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quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Livro: Massacre no Atlântico


Massacre no Atlântico

Livro detalha a campanha de Adolf Hitler contra os navios brasileiros na II Guerra

Marcelo Bortoloti

O Brasil na Mira de Hitler, do jornalista Roberto Sander, que a Editora Objetiva lança neste mês (256 páginas, 33,90 reais), é o primeiro livro a ocupar-se inteiramente dos ataques de submarinos alemães contra navios brasileiros durante a II Guerra Mundial. Ele narra em detalhes a ofensiva naval alemã contra um Brasil ainda neutro na guerra – ofensiva que continuaria até quase o fim da guerra na Europa. Entre 1941 e 1944, os submarinos torpedearam fatalmente 34 navios mercantes brasileiros, matando 1.081 pessoas, mais do que o dobro dos militares da Força Expedicionária Brasileira mortos em combate na Itália. Até que Sander se interessasse por eles, os detalhes dos sangrentos episódios eram desconhecidos do grande público. O jornalista revirou os arquivos da época para recontar a história. Uma noite, a de 15 de agosto de 1942, foi especialmente terrível no mar.

O navio Baependi foi torpedeado a 30 quilômetros da costa nordestina, quando navegava do Rio de Janeiro para o Recife. Eram 7 horas da noite e muitos passageiros valsavam no salão de baile. A festa acabou quando dois torpedos disparados pelo submarino alemão U-507 explodiram o casco e levaram o Baependi a pique em três minutos. Em um procedimento usual nesses ataques, o U-507 emergiu depois do ataque, examinou os destroços e voltou às profundezas. Foi um golpe preciso e brutal contra um país que ainda se declarava neutro na guerra. Das 306 pessoas a bordo, apenas 36 conseguiram se salvar. Todas as crianças morreram. Era o início da noite mais sangrenta da história do Brasil no século XX. "Ouvia gritos terríveis. Eram homens, mulheres e crianças que se afogavam em torno de mim", disse, na ocasião, o capitão do navio, Lauro Moutinho, um dos poucos sobreviventes. O Baependi foi o 15º alvo dos u-boats do III Reich. Não foi o único da noite sangrenta.

Duas horas mais tarde, um novo clarão surgiu no horizonte. O mesmo U-507 bombardeava outro navio brasileiro, o Araraquara. O ataque foi tão rápido que ninguém conseguiu retirar nem os equipamentos de segurança antes que o navio afundasse. Em meio à escuridão completa, o mar furioso arrastava os náufragos com violência. Das 142 pessoas a bordo, somente onze, agarradas aos destroços, sobreviveram. Às 4 horas da manhã, o U-507 completaria a matança daquela noite, botando a pique o navio Aníbal Benévolo, que navegava a pouco mais de 10 quilômetros da costa. A maior parte dos passageiros estava dormindo. Todos morreram afogados, incluindo dezesseis crianças. Em menos de dez horas, um único submarino nazista matou 551 brasileiros, a maioria civis. O episódio precipitou a entrada do país na II Guerra.

Quando as notícias da razia feita pelo U-507 chegaram ao Rio de Janeiro, então capital da República, já havia um clima crescente de hostilidade contra os nazistas. A hostilidade logo se transformaria em ódio. A ditadura de Getúlio Vargas tinha rompido relações diplomáticas com a Alemanha de Hitler em janeiro de 1942 – menos de oito meses antes do ataque da madrugada de destruição promovida pelo U-507. O Brasil fornecia tungstênio, cristal de quartzo, borracha e outras matérias-primas à indústria bélica americana. Os Estados Unidos tinham o direito de usar uma base aérea na cidade de Natal. Mas oficialmente o Brasil era um país neutro. Hitler retaliou de maneira desproporcional dando ordens de atirar à vontade ao U-507. Sob o comando do capitão-de-fragata Harro Schacht, de 34 anos, ele cumpriu com perfeição a missão de destruir os navios que encontrasse em sua rota. No dia seguinte ao ataque, 12.000 estudantes saíram às ruas no Rio de Janeiro exigindo que o Brasil declarasse guerra. Estabelecimentos de alemães foram depredados. Vargas fez um discurso inflamado falando em "punição exemplar" para os agressores. Dias depois, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália.

A se fiar no livro de memórias do alemão Hermann Rauschning, o führer chegou a dizer que pretendia edificar no Brasil uma nova Alemanha. Rauschning, senador do partido Nazi, que depois viria a renegar, não é, porém, fonte confiável. Suas conversações com Hitler, dadas por ele como confidências íntimas, não passaram de diálogos rápidos trocados nos palanques das espetaculares apresentações públicas dos nazis. Morto em 1982, Rauschning foi desmascarado por diversos historiadores. Mas é fora de dúvida que as pretensões de dominação mundial da Alemanha de Hitler não permitiam ignorar o Brasil. Quando o alinhamento com os aliados se tornou inevitável, o Brasil passou a ser visto como inimigo pelos alemães. O Nordeste, situado na cintura do Atlântico, era uma base de apoio fundamental para os aliados atingirem o continente africano e também uma porta de entrada para os nazistas quando fosse conveniente e possível invadir as Américas. Cerca de 150.000 alemães moravam no Brasil e, como em toda parte, alguns poucos atuaram como espiões. Até o fim da guerra foram presos 100 deles. Eficientes espiões, eles informaram com precisão o destino e a carga de cada embarcação que saía do Brasil, facilitando o trabalho dos submarinos.

Com ordens de interromper no Atlântico as linhas de abastecimento para as ilhas britânicas, os alemães afundavam os navios sem distinção de bandeira. Essa era, então, a prioridade estratégica dos militares alemães. Entre o começo de 1942 e meados de 1943, os submarinos alemães, construídos ao ritmo de duas dezenas por mês, afundaram em navios mercantes, especialmente americanos e canadenses, o equivalente a 7 milhões de toneladas de carga. Em novembro de 1942, o mais cruel dos meses, foram afundadas quatro embarcações por dia. O ataque ao navio brasileiro Cairu, em março de 1942, próximo à costa americana, foi especialmente dramático. Vinte sobreviventes passaram quatro dias à deriva em um bote salva-vidas, enfrentando o mar revolto, a chuva forte e temperaturas abaixo de zero. No segundo dia, o primeiro brasileiro morreu congelado. Nos dois dias seguintes, mais nove dos embarcados morreram de frio. Suas roupas eram retiradas para aquecer os sobreviventes e os corpos, jogados na água. Dez marujos foram resgatados com vida. A notícia causou enorme comoção no Brasil, e o governo prometeu que os navios mercantes brasileiros só iriam ao mar com escolta. A decisão, é claro, demorou a ser cumprida. No fim de 1942, quando as embarcações americanas já andavam em comboio e escoltadas, a frota brasileira ainda era um alvo fácil. A perda de vidas brasileiras, segundo alguns historiadores, foi grande também porque era hábito permitir que passageiros civis, militares e cargas estratégicas viajassem lado a lado nos mesmos navios.

fonte: Revista Veja, edição 2022 - 22 de agosto de 2007


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terça-feira, 28 de agosto de 2007

Hermann Hoth


Hermann Hoth
Generaloberst
(1885 - 1971)

Hermann Hoth nasceu em Neuruppin, Brandenburg, no dia 12 de abril de 1885, filho de um oficial médico do exército. Ele ingressou no serviço militar como oficial cadete em 1904, e fez bom progresso – em 1914 já era Hauptmann servindo junto ao Estado-Maior Geral. Durante a Primeira Guerra Mundial ele serviu numa série de unidades, e em certo ponto comandou um Fliegerabteilung (pelotão de vôo). No fim da guerra ele era oficial de estado-maior de uma divisão de infantaria.

No Reichswehr do pós-guerra ele progrediu na carreira, ocupando diversos postos de estado-maior e comandos. Sendo assim, quando a nova Wehrmacht foi formada em 1935, Hoth foi designado comandante da 18ª Divisão de Infantaria com a patente de Generalmajor. Em 1938 ele foi promovido a Generalleutnant e recebeu o comando do XV Corpo de Exército.

Seu comando foi modificado para XV Corpo Panzer no ano seguinte, e ele liderou-o com inquestionável sucesso durante a invasão da Polônia em setembro de 1939. Hoth estava entre os oficiais condecorados com os primeiros exemplares da recém-criada Cruz do Cavaleiro, com a qual ele foi agraciado em 27 de outubro de 1939. A campanha do ocidente na primavera de 1940 viu Hoth no comando do 10º Exército. Mais uma vez os sucessos vieram aos montes, e ele foi promovido a General der Infanterie em 19 de julho daquele ano.

Para a invasão da União Soviética em junho de 1941, Hoth recebeu o comando do 3º Grupo Panzer, que realizou arrancadas altamente bem-sucedidas para dentro do território soviético, capturando Minsk e Vitebsk bem como vastos números de prisioneiros antes de direcionar-se para Moscou. Em 17 de julho de 1941, o General Hoth foi condecorado com as Folhas de Carvalho para sua Cruz do Cavaleiro. Em outubro ele foi transferido para o setor sul do front leste, onde serviu como comandante do 17º Exército, sendo também promovido a Generaloberst.

