.

-E o Fiat G.50?

-O Fiat G.50 era um monoplano, muito complicado... fez muitas vítimas e quando apareceu já era obsoleto. Uma máquina estranha, você tinha que ser muito cuidadoso no pouso e decolagem. No entanto, achávamos que íamos ganhar a guerra... ao invés disso, mais tarde... Veja, a única aeronave competitiva que tínhamos era o Macchi MC.202 e em particular o MC.205: com esse podíamos encarar Spitfires, Hurricanes e até os americanos com seus Mustangs, durante o tempo da RSI. Claro que o Mustang era superior, já que aos 10.000 metros os controles do 205 ficavam insensíveis. Talvez o melhor dos nossos fosse o Fiat G.55, com esse você também podia subir a 10.000 metros, mas produziram muitos poucos deles.

-Vamos voltar ao primeiro impacto com aeronaves francesas. O que sentiu?

-Tenho que dizer que a França já estava acabada... mas eu era um novato, me juntei à força aérea em 1937 e cheguei à minha unidade nos primeiros meses de 1939. Fui o último a chegar à minha Squadriglia, então eu era verde em assuntos de guerra. Entretanto, havia alguns pilotos que estiveram na Guerra da Espanha, e fui bastante sortudo já que o comandante me designou para dois desses veteranos; cada Squadriglia tinha seu próprio grupo acrobático. E essa foi a razão pela qual o Sergente Maggiore Tullio Bortolloti foi designado como meu instrutor de acrobacias e o Sergente Maggiore Rozzi, hoje um general, como instrutor de guerra. Nós simulamos perseguições aéreas. Eu devo a ele, veterano da Espanha e membro da famosa “Cucaracha”, um precioso treinamento.

-Mas o que o senhor pensava do inimigo que tinha à frente?

-Durante os primeiros combates na França... Eu simplesmente não podia atirar. Para mim, aquele cara que estava ali na minha frente não tinha feito nada de errado; por toda a guerra eu sempre tentei não atirar no cockpit, onde o piloto estava, mas tentava derrubar o avião, a máquina. Claro que eu tive que acordar, já que ninguém estava ali pra brincadeiras: olhe só pra essas fotos... um tiro de canhão de um D.520 quase me pegou na cabeça, por sorte ali tinha uma placa protetora, era um canhão de 20mm... Bem, na França, na primeira vez que tive uma aeronave à minha frente não consegui abrir fogo. Em certo ponto, o comandante se pôs ao meu lado e fez o que eu devia fazer. Então, quando pousamos, ele gritou comigo: “Mas que *****! O que você estava fazendo? Se for guerrear daquele jeito é melhor ficar no chão!” Contudo, atirar em outra pessoa... Mas posso dizer que testemunhei alguns terríveis episódios de nossos inimigos: eles atiravam em nossos pilotos que desciam de pára-quedas. Nessas horas eu descia, perseguia os inimigos enquanto mergulhavam, e atirava até minha garrafa d’água neles... Eram homens como eu. Mas tudo pra mim era novidade, enquanto os veteranos da Espanha eram muito mais espertos.

-A guerra continua e se torna dura. O que aconteceu após a campanha da França?