Hoth liderou o 17º Exército através de muitas batalhas ao redor de Kharkov e na bacia do Donets, enquanto os soviéticos lançavam sua contra-ofensiva em janeiro de 1942. No verão daquele ano ele substituiu o Generaloberst Erich Höpner no comando do 4ª Exército Panzer, lutando no front de Voronezh. Em dezembro, seu exército tomou parte na abortada tentativa de resgate do cercado 6º Exército de Paulus em Stalingrado. Ainda assim, em fevereiro e março de 1943 Hoth conseguiu uma esmagadora vitória na terceira batalha de Kharkov. Hoth fora um dos pioneiros no uso de tanques, e era amado pelos soldados, que o chamavam de “Papa Hoth”. Ele também costumava usar em campo somente sua Cruz do Cavaleiro, apesar de ter sido condecorado inúmeras outras vezes.

Em julho de 1943 o exército de Hoth compôs a ponta de lança blindada do Grupo de Exércitos Sul do Generalfeldmarschall Erich von Manstein, atacando como a pinça sul na mal-sucedida ofensiva contra os blindados soviéticos no saliente de Kursk. Nessa ação, a Operação Cidadela, Hoth comandou o II Grupo Panzer SS (divisões “Liebstandarte”, “Das Reich” e “Totenkopf”), XLVIII Corpo Panzer (3ª e 11ª Divisões Panzer, Divisão de Granadeiros Panzer “Grossdeutschland” e 167ª Divisão de Infantaria), e o LII Corpo de Exército (57ª, 255ª, e 332ª Divisões de Infantaria), com suporte aéreo total do Luftlotte 4. Quando seus 700 tanques (incluindo 60 dos novos PzKw VI Tiger) foram lançados em 5 de julho, Hoth fez rápido progresso, infligindo pesadas baixas ao 6º Exército da Guarda do Tenente-General Chistiakov.

Mas a imensa profundidade das defesas soviéticas, preparada em antecipação ao ataque alemão, atolou as tropas e tanques de Hoth a um nível assustador; o Exército Vermelho ainda podia repor as perdas com muito mais facilidade do que os alemães. Quando os russos lançaram sua longamente preparada Operação Kutuzov contra o bolsão de Orel ao norte do saliente em 12 de julho, as operações alemãs ao redor de Orel e Kursk foram condenadas. Hoth então disse à Manstein: “Os russos aprenderam muito desde 1941. Eles não são mais camponeses de mentes simples. Aprenderam a arte da guerra conosco.”

Hitler estava tenso com a simultânea invasão Aliada da Sicília e recuou algumas das melhores unidades de Hoth. Durante sua contra-ofensiva em julho-agosto, o Exército Vermelho rompeu as defesas alemãs e recapturou Kharkov. Em 15 de setembro de 1943, Hoth foi agraciado com as Espadas para a Cruz do Cavaleiro, mas em novembro os soviéticos recapturaram Kiev, retrocesso que enfureceu Hitler. Hoth recebeu uma licença, e em 10 de dezembro foi dispensado de seu comando como bode-expiatório da desastrosa gestão de guerra de Hitler. Chamado de volta à Alemanha, ele posto na reserva do Führer, que o chamava de “um pássaro de mau-agouro, um derrotista”; Hoth nunca mais receberia outro comando.

Após a guerra, Hoth foi responsabilizado pelos crimes de guerra cometidos por seus soldados. Condenado em 1948, ele foi sentenciado a 15 anos de prisão, mas acabou cumprindo somente 6 anos. Ele tinha 69 anos quando foi libertado da prisão de Landsberg em 7 de abril de 1954. Hermann Hoth passou sua aposentadoria escrevendo livros de história militar, até seu falecimento em Goslar, na Baixa-Saxônia, em 25 de janeiro de 1971, aos 85 anos.

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sábado, 25 de agosto de 2007

A Itália declara: "Guerra!"


A Itália declara: "Guerra!"

A narrativa da seqüência de acontecimentos e expectativas que levaram à declaração de guerra italiana em junho de 1940.


Após ter conquistado a Abissínia em 1936, Mussolini se viu com seu tão desejado Império em mãos. Mas o custo de tal empreendimento ultrapassou em muito os gastos militares na campanha. A Europa se voltava contra a Itália agora, e alianças políticas ficavam cada vez mais distantes. Pobre Itália, dona do mais novo Império do mundo, mas que dependia francamente de importações para sobreviver como potência. O discurso de Hailé Selassié em Genebra foi duro, fazendo França e Inglaterra afastarem-se de Mussolini.

Este foi então forçado a fazer uma aliança com a única potência européia que ainda lhe restava: a Alemanha de Adolf Hitler. Em 1937 Mussolini assinou o Pacto Anti-Comintern já vigente entre alemães e japoneses. Nunca houve, de ambas as partes, real confiança na parceria: Hitler não confiava na combatividade dos italianos e Mussolini não confiava na estabilidade dos alemães. O fato é que o povo italiano não estava à vontade aliando-se a Hitler. A natural alegria e vivacidade italiana não combinavam com a severidade alemã.

Em maio de 1939 o General Ugo Cavallero foi à Berlim com um memorando do Duce em mãos, para ser entregue pessoalmente a Hitler. No hoje conhecido “Memorando Cavallero”, Mussolini reconhecia a inevitabilidade da guerra, assim como a despreparo da Itália para a beligerância antes de 1942; pedia ao Führer, portanto, para adiar a deflagração até lá. Aceitas as condições do Duce, foi firmado em 22 de maio o Pacto de Aço, pelo relutante Ciano e confiante Ribbentrop. As obrigações do Pacto incluíam consultas prévias ao aliado para decisões militares e apoio mútuo em caso de declaração de guerra. Mussolini também não queria um conflito europeu imediato porque já tinha investido muito dinheiro na Feira Mundial de Roma, que aconteceria em 1940. Terrível desperdício seria ter a guerra antes disso.

No fim de maio, Hitler reúne os comandantes da Wehrmacht e lhes dá ordem de preparação da ofensiva contra a Polônia. Nada é informado aos italianos. O Führer teme espiões no Comando Supremo italiano, especialmente na Casa de Savoia, cuja influência Mussolini não foi capaz de neutralizar, e que demonstrava notada antipatia pelos alemães. Sendo assim, os italianos seguem crentes em Hitler e em sua declaração de satisfação na Conferência de Munique. A comunicação entre Ciano e Ribbentrop não é das melhores. Ao receber do ministro alemão no dia 11 de agosto o anúncio do ataque à Polônia, Ciano anota em seu diário:

Ribbentrop é evasivo. Toda vez que lhe pergunto sobre detalhes da política alemã sua consciência o perturba. Ele já mentiu muitas vezes sobre as intenções da Alemanha na Polônia para se sentir desconfortável agora sobre o que tem que me contar, e o que estão realmente pretendendo fazer. A decisão alemã de lutar é implacável. Ainda que lhes fosse dado mais do que pedem, eles atacariam da mesma forma, pois estão possuídos pelo demônio da destruição.

Em 25 de agosto, Bernardo Attolico, embaixador italiano em Berlim, entrega a Hitler um telegrama do Duce, dizendo que a Itália não poderá entrar em guerra a menos que recebesse substancial ajuda material. Foram pedidas:

*6.000.000 de toneladas de carvão;
*2.000.000 de toneladas de aço;
*7.000.000 de toneladas de combustíveis líquidos;
*1.000.000 de toneladas de madeira;
*150.000 toneladas de couro.

Attolico anunciou que a entrega deveria preceder a entrada em guerra, sendo, portanto, imediata. Hitler negou tal pedido, dizendo que essas quantidades eram essenciais para a economia de guerra alemã. O Führer então pediu a Mussolini que pelo menos posicionasse seus contingentes junto às fronteiras franco-britânicas.

O que poderia ser visto como oportunismo italiano, recuando para ver o que acontece, na verdade foi uma manobra de precaução, visto o extremo despreparo de seu exército. Após o início da invasão da Polônia, em 1 de setembro, a Itália assumiu um estado de não-beligerância favorável à Alemanha, o que deixou muito desconfortáveis os governos francês e inglês.

A neutralidade italiana teve muitas implicações no cenário geral da guerra: a Espanha teve mais um motivo para permanecer neutra; os Aliados puderam retirar seus mais importantes navios de guerra do Mediterrâneo, concentrando-os no Atlântico; com a neutralidade da Turquia, todas as costas do Mediterrâneo estavam neutras ou sobre domínio Aliado.

Ainda que a preparação das forças armadas tivesse começado, Mussolini ainda era aconselhado a permanecer neutro. Homens como Ciano e o Marechal Balbo tinham opiniões fortes contra a beligerância, tendo até mesmo inclinação para os Aliados. Ciano disse ao embaixador francês: “Ganhai vitórias e estaremos convosco”. A Itália chegou a fornecer material de guerra para a França, o que provocou furiosas reações dos alemães. Os italianos se justificaram dizendo que os lucros da negociação ajudariam nos seus preparativos para a guerra.

Bloqueio Naval

França e Inglaterra puseram em prática um bloqueio naval contra a Alemanha. Em 8 de setembro designaram portos de vistoria. Navios que tivessem sua carga vistoriada e aprovada recebiam passagem rápida por zonas de controle. Em 21 de novembro de 1939 os Aliados anunciaram que interceptariam todas as exportações provenientes da Alemanha, independente da bandeira do navio. Esse anúncio provocou protestos da Holanda, Dinamarca, Bélgica, Suécia e Japão. Os transportes de carvão alemão para a Itália poderiam passar, desde que sobre águas neutras. Em dezembro os italianos enviaram aos ingleses um protesto, pedindo o fim do bloqueio sobre as rotas e suas comunicações com o império colonial. Os ingleses rejeitaram essas pretensões em 9 de janeiro de 1940.

Em 18 de fevereiro, o embaixador inglês em Roma, Sir Percy Lorraine, avisava a Ciano que todos os transportes de carvão alemão com destino à Itália seriam interceptados. Ciano protestou, mas em março treze carvoeiros italianos carregados que partiram da Alemanha em direção à Itália foram detidos pelos ingleses no Mar do Norte.

O bloqueio teve pequena influência no desenrolar do conflito. Os alemães não dependiam de transporte marítimo, sendo quase auto-suficientes. As matérias-primas que lhes faltavam eram fornecidas pela União Soviética. Para os italianos o bloqueio também não foi mortal, mas se transformou numa arma de propaganda, para fomentar a entrada na guerra.

Decisioni Irrevocabili

Achar que Mussolini decidiu entrar em guerra após a invasão da França em maio de 1940 é um erro. O Duce já acariciava a idéia desde a queda da Polônia. Disse ele à Ciano: “A Inglaterra será derrotada. Inexoravelmente derrotada. E farás bem em meter essa verdade em tua cabeça.” Dizia também que a declaração de guerra era uma questão de honra, pois os italianos não poderiam continuar com a fama de “gli eterni traditori” (eternos traidores). Ribbentrop veio à Roma em 10 de março, e oito dias depois Mussolini se encontrava com Hitler no Passo do Brenner, prometendo intervir.

Em 31 de março é enviada ao Rei e ao Comando Supremo uma ordem secreta sobre a necessidade de se engajar na chamada “Guerra Paralela”. De acordo com Mussolini, os países do Eixo deveriam lutar contra os mesmos adversários, mas em guerras separadas: “non con la Germania, ne per la Germania, ma solo per l’Italia, a fianco della Germania.” O Mediterrâneo é considerado o teatro da Itália, e ela deveria dar cabo dos Aliados por lá.

Dois dias após irromper a blitzkrieg no ocidente, em 12 de maio, Lord Halifax aconselha Winston Churchill a escrever a Mussolini. O primeiro-ministro envia a carta no dia 16:

Aconteça o que acontecer no continente europeu, a Inglaterra prosseguirá até o fim, mesmo completamente sozinha, como fizemos antes. (...) Através dos séculos, acima de todos os outros chamados, ouve-se o brado de que os herdeiros conjuntos da civilização latina e cristã não devem ser colocados um contra o outro, em luta mortal.

A resposta do Duce veio em seguida. De acordo com Churchill: “A resposta foi dura. Teve pelo menos os méritos da franqueza”:

Se foi para honrar sua assinatura que seu governo declarou guerra à Alemanha, o senhor entenderá que o mesmo sentimento de honra e de respeito pelos compromissos assumidos no Tratado Ítalo-Germânico inspira a orientação política italiana hoje e amanhã diante de qualquer acontecimento, seja qual for.

Mussolini quer aproveitar o momento: a França está de joelhos, prestes a cair. A Inglaterra logo estará sozinha. Se não agir rapidamente não poderá disputar os espólios dos dois impérios. Segundo ele: “Somente preciso de alguns milhares de mortos, e estarei na mesa de negociações.” Tudo que o Duce quer é arrancar o máximo possível dos adversários vencidos, com o mínimo de esforço. No fim de maio Hitler está esperançoso de que França e Inglaterra peçam logo o cessar-fogo, e envia a Mussolini uma carta pedindo para que adie a entrada da Itália na guerra. A resposta vem com uma data: 11 de junho.

De fato, às 18:00 do dia 10 de junho de 1940, o Duce aparece no balcão do Palazzo Veneza em Roma em frente a uma praça completamente lotada e entusiástica. A declaração de guerra é anunciada com início das hostilidades para a 00:00 de 11 de junho. O povo acolhe a notícia com estrondosos gritos de “Guerra! Guerra!”. Diversas associações e corporações italianas (universidades, ex-combatentes, trabalhadores) enviam telegramas de apoio a Mussolini. Uma minoria, entretanto, está relutante em lutar contra os franceses, irmãos de sangue latino.

A declaração precipitada deixa muitos prejuízos: 218 navios, cerca de um terço da marinha mercante italiana, ficam presos em portos Aliados ou neutros, totalizando 1.200.000 toneladas de arqueação totalmente perdidas. É um desastre do qual a Itália nunca se recuperará durante a guerra. Os franceses e ingleses já posicionavam suas forças em estado de prontidão, não correndo o risco de sofrer um ataque surpresa.

Assim começa um conflito que será deveras sangrento para o povo italiano. Um conflito que somente terminará em maio de 1945, após Benito Mussolini ser morto em Milão. Como diria Churchill: “Logo Mussolini terá toda a guerra que ele quiser”.


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sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Code Guardian


Eis aqui uma excelente animação CG com um conceito no mínimo curioso... A Alemanha Nazista constrói um robô-gigante e o envia para atacar os EUA. O resultado é estonteante!

Code Guardian é um trabalho do animador Marco Spitoni da Cee-Gee Digital Works.


Parte 1

Parte 2


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quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Luigi Rizzo


Luigi Rizzo
Ammiraglio di Squadra
(1887 - 1951)

Luigi Rizzo nasceu em Milazzo, perto de Messina, Sicília, em 8 de outubro de 1887. Entra na Academia Naval de Livorno onde freqüenta o curso de Admissão de Oficiais da Reserva em 1907. No ano seguinte consegue a nomeação a Guardiamarina e em 1912 é promovido a Sottotenente di Vascello. Participou do conflito Ítalo-Turco de 1911-1912, que resultou na conquista da Líbia.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Rizzo é designado de julho de 1915 até fins de 1916 para a defesa marítima de Grado. Sob as ordens do Almirante Cagni, se distingue particularmente em serviço, sendo agraciado com uma Medaglie d'Argento al Valore Militare. Mas a carreira de Luigi Rizzo daria um salto no início de 1917, quando foi transferido para uma arma recém-criada, de grande potencial: as MAS.

As pequenas e ágeis lanchas torpedeiras foram batizadas como Motoscafo Anti Sommergibile, e Rizzo se destacaria no comando dessas unidades em ações como:

-maio de 1917: captura de dois pilotos de um hidroavião austríaco danificado. Por esta ação, Rizzo ganhou uma segunda Medaglie d'Argento;

-dezembro de 1917: afundamento do couraçado da guarda-costeira austríaca Wien, ao largo de Trieste. No mesmo mês, realiza missões de defesa do porto de Piave, recebendo uma terceira Medaglie d'Argento, uma Medaglie d'Oro e a promoção a Tenente di Vascello;

-fevereiro de 1918: com Gabriele D'Annunzio e Constanzo Ciano (pai de Galeazzo Ciano) participa de uma ousada incursão na baía de Buccari, alcançando a quarta Medaglie d'Argento;

-junho de 1918: ao largo de Premuda, afunda o couraçado austríaco Szent Istvan, que foi incrivelmente registrado em filme. Por esta ação recebe a Croce di Cavaliere da Ordine Militare di Savoia, que foi complementada, em 27 de maio de 1923, pela segunda Medaglie d'Oro al Valore Militare.

Em 1919, Rizzo foi voluntário em Fiume sob D'Annunzio. Em 1920 deixou o serviço ativo com a patente de Capitano di Fregata. Em 1929 assume a presidência da Società di Navigazione Eola e, em 1936, se voluntaria para combater na Guerra da Abissínia, quando é reintegrado com o posto de Contrammiraglio.

Promovido a Ammiraglio di Squadra na Reserva Naval, Rizzo comanda, durante a Segunda Guerra, uma pequena flotilha anti-submarino a bordo do destróier Albatros. Em setembro de 1943, como presidente da Cantieri Riuniti dell'Adriatico (CRDA), ordena a sabotagem e destruição dos navios em seu comando para que não caíssem em mãos alemãs. Por essa ordem, foi deportado para a Alemanha com a filha Guglielmina. Rizzo e a filha voltam à Itália no fim da guerra.

Destemido ganhador de duas Medaglie d'Oro al Valore Militare, Luigi Rizzo falece em sua cidade natal de Milazzo, no dia 27 de junho de 1951.