-Quando terminamos na França voltamos para Mirafiori; havia notícias estranhas vindas da África. Por que, veja, se tínhamos algum nível em território nacional, lá na África eles não tinham nível nenhum: eles ainda tinham alguns CR.32, aqueles da Guerra da Espanha, e alguns Breda 64 e 65, que eles usavam para ataque... para apoiar a situação na África, um grupo de 50 aeronaves do nosso Stormo foi enviado para a Líbia. A transferência correu bem e rapidamente pudemos voltar para a Itália, onde nos entregaram novos CR.42: novíssimos, mas ainda idênticos aos antigos, quero dizer, sem blindagem. Nós, pilotos, tínhamos que fazer nossas adaptações: uma delas era encher o compartimento de bagagem que ficava atrás de nossa cabeça, e servia para transportar pertences pessoais, com um saco de areia que parasse balas. Maresciallo Pilota Sozzi salvou minha vida no céu sobre a Inglaterra. Eu estava com um Spit atrás de mim e não percebi. Ele se jogou entre mim e o Spit... e tomou todos os tiros. Uma bala perfurou seu pulmão, mas mesmo ferido ele conseguiu cruzar o Canal da Mancha e pousar em Calais... os alemães o recuperaram rapidamente. Sozzi foi indicado para a Medaglie d’Oro pelo Generale Fusi, chefe da expedição. Eu o vi algum tempo depois e perguntei sobre aquilo: “E então?”... “Eh, recebi a medalha, mas de prata. Você sabe, minha patente está aqui” (mostrando seu ombro com a patente de oficial não-comissionado). Havia uma relutância em entregar medalhas a oficiais não-comissionados: para eles era necessário pelo menos duas testemunhas durante o vôo. Por outro lado, os oficiais voltavam, contavam suas histórias... e todos acreditavam em sua honra. Mas para mim, mesmo se eu fosse um oficial não-comissionado, tudo estaria certo: relatórios, provas, prisioneiros. Eu derrubei 24 aeronaves pessoalmente! Sem contar aquelas que apenas contribui com outros para derrubar e as destruídas em solo... Um oficial podia voltar pra sua base, afirmar que derrubou uma aeronave e receber uma Medaglie d’Argento. Eu derrubei 19 aeronaves antes de 8 de setembro, tinha o direito de ganhar 3 Medaglie d’Argento que foram transformadas numa de ouro.

-O senhor também participou da Batalha da Inglaterra?

-Como estava te contando, após voltar do vôo de transferência para a África, ganhamos nossos novos CR.42: sem blindagem, oxigênio falho, colete salva-vidas da Marinha que eram muito grandes e atrapalhavam nossos movimentos. Nós partimos de Turim e pousamos em Munique para reabastecimento. Me lembro que estava nevando. De lá fomos para Frankfurt e então para a Bélgica, em Ursell. Algo incrível e absurdo: não conseguíamos ver o aeroporto, mesmo o comandante ficou atônito. Num certo momento vimos pinheiros se movendo e algumas vacas. Estava tão bem disfarçado que os ingleses nunca acharam o aeroporto. Havia também uma grande fazenda feita de papelão com portas e janelas, vacas de borracha inflável e pinheiros móveis que eram usados para esconder os abrigos de aeronaves, que também eram cobertos por redes. Nós estávamos mal-equipados, apenas pense que não tínhamos aquecimento em nossas aeronaves, que por sinal eram abertas. Voávamos até com temperaturas negativas no solo! Se tivéssemos que decolar às 11 da manhã, os pobres mecânicos tinham que girar os propulsores que não conseguiam rodar, com o óleo congelando. A comida era ruim no começo, mas então o pessoal da logística do nosso grupo chegou e as coisas mudaram. Lama por todo lado. As operações eram organizadas pelos alemães, e tínhamos que escoltar nossos bombardeiros: era um desastre. Um monte de pilotos foi pra lá, alguns eram apenas crianças ricas mimadas procurando por emoções de guerra... Já havia sido assim na Espanha. Mas aquela não era uma guerra de dinheiro, era uma guerra de chumbo e os rapazes ingleses não estavam brincando, atiravam pra matar.

Escoltávamos bombardeiros, mas mantê-los juntos era praticamente impossível: alguns caíam porque os motores falhavam. Eram BR.20s, máquinas também cobertas com lona, concebidas para voar leves e decolar de chão seco. Ao invés, aqui estavam, sobrecarregados de bombas e decolando de lamaçais, com pilotos sem treinamento. As primeiras duas missões foram um desastre: os alemães nos pararam quando perceberam o tipo de aeronave que tínhamos... Falha de oxigênio, sem rádio, cobertura de lona; e a primeira coisa que nos deram foram alguns aquecedores de motor e, depois de umas 48 horas, instalaram blindagem extra. Eles nos deram suas roupas de vôo, luvas e capacetes (ainda tínhamos aqueles leves). Honestamente, tudo que tínhamos era de fazer qualquer um chorar, e fizemos a guerra nessas condições; nós não tínhamos nem mapas, mesmo na Itália tínhamos que trabalhar com mapas de clubes de turismo. E você pode imaginar tanta névoa? Após um combate, 25 de nós estávamos voltando, pousando em quatro pistas diferentes, e eu não via nada abaixo das torres das igrejas. Pousei quando vi a pista, exceto que não era pista, era uma estrada. Antes de mim, 4 outros caras tinham tido o mesmo erro: um outro pousou em uma praça em Amsterdã, Saddini e outros pousaram entre as árvores. Dois foram derrubados, ou pelo menos disseram isso, mas mais tarde descobrimos que apenas tinham tido problemas técnicos. Pobres Salvadori e Lazzari. O primeiro teve a temperatura interna do óleo elevada a 120ºC e ficou com medo de voltar atravessando o Canal. Ele tentou pousar em solo britânico, mas a aeronave atingiu um buraco e parou na vertical (há uma foto nos arquivos ingleses) e ele foi feito prisioneiro. O segundo viu que sua bússola tinha enlouquecido. Uma dessas aeronaves, a de Salvadori, está no Museu de Guerra Imperial. Giuntella, Lolli, Guglielmetti, Grillo, Mazza, perdemos todos eles e mais alguns, mas não Lazzari e Salvadori. No meio do inverno fomos ordenados a retornar, enquanto os Fiat G.50s chegavam; mas eles não participaram de nenhuma ação lá, já que seu alcance não era grande o suficiente e assim que cruzavam o Canal já tinham que voltar. Então, foram empregados na defesa noturna dos aeroportos em vôos noturnos solitários.

Olha, a expedição para a Inglaterra foi algo que devemos esquecer: bombardeios errados e aeronaves inúteis. No entanto, o combate de 11 de novembro foi um dos grandes! Muitos anos depois eu tive a oportunidade de encontrar aqueles que participaram do lado oposto, em Munique, durante uma conferência de veteranos de todas as nações que participaram da Segunda Guerra Mundial, exceto a Rússia. Eu procurei o francês Clostermann, que escreveu vários livros; ele foi a princípio interessante, mas depois se mostrou cheio de estereótipos sobre os italianos, exceto que ele admitiu que nunca nos encontrou em vôo. Então um sujeito se aproximou e disse: “Você é o Gorrini?” “Sim, sou eu”, respondi. Era o Peter Townsend, ás britânico, que falava perfeito italiano desde que estudara em Florença. “Foi você no CR.42 que atirou em mim e me atingiu no pé!” “Então, se fui eu, era você naquele Hurricane que atirou em mim e as balas passaram por entre minhas pernas!” Nos tornamos amigos e toda vez que ele vinha para a Itália eu o buscava no aeroporto. Já que ele amava carros e eu conhecia o Engenheiro Ferrari, o levei a Maranello e ele pôde dirigir um “muletto” [“pequena mula”, o jeito italiano de chamar o carro-reserva de Fórmula 1]... foi como um sonho pra ele!

CONTINUA...

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terça-feira, 2 de outubro de 2007

O terror invisível


O terror invisível

Fotos inéditas de Auschwitz mostram que o mal tem um poder ainda mais terrível: o de anestesiar as consciências

por Vanessa Vieira

O campo de extermínio de Auschwitz, que funcionou na Polônia até os últimos dias da II Guerra, passou para a história como palco das piores atrocidades perpetradas pelos nazistas. Em suas câmaras de gás, nas quais as pessoas eram comprimidas a ponto de não conseguirem mexer os braços, foram assassinados mais de 1,5 milhão de judeus, além de deficientes físicos, homossexuais, ciganos e quem quer que o III Reich considerasse indigno de viver. Uma série de fotografias inéditas divulgadas na semana passada pelo Museu do Holocausto, em Washington, mostra o campo de Auschwitz sob outro ângulo, o dos oficiais do Exército alemão, guardas e funcionários que trabalhavam no local, um contingente de aproximadamente 4.000 pessoas. As 116 fotos, descobertas casualmente na época da guerra por um oficial americano e guardadas em sua gaveta desde então, revelam a rotina alegre e despreocupada mantida pelos alemães em Auschwitz – paralelamente ao martírio dos prisioneiros. Numa das fotografias, oficiais da SS, a tropa de elite nazista, cantam alegremente acompanhados por um acordeom. Uma imagem datada de 22 de julho de 1944 mostra um grupo de mulheres soldados sorrindo e comendo framboesas. Naquele mesmo dia, segundo registros, mais 150 prisioneiros haviam chegado a Auschwitz, dos quais 117 foram enviados diretamente para as câmaras de gás.