Afundamento do Szent Istvan:


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A discoteca de Hitler


A discoteca de Hitler

A coleção de gravações do líder nazista revela que, na música, ele podia aceitar russos e judeus

Na semana passada, uma revelação assanhou a legião de estudiosos profissionais e amadores da trajetória de Adolf Hitler: anunciou-se que a coleção particular de discos do tirano nazista, com cerca de 100 títulos, foi retirada de seu bunker em Berlim, em 1945, por Lev Besymenski, um capitão da inteligência militar soviética, e levada para Moscou – onde passou quase cinco décadas escondida no sótão de sua casa. Ainda que a coleção contivesse apenas obras de Wagner e Beethoven, reputadamente os compositores prediletos do führer (e, a seu ver, exemplos incontestes da superioridade alemã), a notícia já bastaria para causar sensação. Seu efeito, porém, foi multiplicado pelas surpresas encontradas entre os álbuns. Há um número significativo de obras de compositores russos como Mussorgsky, Rachmaninov ou Tchaikovsky – e Hitler classificou os russos como "subumanos". Há também gravações realizadas por músicos judeus, como o violinista polonês Bronislav Huberman, um opositor veemente do regime nazista e fundador, em 1936, da Orquestra Palestina, embrião da atual Filarmônica de Israel. Ou o pianista austríaco Artur Schnabel, que fugiu da Alemanha em 1933, quando da ascensão de Hitler, e perdeu a mãe num campo de concentração.

O russo Besymenski certamente teve acesso privilegiado ao bunker, já que foi encarregado de inventariá-lo. A explicação sobre seu silêncio acerca dos discos é, de acordo com sua filha, Alexandra, prosaica: mera vergonha de ter pilhado as posses do ditador às escondidas. Daí ele ter ocultado a coleção no sótão, onde Alexandra a encontrou em 1991, enquanto procurava velhas raquetes de badminton. Dois meses atrás, Besymenski morreu – e sua filha decidiu vir a público com a descoberta. A prestigiosa revista alemã Der Spiegel, que deu o furo internacional, assume como autêntica a coleção. Mas, dada a altíssima cotação no mercado de qualquer novidade que se refira a Hitler, é uma cautela essencial tomar essa nova revelação com um grão de sal. Em 1983, num episódio antológico, a então muito respeitada revista alemã Stern viu sua reputação naufragar com a publicação da notícia de que haviam sido encontrados os "diários de Hitler". Comprovou-se depois que eles não passavam de uma bem-cuidada fraude. Besymenski não é o que se pode chamar de fonte isenta: anos atrás, ele foi um dos propagadores do boato de que Hitler tinha apenas um testículo.

Se a coleção encontrada no sótão de Besymenski for legítima, podem-se depreender dela fatos relevantes. Quando se tratava de seu próprio bem-estar, o führer podia pôr entre parênteses o ódio racial que constituía o núcleo de seu regime. Assim, usufruía a arte que ele mesmo proscrevera oficialmente, feita por "subumanos" ou "degenerados". Além disso, a música parece ter desempenhado um papel essencial em tornar mais suportável o dia-a-dia no bunker, à medida que seu poder se esfacelava. Hitler era um monstro. Mas a música o acalmava.


OS "SUBUMANOS" QUE O FÜHRER OUVIA

Compositores

Tchaikovsky (russo)
Borodin (russo)
Rachmaninov (russo)
Mussorgsky (russo)

Instrumentistas

Bronislav Huberman (violinista judeu)
Artur Schnabel (pianista judeu)

fonte: Revista Veja, edição 2021 - 15 de agosto de 2007


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segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Hawker Tempest


ORIGENS

Como o Hawker Typhoon se provara desapontador em seu pretendido papel de interceptador (pois tinha razão de subida e performance em grande altitude relativamente pobres), se distinguindo mais tarde como caça-bombardeiro (especialmente quando armado com foguetes), foi sugerida em 1941 uma ação rápida para remediar-se os contratempos. Tal ação tomaria forma numa nova asa, mais fina e elíptica. O radiador seria movido de debaixo do motor para as asas, e o motor Napier Sabre EC.107C foi escolhido para equipá-lo. Como a nova asa seria mais fina que a do Typhoon, a inclusão de um tanque de combustível adicional na fuselagem foi necessária para compensar a perda de capacidade nos tanques alares.

DESENVOLVIMENTO

O trabalho já havia começado na Hawker em 1940. Já havia sido provado que a seção alar N.A.C.A.22 usada pelo Typhoon era plenamente satisfatória em velocidades médias de 640 km/h, mas encontrava problemas de compressão em velocidades mais altas. Em mergulhos aproximando-se de 800 km/h, um repentino e intenso aumento no arrasto era sentido, acompanhado por uma mudança nas características aerodinâmicas do caça, que afetavam os controles e o pesado nariz. Nenhum desenho propriamente dito da nova asa havia sido feito até setembro de 1941, e o desenho eventualmente adotado tinha redução sensível na grossura, chegando a ser cinco polegadas mais fina na raiz se comparada à do Typhoon.

Tal asa não poderia carregar quantidade de combustível semelhante à de seu antecessor, então um massivo tanque na fuselagem foi introduzido. A instalação dependia da criação de um espaço interno na fuselagem, o que foi conseguido aumentando-se o comprimento da aeronave em 30,5 centímetros para frente do centro de gravidade. Essa modificação tornou inevitável uma compensação após testes com o protótipo, levando a uma ampliação da cauda. A área alar também foi ampliada, e a forma elíptica adotada, permitindo a instalação de quatro canhões Hispano de 20 mm quase totalmente enterrados na asa. Todas essas modificações mudaram radicalmente o Typhoon, mas foi como Typhoon II que dois protótipos foram encomendados em novembro de 1941.

No entanto, em meados de 1942, o nome Hawker Tempest foi oficialmente adotado. Instalações alternativas do motor Sabre foram designadas para os protótipos. O primeiro protótipo (HM595) tinha um Sabre II com radiador similar ao Typhoon, enquanto o segundo (HM599) apresentava um Sabre IV com radiador nas asas. Comandado pelo piloto Phillip Lucas, primeiro protótipo voou em 2 de setembro de 1942. Antes disso, em fevereiro de 1942, um pedido de produção havia sido feito, e em junho de 1943 voou o primeiro Tempest Mk.I de produção, pilotado por Bill Humble.

Durante os testes, o primeiro protótipo excedeu 764 km/h em vôo nivelado, e o primeiro modelo de produção era essencialmente similar ao primeiro protótipo, com radiador no queixo. Sendo designado Tempest V, teve sua primeira série com canhões Mk.II que se projetavam um pouco das asas, mas a segunda série apresentava canhões Mk.V totalmente ocultos, entre outras modificações. Equipado com um motor Napier Sabre IIB de 2.420 hp, o Tempest V atingia velocidades de 696 km/h a 5.000 m. O alcance de 1.300 km do Tempest V era muito melhor que o do Typhoon, não se devendo somente ao pequeno aumento no combustível carregado, mas também ao refinamento aerodinâmico que presenteava o Tempest com uma velocidade de cruzeiro mais alta com a mesma potência.

EM OPERAÇÃO

Os primeiros esquadrões a serem equipados com o Tempest V foram os de Nº 3 e Nº 486 em Newchurch, Dungeness, que os receberam no início de 1944. Em maio, cinco Tempest Vs tinham sido perdidos devido a falhas no motor, e foi descoberto que isso se dava devido ao ultra-movimento do propulsor, resultando num aumento incontrolável dos giros do motor e colapso do sistema de óleo. Em junho, um propulsor diferente foi adotado para resolver o problema, e dois dias após o Dia-D, em 8 de junho de 1944, os Tempests se encontraram com a Luftwaffe pela primeira vez, destruindo três caças Messerschmitt Bf 109G sem perder nenhum dos seus.

Em 13 do mesmo mês as primeiras bombas Fieseler Fi 103, as popularmente conhecidas V1, foram lançadas contra a Inglaterra, e o Tempest, sendo o mais rápido caça de média-baixa altitude em serviço na RAF, se tornou a principal defesa britânica contras esses mísseis. No início de setembro, já haviam derrubado 638 dessas armas. Nesse ponto, vale citar uma história interessante. Após haver derrubado uma bomba V1 e ficado sem munição, o Wing Commander Roland Beaumont avistou um segundo míssil, que seguia impune pelos campos ingleses em direção ao seu alvo. Sem projéteis para desferir contra o inimigo, Beaumont teve uma idéia. Com a grande velocidade do Tempest, emparelhou com a V1 e, com cuidado, encostou a ponta de sua asa direita debaixo da asa esquerda do míssil. Em seguida, levantou sua asa e viu a V1, desestabilizada, caindo abaixo. Essa tática se tornou popular entre os pilotos, sendo responsável por várias V1s derrubadas.