Com seus flagrantes da vida pacata da soldadesca, as fotos agora divulgadas de Auschwitz são um exemplo eloqüente do sistema de valores morais cultivado pelos nazistas e que, levado às últimas conseqüências, lhes permitiu promover o holocausto de 6 milhões de judeus. Esse sistema de valores amparava-se na total ausência de compaixão por seres humanos que os nazistas julgassem inconvenientes a sua causa. Para os oficiais alemães e seus comandados, as mortes não eram assassinatos, mas tarefas rotineiras, ordens a ser cumpridas. A filósofa alemã Hannah Arendt cunhou a expressão "banalização do mal" após acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, prócer nazista encarregado de levar a cabo a solução final, ou seja, o extermínio em massa dos judeus. Ao ser apresentado ao tribunal, Eichmann surpreendeu os presentes por não aparentar em nada o monstro sádico que demonstrava ser com suas ações. Era um sujeito franzino, de personalidade submissa, que afirmava ter apenas cumprido suas ordens com zelo e eficiência. Contou que tocava violino e que a simples visão de atos de violência o fazia tremer. A avaliação psiquiátrica a que havia sido submetido também não havia detectado nele problemas mentais. Escreveu Hannah: "O problema, no caso de Eichmann, é que havia muitos como ele, e esses muitos não eram nem perversos nem sádicos, eram assustadoramente normais. Essa normalidade é muito mais aterradora do que todas as atrocidades juntas".

A trivialização da morte permeava todos os escalões da hierarquia nazista. Em seu livro Os Carrascos Voluntários de Hitler, o historiador americano Daniel Jonah Goldhagen relata o dia-a-dia dos agentes da polícia de Hitler na Polônia ocupada. Segundo ele, muitos policiais, pais de família, passavam os dias fuzilando mulheres e crianças, jogadas em valas comuns. No fim da tarde, voltavam para seus lares, abraçavam a família como se tivessem passado o dia num escritório e confraternizavam em atividades sociais. A solução final foi um projeto meticulosamente planejado, que incluiu o desenvolvimento de novas técnicas destinadas a eliminar o maior número de seres humanos no menor tempo possível. À frente do empreendimento esteve o capitão Rudolf Höss, comandante de Auschwitz. Em 1941, o chefão da SS, Heinrich Himmler, ordenou a Höss que passasse alguns dias no campo de concentração de Treblinka. Objetivo da visita: verificar como eram mortos os judeus no local a fim de aperfeiçoar os métodos de extermínio.

De volta a Auschwitz, Höss mandou construir fornos crematórios maiores e mais eficientes. As câmaras de gás também foram ampliadas para acomodar até 2.000 judeus de cada vez. O psiquiatra americano Leon Goldensohn, que entrevistou os principais oficiais nazistas levados a julgamento em Nuremberg, nos anos 40, perguntou a Höss se ele não sentia culpa pelos milhares de vidas que tirou. "Quando Himmler nos dizia algo, parecia tão correto e natural que obedecíamos cegamente", foi sua resposta. E o que Höss achava de matar crianças da mesma idade de seus filhos? "Não era fácil, mas estávamos convencidos das ordens que recebíamos e de sua necessidade." As fotos agora reveladas mostram com nitidez a capacidade que tem o mal de anestesiar consciências.

fonte: Revista Veja, edição 2027 - 26 de setembro de 2007

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segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Luigi Gorrini


Luigi Gorrini
Sergente Maggiore
(1917 - )

Luigi Gorrini é o ás italiano de mais alto escore ainda vivo, e o único piloto sobrevivente agraciado com a Medaglie d’Oro al Valore Militare. Nascido em Alseno, província de Piacenza, em 12 de julho de 1917, ele desenvolveu uma paixão por motocicletas ainda nos seus primeiros anos. Essa paixão posteriormente perdeu espaço para o desejo de voar, e ele ingressou na Regia Aeronautica em 1937. Após concluir seu treinamento, ele foi designado como Sergente Pilota da 85ª Squadriglia “Ochio Che Te Copo”, 18º Gruppo do 3º Stormo em fevereiro de 1939. Por incrível que pareça, Gorrini serviu com essa unidade por toda a guerra até o Armistício.

No outono de 1940, sua esquadrilha, então equipada com Fiat CR.42s, formou parte do Corpo Aereo Italiano (CAI) na Bélgica, onde participou de um punhado de ferozes batalhas sobre o Canal da Mancha, incluindo combate de 11 de novembro sobre Harwich e a varredura de caça do dia 23. No entanto, como seu colega e ás do 18º Gruppo Franco Bordoni Bisleri, Luigi Gorrini conseguiu todas as suas vitórias no Norte da África ou na defesa da Itália.

Apesar da obsolescência de seu caça biplano Fiat já no ano de 1941, ele conseguiu derrubar um Bristol Beaufighter em 16 de abril e um Bristol Bleheim em 29 de maio, sendo que este último combate aconteceu a 8.100 metros de altitude, e Gorrini quase desmaiou por falta de oxigênio. Gorrini então passou muitos meses sem ver uma única aeronave inimiga quando sua unidade recebeu a tarefa de prover escolta de caças para comboios marítimos. Ele também realizou missões de patrulha e ataque ao solo nesse período. Na verdade, ele não conseguiu sua próxima vitória ate janeiro de 1943, época em que sua unidade já voava o Macchi MC.202 Folgore na desesperada defesa da Tunísia. Ele derrubou um Curtiss P-40 e um Spitfire antes do 18º Gruppo retornar à Itália no fim de março de 1943.

Inicialmente proibido de voar por causa de uma irritação numa ferida no olho, Gorrini rapidamente recuperou o tempo perdido em julho e agosto de 1943. Agora pilotando um MC.205V Veltro, e baseado em Cerveteri, ao norte de Roma, o já veterano piloto derrubou quatro Fortalezas Voadoras B-17, quatro P-38 Lightning e um Spitfire com os canhões de seu Macchi. Ele também foi creditado com o abate de um quinto P-38 e um B-24 Liberator enquanto voava um Folgore.

Durante a batalha na qual o Liberator foi derrubado, em 13 de agosto, a aeronave de Gorrini foi atingida por fogo defensivo do condenado bombardeiro, forçando o ás italiano a saltar de pára-quedas. Tal seqüência de vitórias gerou a seguinte menção nos despachos de 30 de agosto:

“Sergente Maggiore Luigi Gorrini de Alseno (Piacenza) do 3º Stormo Caccia se distinguiu durante as batalhas aéreas dos dias 27 e 29, durante as quais ele derrubou dois bombardeiros quadrimotores e um caça bimotor.”

Em 31 de agosto, durante sua última missão operacional com a Regia Aeronautica, ele derrubou mais um Spitfire, mas por outro lado teve que fazer uma aterrissagem de emergência. Gorrini sofreu múltiplos ferimentos resultantes do acidente, passando diversas semanas em recuperação no hospital.

No rastro dos eventos cercando o Armistício de 8 de setembro de 1943, ele se juntou a um grupo de outros pilotos de caça que respondeu ao chamado às armas do famoso Tenente Colonello Ernesto “Gamba di Ferro” Botto. Botto urgia a continuação da luta contra os Aliados ao lado da Aeronautica Nazionale Reppublicana (ANR). Designado para voar com a 1ª Squadriglia “Asso di Bastoni” do I Gruppo Caccia, Gorrini usou o Macchi MC.205V para marcar mais quatro vitórias entre janeiro e abril de 1944, elevando seu total para 19, sendo que outras fontes não-confirmadas o creditam com 24 vitórias. Em 15 de junho, Gorrini foi derrubado após um combate com um P-47 Thunderbolt, ferindo-o seriamente e trazendo fim à sua carreira como piloto de caça na Segunda Guerra Mundial.

Ele permaneceu na Força Aérea após a guerra, e em 1958 recebeu a rara honra de ser condecorado com a Medaglie d’Oro al Valore Militare, a mais alta condecoração militar italiana, que geralmente só é conferida em caráter póstumo. Ele foi o único piloto que serviu com a ANR a receber essa honra por feitos conseguidos antes e depois do Armistício. Essa condecoração foi adicionada às suas duas Medaglie di Bronzo e a Cruz de Ferro alemã de 1ª e 2ª classes. Gorrini permaneceu no serviço militar até 1979 sendo promovido a Ufficiale ao aposentar-se. Hoje, Luigi Gorrini vive uma quieta aposentadoria em sua cidade natal de Alseno.

MC.202 Folgore de Luigi Gorrini, 85ª Sq, 18º Gr, 3º Stormo CT. Tunísia, janeiro de 1943.


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