O Tempest V foi também enviado ao continente, onde foi utilizado contra trens e como aeronave de ataque ao solo. Enquanto isso, o segundo protótipo, designado Tempest I, se provou suficientemente promissor para que se iniciassem estudos de produção. Com a experiência ganha no Hawker Tornado com motor Bristol Centaurus e a capacidade da fuselagem do Tempest de acolher um motor radial, a versão Centaurus do Tempest foi iniciada como Mk.II, e os desenhos de produção foram feitos em paralelo com o Mk.I. No entanto, o Tempest I foi abandonado enquanto o Mk.II foi autorizado a prosseguir para o estágio de produção devido aos bem-sucedidos testes com o protótipo, iniciados em 28 de junho de 1943. O primeiro Tempest II de produção voou quinze meses depois, mas a primeira unidade a recebê-lo, o Nº 54 Squadron em Chibolton, só foi equipada com o caça em novembro de 1945, sendo muito tarde para participar da guerra.

O Tempest II tinha um motor radial Bristol Centaurus V/VI de 2.500 hp, que permitia uma velocidade de 705 km/h a 4.800 m e alcance de 1.240 km. Desenhos do Tempest utilizando os motores Griffon IIB e Griffon 61, bem como metralhadoras 12,7 mm foram feitos, mas nenhum passou do estágio de projeto. A variante final do Tempest foi o Tempest Mk.VI, que apareceu no final de 1945, com o motor Napier Sabre VA de 2.700 hp.

CONCLUSÃO

O Typhoon e o Tempest escaparam do destino de muitas outras aeronaves após a guerra: se tornarem plataforma de testes para novos experimentos. O Typhoon, por exemplo, foi desenhado numa variante caça naval e outra com turbo, ambas não prosseguindo além dos testes. Já o Tempest testou uma variante com dois canhões de 40 mm, um embaixo de cada asa. Voltando ao tempo da guerra, O Tempest Mk.V voou no continente oferecendo importante auxílio às tropas terrestres, partindo de aeródromos na França e na Bélgica enquanto os alemães recuavam. Nesse teatro, ainda enfrentaram os temidos jatos Messerschmitt Me 262 Sturmvogel, derrubando 20 deles antes da vitória na Europa.

DADOS TÉCNICOS

Tripulação: 1
Comprimento: 10.26 m
Envergadura: 12.49 m
Altura: 4.9 m
Área alar: 28 m²
Peso vazio: 4.195 kg
Peso cheio: 5.176 kg
Peso máximo de decolagem: 6.190 kg
Motor: 1× Napier Sabre IIB H-24 de 2.400 hp (1.625 kW)
Velocidade máxima: 700 km/h a 5.180 metros
Alcance: 2.465 km com tanques alijáveis
Teto operacional: 11.125 m
Armamento: 4× canhões Hispano Mk.II de 20 mm, 2x bombas (227 kg ou 454 kg), 8x foguetes RP-3 de 75 mm

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sábado, 18 de agosto de 2007

Filmes: O Triunfo da Vontade


O Triunfo da Vontade (Triumph des Willens) Alemanha, 1935 - 114 min.

Direção: Leni Riefenstahl
Roteiro: Leni Riefenstahl, Walter Ruttmann
Elenco: Adolf Hitler, Joseph Goebbels, Hermann Göring, Rudolf Hess, Heinrich Himmler

por Júlio César Guedes Antunes



Qualquer um deve saber que, ao parar para assistir O Triunfo da Vontade (Alemanha, 1935), deve-se deixar de lado a óbvia glorificação do nacional-socialismo como ideologia política, e acompanhar a obra como um documento histórico, único em sua escala e temática, que retrata o auge do poder exercido pelo partido nazista sobre o povo alemão. Os crimes mais tarde perpetrados de forma tão vil por essa mesma organização dão um aspecto ainda sombrio ao filme mesmo depois de 70 anos de seu lançamento, e assisti-lo pode ser uma experiência desconfortante para alguns.

A película indubitavelmente tem apelo messiânico. Foi feita com o propósito de comparar Adolf Hitler a um deus que vem em socorro dos alemães, e cumpriu absurdamente bem esse propósito. A seqüência inicial em que Hitler desce dos céus em seu Junkers Ju 52 em meio ao povo que o saúda é prova clara disso. Mesmo essa impressionante seqüência é precedida por letreiros que preparam o espectador para o que virá:

“Em 5 de setembro de 1934... 20 anos após o começo da Grande Guerra... 16 anos após o começo de nosso sofrimento... 19 meses após o começo do renascimento alemão... Adolf Hitler voou novamente a Nuremberg para revistar as colunas de seu fiéis seguidores...”

Hitler escolheu Leni Riefenstahl para dirigir seu épico. A jovem atriz e diretora nunca havia feito um documentário antes, nem conhecia de política, mas havia impressionado com A Luz Azul, filme de 1932 em que ela atuou e dirigiu. O Führer queria mostrar o congresso do partido não pelos olhos de um cineasta com experiência na realização de documentários políticos, mas através da visão de alguém que se importasse com detalhes artísticos, ao invés do puramente funcional. Riefenstahl resistiu à proposta de início, mas Hitler insistiu e em 1933, com apenas alguns dias de preparação, ela realizou A Vitória da Fé. Esse filme, que cobria o congresso nazista em Nuremberg naquele ano, foi um completo fiasco. Goebbels o queria para o Ministério da Propaganda e Hitler não se sentiu confortável nas filmagens. E o pior: um personagem principal na história era Ernst Röhm, líder da SA que conspirara contra Hitler e foi assassinado em junho de 1934. Após a queda de Röhm, (quase) todas as cópias de A Vitória da Fé foram destruídas. No ano seguinte, Hitler novamente pediu a Riefenstahl para realizar a cobertura do congresso, dessa vez com grande orçamento, tempo de preparação e sua garantia pessoal de que nenhum órgão do partido a importunaria. Após muita resistência, ela cedeu.

A equipe de filmagem de O Triunfo da Vontade era considerada gigante pelos padrões da época, totalizando 172 pessoas. Albert Speer cuidou pessoalmente do arranjo do local, bem como da instalação de toda a estrutura de filmagem, como trilhos, trincheiras e até mesmo um elevador para tomadas panorâmicas. O resultado é arrebatador, pois o filme foi pioneiro no uso de câmeras em movimento. A dimensão do estádio é sentida e a grandiosidade do evento fica também evidente.

O congresso começa com uma visão geral do acampamento da Juventude Hitlerista fora da cidade, mostrando a alegria dos “jovens que vieram ver o Führer”. Em seguida há discursos rápidos dos principais figurões nazistas da época, como Joseph Goebbles, Rudolf Hess, Alfred Rosenberg, Hans Frank, Robert Ley, Konstantin Hierl e Julius Streicher. A ação então se transfere para o estádio, onde há uma demonstração paramilitar de “trabalhadores do Reich” carregando pás. Esses são os homens que “construirão a nova Alemanha”, membros do RAD (Reichsarbeitdienst). O dia termina com um desfile noturno com tochas da SA.

O segundo dia se abre com Hitler e Baldur von Schirach recebendo a Juventude Hitlerista no estádio. Hitler exprime um acalorado discurso, usando termos militaristas para dizer-lhes que deviam se preparar para o sacrifício em prol do futuro da Alemanha. Segue-se um breve desfile da cavalaria e alguns carros de combate do exército alemão. Há que se abrir uma nota aqui: a liderança da Wehrmacht protestou após o lançamento do filme, pois somente era retratrada nesse rápido trecho. Todas as organizações restantes na película pertencem a tropas paramilitares e milícias do partido. Realmente, somente se vê em algumas rápidas vezes Werner von Blomberg, Erich Raeder e Gerd von Runstedt, ao passo que líderes do partido são constantemente alvos da câmera. Para consertar isso, Hitler pediu a Riefenstahl para filmar o congresso do ano seguinte com foco na Wehrmacht, originando o curto filme Dia da Liberdade. Voltando à história, o segundo dia do congresso termina com um discurso noturno de Hitler com uma grande águia nazista de metal atrás de si, declarando a união entre estado e partido.

O terceiro e último dia do congresso é onde encontramos as mais épicas cenas desta obra. Ao som de Götterdämerung de Richard Wagner, Hitler, acompanhado de Heinrich Himmler e Viktor Lutze (respectivamente chefes da SS e SA) caminham por um longo corredor, flanqueados por 150.000 homens, e prestam homenagens a um monumento da Primeira Guerra Mundial. Em seguida, a SA e SS desfilam em perfeita organização e sincronia, registradas pelas lentes meticulosas de Riefenstahl. É esse o clímax do filme.

Para terminar o evento no estádio, Hitler e Lutze discursam sobre os recentes eventos envolvendo a SA e reafirmando a lealdade da organização ao partido. Há então um último desfile das tropas do partido e a trama segue para a grandiosa última cena, onde Hitler dá seu discurso final, reafirmando que “Todo alemão leal se tornará nacional-socialista. Somente os melhores nacional-socialistas serão camaradas do partido.”

Alguns aspectos das personalidades ficam patentes no transcorrer da história. Vê-se que Hess é talvez o mais fanático seguidor de Hitler, pela entonação que usa em seus discursos; Lutze se mostra apreensivo com as recentes reviravoltas envolvendo a SA; Göring evidencia sua prudência para com Hitler e tudo aquilo que acontece – pode-se dizer que parece que ele está com um pé atrás (Hitler se sentia da mesma forma com ele). O próprio Führer mostra-se muito satisfeito e no ápice de sua maestria na oratória.

O filme estreou em 28 de março de 1935 e se tornou um sucesso instantâneo, sendo premiado com o Deustche Filmpreis e a medalha de ouro e no Festival de Veneza em 1935, além do Grand Prix na Exibição Mundial de Paris em 1937. Leni Riefenstahl é, apesar das controvérsias, considerada uma das maiores cineastas do século XX; ela ainda produziria outro épico para o governo nazista, Olympia. Mas é O Triunfo da Vontade que sempre será lembrado como uma obra-prima da arte propagandística e prova cabal de que arte e política sempre andam se mãos dadas.

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quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Erich Raeder


Erich Raeder
Grossadmiral
(1876 - 1960)

Erich Johann Albert Raeder nasceu em 24 de abril de 1876 em Wandsbeck, um dos sete distritos de Hamburgo, sendo filho de um diretor de escola. Quando terminou seus estudos, ele juntou-se à Kaiserliche Marine (Marinha Imperial) em 1894. Promovido a Leutnant em 1897, ele em seguida cursou a Marineakademie em Kiel, e em 1906 foi designado para o Escritório de Sinalização do Departamento da Marinha. De 1910 a 1912 Raeder serviu como oficial de navegação a bordo do Hohenzollern, o iate do Kaiser. Sua ascensão na carreira naval foi relativamente rápida, e em 1912 ele foi apontado chefe de estado-maior do Admiral Franz von Hipper. Raeder serviu em postos de combate na Batalha de Dogger Bank em 1915 e Batalha de Jutlândia em 1916, além de ser oficial de estado-maior até 1917, quando recebeu o comando do cruzador leve Köln.

Após a Primeira Guerra Mundial Raeder permaneceu na Marinha, sendo promovido de Kapitän zur See para Konteradmiral em 1922, tornando-se também Inspetor de Treinamento Naval. Em 1924 ele recebeu o comando das forças navais leves no Mar do Norte, e em 1925 foi designado Comandante Naval do Báltico, com a patente de Vizeadmiral. Finalmente, em 1928, Raeder foi escolhido para o comando da Reichsmarine no posto de Chef der Marineleitung e promovido a Admiral. Apoiando os planos de Hitler para o rearmamento alemão, Raeder foi responsável pelo programa de construção que resultou nos “couraçados de bolso” (cruzadores super-pesados) Deutschland, Admiral Graf Spee e Admiral Scheer. Quando a nova Kriegsmarine foi formada em 1935, Raeder foi designado Oberbefehlshaber der Marine (Comandante-em-Chefe da Marinha). Embora ele firmemente apoiasse a expansão da Marinha, Raeder advertiu Hitler a não procurar desafiar o poder naval superior da Grã-Bretanha nesse precoce estágio.

Em 20 de abril de 1936, poucos dias antes de completar 60 anos, Raeder foi promovido a Generaladmiral. Em sua constante luta pela reconstrução da Marinha, ele estava em constante conflito com Hermann Göring, que queria absoluta prioridade para sua força aérea. Raeder era um oficial com forte inspiração Imperial; sempre usava a tradicional gola de asa dobrada por baixo da camisa, e tinha real repulsa pelos nazistas. Embora não fosse membro do partido, foi agraciado com o título de “membro-honorário” do mesmo. Em 1 de abril de 1939, Raeder foi promovido à mais alta patente da Marinha: Grossadmiral. Ele foi o primeiro oficial a receber essa promoção desde Alfred von Tirpitz em 1911.

Na irrupção da guerra, o recém-promovido Grossadmiral Raeder aconselhou Hitler a não buscar guerra em mais de um front, e urgiu para que a Marinha fosse empregada contra a Inglaterra antes de ser usada em qualquer outro lugar. Em 30 de setembro de 1939 ele foi condecorado com a Cruz do Cavaleiro. Foi Raeder que desenhou os planos para a Operação Weserübung, a invasão da Dinamarca e Noruega na primavera de 1940. Ele somente consideraria a Operação Seelöwe (Invasão da Inglaterra), se a Luftwafe de Göring conseguisse neutralizar a RAF, e quando a força aérea falhou em criar tais condições ele foi rígido em sua oposição ao plano.

Raeder era também um inabalável opositor do ataque à União Soviética, advogando que o foco estratégico da Alemanha deveria ser no Mediterrâneo, com forte presença no Norte da África, além da captura de Malta e do Oriente Médio. Somente assim, pensava ele, os alemães derrotariam os ingleses. Raeder gradualmente perdeu sua fé em Hitler devido às constantes interferências do Führer nos assuntos militares e sua preferência pela expansão da arma submarina em detrimento da frota de superfície. Em seguida à Batalha do Mar de Barents em dezembro de 1942, quando o couraçado de bolso Lützow (ex-Deutschland) e o cruzador pesado Admiral Hipper tentaram interceptar um comboio britânico e foram repelidos por forças de escolta relativamente fracas, Hitler teve um surto de fúria e ameaçou sucatear todas as unidades de superfície da Kriegsmarine e usar suas armas pesadas como baterias costeiras. Raeder imediatamente ofereceu sua demissão e recomendou Karl Dönitz como seu sucessor. Sendo assim, Dönitz assumiu seu posto em 30 de janeiro de 1943, e Raeder foi feito Inspetor da Marinha. Como Hitler ordenou o sucateamento da frota de superfície em seguida, Raeder demonstrou seu protesto aposentando-se em maio daquele ano.

Com o fim da guerra, Raeder foi capturado pelos soviéticos e enviado a Moscou em 23 de junho de 1945. Julgado e considerado culpado no Tribunal de Nuremberg em 1946 nas acusações de promover guerra agressiva e cometer crimes de guerra, acabou sendo sentenciado à prisão perpétua na penitenciária de Spandau. Essa sentença recebeu muitas críticas internacionais e ele acabou sendo libertado em 26 de setembro de 1955, também devido a problemas de saúde. O velho Almirante publicou suas memórias, Mein Leben, no ano seguinte. Erich Raeder faleceu em Kiel, na costa do Báltico, em 6 de novembro de 1960, aos 84 anos.

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terça-feira, 14 de agosto de 2007

Parada da Vitória Soviética 1945 - Em Cores


Um impressionante registro colorido da Parada da Vitória na Praça Vermelha de Moscou, em 24 de junho de 1945. Em frente ao Kremlin estão perfilados os soldados que venceram a Alemanha Nazista de Stalingrado à Berlim. Sobre o Mausoléu de Lenin, estão Molotov, Stalin, Rokossovsky e Kalinin.

O Marechal Zhukov passa em revista às tropas em um cavalo branco. Stalin deveria fazê-lo, mas o cavalo o derrubara na véspera. 200 estandartes nazistas capturados são exibidos e jogados no chão, numa definitiva demonstração de vitória sobre o fascismo:

Parte 1:


Parte 2:


Parte 3:


Parte 4:

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domingo, 12 de agosto de 2007

Filmes: Tora! Tora! Tora!


Tora! Tora! Tora! (Tora! Tora! Tora!)
EUA/Japão, 1970 - 144 min.

Direção: Richard Fleischer, Kinji Fukasaku
Roteiro: Ladislas Farago, Larry Forrester
Elenco: Martin Balsam, Sô Yamamura, Jason Robards, James Whitmore, E. G. Marshall, Takahiro Tamura, Tatsuya Mihashi, Eijirô Tono

por Júlio César Guedes Antunes


O que realmente foi o ataque a Pearl Harbor? A nação norte-americana, com todo seu aparato militar e tecnológico, foi completamente surpreendida pelo inimigo em seu ponto mais vulnerável? Essa é com certeza uma das questões de primeira grandeza do século XX e certamente não merece ser tratada com a frivolidade da produção de 2001 Pearl Harbor, do diretor Michael Bay. Conhecido por seus filmes com cara de propaganda de cartão de crédito, Bay inseriu um romance-pastelão horroroso na história para deixá-la, digamos, mais “digestível” para o público atual.

Mas quem não ficou satisfeito com esse dramalhão-fiasco pode procurar refúgio em Tora! Tora! Tora! (EUA/Japão, 1970), que com certeza não ficará decepcionado. O filme é, na melhor das definições, um retrato do ataque e dos eventos que o desencadearam. É claro que os adeptos das teorias da conspiração podem não concordar, pois não vemos o presidente Roosevelt ou qualquer militar do alto-escalão americano esconder informações para forçar a entrada do país na guerra. Simplesmente é mostrada a versão oficial, imparcial, dos acontecimentos.

Por ser uma produção conjunta dos dois países, na história não temos heróis e vilões, nem covardes ou heróis: temos personagens históricos que agiram de certa forma sob tais condições. O tom aqui é quase documental, inclusive com legendas explicativas apresentando os personagens mais importantes. A fidelidade histórica foi levada ao extremo, e o resultado agrada muito aos iniciados no assunto.

Duas equipes de produção foram montadas: uma americana e uma japonesa. Inicialmente, o lendário diretor Akira Kurosawa dirigiria a parte japonesa, pois ouvira dizer que David Lean dirigiria a parte americana. Ao descobrir que Lean não estava envolvido com a produção, Kurosawa desanimou-se, gastando tempo e dinheiro e apresentando pouquíssimo resultado. Como conseqüência, foi demitido, e na montagem final é apresentado menos de um minuto do que ele filmou. Em seu lugar foi contratado Kinji Fukasaku, que assumiu competentemente a batuta. Do lado dos EUA, Richard Fleischer estava por trás das câmeras, filmando em locações no Havaí e Washington DC.

A história começa com a troca de comando na Marinha Imperial japonesa. O Almirante Isoroku Yamamoto (Sô Yamamura) recebe o comando da frota, e tem a missão de planejar um golpe devastador contra a Marinha americana do Pacífico. Yamamoto traz para sua equipe o brilhante Comandante Minoru Genda (Tatsuya Mihashi), que formula o ataque-surpresa com torpedos e bombardeiros. O nível das atuações é alto e em nenhum momento vemos traços de homens fanáticos e pouco inteligentes, como o “inimigo” costuma ser tratado usualmente por Hollywood. O destaque do elenco japonês é claramente Takahiro Tamura, que interpreta o Tenente-Comandante Mitsuo Fuchida. Fuchida é um homem de ação e um líder de homens nato. O carisma que Tamura empresta ao personagem que lidera o ataque ao porto americano, é mais um fator que leva o espectador a não tomar lados e não criar uma “torcida”, apenas assiste-se ao desenrolar da trama, que é muito bem costurada.

No Havaí, a história começa com a chegada do Almirante Husband Kimmel (Martin Balsam) a Pearl Harbor, já mostrando sua preocupação com um possível ataque. O mesmo temor acomete o General Walter Short (Jason Robards), que inclusive ordena a aglomeração das aeronaves para dificultar uma possível ação de sabotagem (inadvertidamente facilitando o trabalho de um ataque aéreo). A partir desses perfis, pode-se dizer que Tora! Tora! Tora! está mesmo à frente de seu tempo, pois esses dois oficiais, demitidos como bodes-expiatórios pelo ataque-surpresa, só foram reabilitados pelo governo americano na década de 90. As dificuldades de comunicação entre as novas estações de radar (que ninguém compreendia completamente como funcionavam) e o comando central havaiano, e deste com Washington, estão patentes no roteiro. Em certo momento, um soldado em vigia numa remota estação de radar pergunta ao seu superior: “E o que devemos fazer se detectarmos algo? Não temos comunicação.” “Desça pela estrada até o posto de gasolina, eles devem ter um telefone lá.”, é a resposta. Exageros à parte, a situação era bem semelhante na realidade.

Os americanos possuem uma máquina capaz de decodificar as comunicações cifradas de Tóquio com a embaixada japonesa em Washington, e ler seu conteúdo mais rápido que o próprio embaixador. O sistema é muito bem retratado no filme, enquanto é apresentado ao Coronel Rufus Bratton (E. G. Marshall), oficial recém-designado para esse serviço. É muito interessante ver o organograma de pessoas com autorização para ler as comunicações, e vemos que muitos oficiais de alta patente ficaram de fora.

Às vésperas do fatídico dia 7 de dezembro, os japoneses enviam uma mensagem em 14 partes, que deveria ser lida pelo embaixador Nomura (Shogo Shimada) e entregue ao Secretário de Guerra dos EUA Henry Stimson (Joseph Cotten) contendo um ultimato exatamente 50 minutos antes do ataque. Mas pela lentidão do datilógrafo da embaixada japonesa, a mensagem só é decifrada tarde demais. Os americanos, pelo contrário, a decifram imediatamente, e tentam passar o aviso de ataque ao Havaí, mas são detidos pelas más condições atmosféricas no oceano. O espectador percebe que uma série de infortúnios impediu o alerta ao Havaí e permitiu a completa surpresa do ataque. O filme, com seus 144 minutos, dedica quase a integridade seus dois terços iniciais ao desenvolvimento da trama, o que pode ser considerado tempo demais por alguns. Mas pode-se garantir que a espera pelo ataque vale cada segundo.

A decolagem das aeronaves japonesas é uma das cenas mais belas de qualquer filme de ação, com o fumo azulado dos motores brilhando contra a aurora. Os (muitos) caças japoneses em cena são modificações (bastante fiéis) de Texans T-6 e Valiants BT-13. O próprio porta-aviões Akagi é o USS Yorktown (CVS 10) mascarado para parecer o antigo antagonista nipônico. O filme também aborda uma parte do ataque esquecida pelo Pearl Harbor de Bay: o ataque dos mini-submarinos japoneses. Um deles é mostrado tentando entrar no porto, e é atacado pelo destróier USS Ward. A cena do ataque foi baseada em relatos dos tripulantes do Ward, que clamavam ter atingido o mini-submarino em sua torre com um tiro de canhão. A descoberta recente dos destroços desse mini-submarino confirmou os relatos e o local exato do impacto. Uma curiosidade é que também aqui é mostrado o personagem Doris Miller (Elven Havard), interpretado em Pearl Harbor por Cuba Gooding Jr., fazendo a mesma cena em que assume a metralhadora antiaérea.

Dizem que uma boa cena de ataque se faz pela escala da catástrofe; por esse lado, Tora! Tora! Tora! tem fome de destruição. Dezenas de réplicas de caças Curtiss P-40 foram construídas somente para serem explodidas, e de forma bastante convincente. Numa seqüência impressionante, um dos caças tenta decolar em meio ao ataque, é alvejado durante a corrida, perde o cubo da hélice, desestabiliza-se e choca-se contra uma fileira de caças estacionados. É simplesmente estonteante! Pouco importa que essa mesma cena de destruição seja repetida por outro ângulo alguns minutos depois, é simplesmente espetacular! Algumas cenas não planejadas também deixaram o filme muito rico no quesito realismo: alguns B-17 são mostrados chegando ao arquipélago, bem em meio ao ataque, e um deles é atingido, travando a roda direita do trem de pouso. O que se segue é uma cena impressionante do pouso de uma Fortaleza Voadora sem uma das rodas! Na verdade, essa cena foi gravada durante um acidente nas filmagens, pois de forma alguma poderia ser feita propositalmente. Como ninguém ficou ferido e a aeronave foi restaurada, o acidente somente incrementou o nível da película. As cenas de combate aéreo também são dignas de nota, comparáveis em beleza às de A Batalha da Inglaterra.

Os últimos momentos do filme mostram Fuchida enfurecido com a recusa do Almirante Nagumo (Eijirô Tono) em continuar o ataque e destruir os depósitos de combustível e as docas secas. Em Washington, Stimson recebe a tardia declaração de guerra de um envergonhado Nagumo, e no Japão, Yamamoto se mostra preocupado com o que acabara de acontecer. “Temo que apenas tenhamos acordado um gigante adormecido, e o alimentado com uma vontade terrível.” declara ele.

Tora! Tora! Tora! ganhou o Oscar de Melhores Efeitos Visuais em 1970, e foi nomeado para quatro outras categorias. É definitivamente uma obra indispensável na videoteca de qualquer entusiasta da Segunda Guerra Mundial.

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quinta-feira, 9 de agosto de 2007

O samurai solitário que bombardeou a América


O samurai solitário que bombardeou a América

Entre as aventuras mais extravagantes da Segunda Guerra Mundial está a do aviador japonês Nobuo Fujita, que, decolando de um submarino, tentou incendiar com bombas as florestas do Oregon, no único ataque aéreo que o território continental dos EUA sofreu até o 11 de setembro de 2001. Os resultados não foram espetaculares.

Naquela manhã de 9 de setembro de 1942, quando o sargento-especialista e aviador da marinha imperial japonesa Nobuo Fujita, de 31 anos, subiu para a cabine de seu avião, com certa dificuldade pois usava a espada de samurai, estava muito consciente de que ia fazer história. Fujita estava prestes a decolar para bombardear pela primeira vez de um avião o território continental dos EUA. Concretamente, as florestas do Oregon.

O ataque aéreo de Fujita - na verdade dois, pois ele o repetiu dois dias mais tarde - é o único desse tipo realizado contra os EUA (descartando o cometido contra Pearl Harbor, na ilha Oahu, Havaí) até que os terroristas do 11 de Setembro lançaram os aviões contra as Torres Gêmeas e o Pentágono. O de Fujita, Faeton [filho do sol na mitologia grega] de olhos rasgados, foi uma agressão muito menos fatal - na verdade ninguém morreu ou ficou ferido -, mas audaciosa, e somos tentados a qualificá-la de romântica. Foi também um fracasso: o objetivo era provocar grandes incêndios florestais com suas bombas, mas havia chovido e as florestas estavam úmidas.

Foi uma operação arriscada: fazer um avião decolar do convés de um submarino depois de ter navegado desde o Japão até a costa oeste dos EUA e sobrevoar sozinho 80 km de território inimigo até os grandes bosques do Parque Nacional do Monte Emily. Seria uma resposta ao ousado bombardeio de Tóquio pelos B-25 de Jimmy Doolittle em abril. O plano, baseado no uso agressivo da aviação embarcada em submarinos (os japoneses eram os únicos que tinham essa inovação: ao todo, 41 de seus submarinos portavam hidroaviões desmontados e guardados num hangar para esse fim), tinha sido idealizado pelo próprio Fujita em seu tempo livre, mas o projeto original era atacar o Canal do Panamá.

O aviador veterano ficou admirado quando, em julho de 1942, foi convocado pelo quartel-general da marinha para uma reunião secreta em torno de seu plano, da qual participou ninguém menos que o príncipe Takamatsu, o irmão menor do Grou Sagrado, o imperador Hirohito (veja o livro de referência da aventura, "The Fujita Plan", de Mark Felton, ed. Pen & Sword, 2006). "Fujita, vamos enviá-lo para bombardear o continente americano", lhe disseram. Ao que o piloto respondeu dobrando-se pela cintura com um lacônico e marcial "Hai!".

Nascido em 1911, Nobuo Fujita, pequeno e robusto, alistou-se na marinha imperial em 1932 e, apaixonado pelos aeroplanos e a mística do vôo como muitos outros jovens da época, conseguiu se tornar aviador da marinha, um destino muito exclusivo, uma pequena irmandade de pilotos de elite que por algum tempo reinou nos céus da Ásia. Fujita foi piloto de testes, e parece que excelente, e depois o enviaram não para porta-aviões mas para submarinos - um destino extravagante para um aviador em qualquer outra marinha.

Embarcado no I-25 durante a Segunda Guerra Mundial, viveu inúmeras aventuras, realizando ousados vôos de reconhecimento a partir do submersível com seu aparelho, em puro estilo "vol de nuit", orientando-se pelas luzes dos faróis costeiros (voou inclusive sobre os portos de Sydney, Melbourne e Auckland, na Austrália). Seu aeroplano era o pequeno hidroavião Yokosuka E14Y (denominado Glenn pelos aliados), que era lançado de uma rampa no convés e que os operários montavam em uma hora. Sua velocidade de cruzeiro era de 135 quilômetros por hora, tinha autonomia de cinco horas e como única defesa uma metralhadora de 7,7 mm.

Naquele 9 de setembro na costa dos EUA, depois de colocar os óculos típicos dos pilotos japoneses, em forma de olhos de gato, decolar com o bom augúrio do sol nascente que se espelhava em suas asas e escutar os "banzai!" habituais da tripulação do I-25, Fujita e seu observador, Shoji Okuda (que morreria durante a guerra), voaram entre a neblina e lançaram sobre uma floresta densa a primeira das seis bombas de 76 quilos, que ao detonar espalhavam 520 bolinhas incendiárias em uma área de 90 metros quadrados. Viram o brilho da explosão e as chamas.

Moradores do povoado de Brookings e guardas florestais acompanharam com preocupação as evoluções do pequeno avião japonês e foi dado o alarme, inclusive para o FBI. Os incêndios se extinguiram por si sós. Fujita atacou novamente no dia 29, dessa vez à noite, com o mesmo resultado. Voltando ao submarino, saíram convencidos de que tiveram sucesso.

A parte bonita da história de Fujita vem depois da guerra (na qual continuou voando de submarinos até que em 1944 foi transferido para o adestramento de camicases, um destino sem muito futuro). Em 1962 o velho piloto transformado em comerciante de metais recebeu um convite para viajar a Brookings. Temendo que fosse para ser julgado por crimes de guerra, levou sua espada, caso fosse preciso cometer o haraquiri. Com grande surpresa de sua parte, foi recebido com simpatia. Tanta que decidiu presentear ao povoado o sabre de sua família - o que levou em seus vôos -, que está exposto na prefeitura da localidade.

Fujita voltou várias vezes à cidade, da qual foi nomeado cidadão honorário, e inclusive voltou a voar sobre os locais de seu ataque e plantou uma árvore - um broto de sequóia - no lugar exato onde caiu uma de suas bombas. Em 1997, quando Fujita morreu de câncer no pulmão, sua filha Yoriko enterrou parte de suas cinzas entre as florestas que o aviador samurai um dia tentou incendiar.

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quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Paul Hausser


Paul Hausser
SS-Oberstgruppenführer
(1880 - 1972)

Paul Hausser nasceu em Brandenburg em 7 de outubro de 1880. Sua longa carreira militar começou na idade de 12 anos, quando ele se tornou um cadete numa escola de preparação militar. Ele foi comissionado como Leutnant em 1899 e designado para um regimento de infantaria. Casou-se em 1912 com Elisabeth Gérard e teve uma filha. Quando irrompeu a guerra em 1914 ele era um Hauptmann junto ao Estado-Maior Geral, e serviu nos estados-maiores de vários comandos durante toda a Primeira Guerra Mundial, sendo promovido a Major em março de 1918.

Hausser permaneceu no Reichswehr da República de Weimar e continuou a progredir pelas patentes, servindo em diversos postos como comandante de batalhão e regimento, e comandante da Escola de Tropas de Münsingen, sendo promovido a Oberst em 1927. Em fevereiro de 1931 ele foi elevado ao grau de Generalmajor, e um ano depois a Generalleutnant, época na qual ele se aposentou do Reichswehr.

Hausser juntou-se à SS em 1934, mas, interessante notar, não se tornou membro do Partido Nazista por outros três anos. Fazendo o melhor uso de sua imensa experiência como bem-sucedido oficial-sênior, Heinrich Himmler o designou comandante da SS-Junkerschule (a academia de treinamento de oficiais) em Brunswick. Dois anos depois Hausser foi feito Inspetor das escolas de treinamento da SS, sendo talvez a mais importante contribuição de um oficial para moldar a futura Waffen-SS como uma força militar séria. Em maio de 1936 ele foi promovido a SS-Brigadeführer, e em outubro daquele ano foi designado Inspetor da SS-Verfügungstruppe (SS-VT), que seria a precursora da Waffen-SS. Por verem nele uma figura confiante e paternal, os soldados deram-no o apelido carinhoso de “Papa Hausser”.

Durante a invasão da Polônia, Hausser serviu como oficial de ligação da SS com o exército na Divisão Panzer “Kempf”, e em outubro de 1939 recebeu o comando da Divisão SS-Verfügungs, que mais tarde evoluiria para se tornar a 2ª Divisão SS-Panzer “Das Reich”. Hausser comandou a divisão por toda a campanha balcânica e nos primeiros estágios da invasão da União Soviética em 1941, sendo condecorado com a Cruz do Cavaleiro da Cruz de Ferro em 8 de agosto, devido aos seus sucessos no comando. Em 1 de outubro daquele ano Hausser foi promovido a SS-Obergruppenführer und General der Waffen-SS, mas naquele mesmo mês foi seriamente ferido em ação, perdendo a visão do olho direito.

Em seu retorno ao serviço ativo em maio de 1942 ele passou a usar um tapa-olho que se tornaria sua marca registrada. “Papa” Hausser, de 61 anos, foi então designado para uma posição no estado-maior até setembro, quando recebeu o comando do II SS-Panzerkorps. Em 28 de julho de 1943, Hausser recebeu as Folhas de Carvalho para a Cruz do Cavaleiro por seu comando do corpo blindado, especialmente na recaptura de Kharkov em março – uma operação que envolveu uma desobediência calculada das ordens de Hitler.

Em agosto de 1944 Hausser foi promovido, juntamente com Sepp Dietrich, a SS-Oberstgruppenführer und Generaloberst der Waffen-SS, o mais alto posto da ordem, somente abaixo do próprio SS-Reichsführer. Ele foi designado então comandante do 7º Exército no Front Oeste, e viu muita ação por toda a luta na Normandia, onde ele mais uma vez foi seriamente ferido na cabeça durante a fuga do Bolsão de Falaise. Ele recebeu as Espadas para sua Cruz do Cavaleiro em 26 de agosto de 1944.

Após recuperar-se e voltar ao front em janeiro de 1945, ele foi designado comandante do Grupo de Exércitos Norte do Reno, segurando sua posição até abril de 1945. Durante os últimos dias da guerra ele foi designado para o estado-maior do Generalfeldmarschall Albert Kesselring, que era Comandante-em-Chefe do Sudoeste. Hausser se rendeu aos americanos na Áustria no fim da guerra em 9 de maio. Foi testemunha de defesa nos julgamentos de Nuremberg e finalmente libertado da prisão em 1948.

Paul Hausser era imensamente respeitado por seus homens, bem como por seus antigos inimigos. Suas qualidades como soldados eram inegáveis, e nenhuma acusação de crime de guerra jamais foi feita contra ele. Após a guerra Hausser foi membro-sênior da HIAG, a organização de veteranos da Waffen-SS, e publicou dois livros, sendo eles Waffen-SS im Einsatz (“Waffen-SS em ação”), em 1953, e Soldaten wie andere auch (“Soldados como quaisquer outros”), em 1966, além de diversos outros artigos, todos fontes de referência em várias academias militares. Paul “Papa” Hausser faleceu em Ludwigsburg, no sul da Alemanha, em 21 de dezembro de 1972, na longeva idade de 92 anos.

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