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quinta-feira, 28 de junho de 2007

Nota de Falecimento: Charles W. Lindberg


Charles W. Lindberg
(26/06/1920 - 24/06/2007)

Faleceu no último dia 24 de junho em Minneapolis (EUA), de causas naturais aos 86 anos, o último sobrevivente do primeiro hasteamento da bandeira americana na ilha de Iwo Jima, o fuzileiro naval Charles W. Lindberg.

Na manhã de 23 de fevereiro de 1945, Lindberg, então Cabo do USMC, atacou com seu lança-chamas posições fortificadas japonesas na base do Monte Suribachi, destruindo a resistência inimiga e encontrando um grande mastro de bandeira. Ele e seus colegas de patrulha então prenderam nele uma pequena bandeira americana e subiram ao local mais alto que conseguiram, fincando o mastro no solo. Este evento foi fotografado pelo Sargento Lou Lowery, da revista Leatherneck, e mostra Lindberg em pé ao lado da bandeira. Após este primeiro hasteamento, Lindberg voltou ao combate, e outra patrulha americana subiu ao topo do monte com uma bandeira maior, hasteando-a e sendo fotografada por Joe Rosenthal, que ganhou o Pulitzer pela famosa foto.

Ferido no braço esquerdo e condecorado com a Silver Star por bravura, Lindberg passou as últimas décadas contando sua história e afirmando seu pioneirismo. Sua história tem sido reconhecida como verdadeira, apesar da foto de Rosenthal continuar sendo o símbolo da vitória em Iwo Jima. Charles W. Lindberg deixa viúva e cinco filhos.

Foto do primeiro hasteamento em Iwo Jima, com Lindberg em pé à direita.

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Mera coincidência?


Dois Marechais, dois Chefes de Estado-Maior, de dois países em guerra. O fato de estarem em lados diferentes do front e nos mesmos cargos, tendo a mesma patente, faz da semelhança física entre Alan Brooke e Ugo Cavallero ser algo bastante interessante de se observar:


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quarta-feira, 27 de junho de 2007

Hugo Sperrle


Hugo Sperrle
Generalfeldmarschall
(1885 - 1953)

Hugo Sperrle nasceu em Ludwigsburg, perto de Stuttgart, em 7 de fevereiro de 1885, filho de um cervejeiro. Sua carreira militar teve início em junho de 1903, quando ele se juntou ao Exército Imperial como aspirante a oficial do 126º Regimento de Infantaria (8.württembergische) “Grossherzog Friedrich von Baden”, sendo designado Leutnant em outubro. Após cursar a Academia de Guerra em 1914 ele foi promovido a Oberleutnant. Com o começo da guerra, Sperrle foi transferido para o Serviço Aéreo do Exército, onde ele voou como observador junto ao Feldflieger Abteilung 4. Nos últimos meses da Primeira Guerra Mundial ele tinha se tornando “Kommandeur der Flieger” do 7º Exército.

Após a guerra Sperrle, como muitos outros dedicados soldados, combateu à ameaça revolucionária comunista na Alemanha juntando-se aos famosos Freikorps. Ele serviu brevemente como Fliegerkommandeur do Freikorps Lüttwitz, antes de juntar-se ao novo Reichswehr. Como na Alemanha a existência de uma força aérea já não era mais permitida, Sperrle encontrou-se no comando de um destacamento de transporte do exército. Em 1920 ele foi designado para o estado-maior do Wehrkreiskommando 5 (5º Distrito Militar), e em 1924 foi transferido para o comando de Berlim. No ano seguinte Sperrle foi enviado para o Ministério das Forças Armadas, junto ao departamento encarregado da pesquisa teórica dos problemas da guerra aérea, e neste cargo ele foi promovido a Major em 1926.

Em 1929 Sperrle foi apontado comandante de batalhão junto ao 14º Regimento de Infantaria, e a promoção para Oberstleutnant ocorreu em 1931, junto com a designação para o comando do 8º Regimento de Infantaria. A promoção a Oberst seguiu-se em 1933.

Com a designação de Hermann Göring para Ministro da Aviação, Sperrle se viu convocado para compor o novo Ministério do Ar, e em 1935 foi promovido a Generalmajor. No ano seguinte explodiu a guerra civil na Espanha. Já que a grande maioria dos voluntários alemães que serviram na Legião Condor (unidade voluntária alemã que combateu junto aos Nacionalistas de Francisco Franco) eram aviadores, o comando era sempre exercido por oficiais da Luftwaffe. Sendo assim, Sperrle foi seu primeiro comandante, de novembro de 1936 a outubro de 1937. O sucesso de seu comando na Espanha rendeu-lhe as graças de Göring e subsequentemente a condecoração com a Cruz Espanhola em Ouro com Diamantes. Ele foi promovido a Generalleutnant em outubro de 1937 e a General der Flieger apenas um mês depois.

Hugo Sperrle tinha feições ferozes, com constituição maciça e pescoço largo, o que juntamente com o inseparável monóculo, faziam dele a perfeita imagem de um general prussiano. Sperrle, junto com Walther von Reichenau, era chamado por Hitler de “um dos meus dois generais de aparência mais brutal”. O Führer fez questão de que Sperrle estivesse presente em Berchtesgarden para a recepção da delegação austríaca que negociaria a aceitação da anexação do país, em 12 de fevereiro de 1938.

No começo da Segunda Guerra Mundial, Sperrle estava no comando do Luftlotte 3. Esta unidade
não foi engajada na Polônia, permanecendo na reserva oeste, guardando as defesas do sul da Alemanha contra a França. Quando as aeronaves de Sperrle foram jogadas em ação em apoio ao Grupo de Exércitos A de Gerd von Rundstedt na blitzkrieg da primavera de 1940, sua força tática – especialmente os bombardeiros de mergulho Stuka – desempenharam um papel significativo para a vitória alemã. Ele foi condecorado com a Cruz do Cavaleiro em 17 de maio e promovido a Generalfeldmarschall em 19 de julho. Sperrle manteve o comando do Luftlotte 3 durante a batalha da Inglaterra, mas em setembro estava em acalorado desacordo com o otimista Generalfeldmarschall Albert Kesselring. Para Sperrle, Kesselring (assim como seu comandante-em-chefe Göring) havia subestimado a capacidade de caça da RAF. Na verdade, Sperrle superestimara os números ingleses, mas teve a sensata atitude de urgir a continuação dos ataques aos aeródromos em detrimento dos ataques aos centros urbanos.

Para a invasão da União Soviética em junho de 1941, a grande maioria do poder aéreo alemão foi movido para o leste, mas Sperrle permaneceu na França como comandante aéreo do teatro de operações. Ele permaneceu em seu quartel-general em Paris pelos próximos três anos, supervisionando a série de reduzidas ofensivas sobre o Canal da Mancha e patrulhas defensivas sobre o norte da França. Sperrle ficava cada vez mais atado pela escassez de aeronaves e tripulações treinadas e, embora inicialmente tenha sido um simpatizante do nazismo, tinha crescente desilusão com a incompetência de Göring e Hitler. Segundo Dr. Hans Speidel, chefe de estado-maior de Rommel, Sperrle falava com afiado sarcasmo da desastrosa conduta da guerra em 1943-44. No dia do desembarque aliado na Normandia, 6 de junho de 1944, ele tinha somente 319 aeronaves operacionais para enfrentar a armada aérea Aliada de quase 9 mil aeronaves. Apesar das óbvias impossibilidades de sucesso nessa tarefa, a falha da Luftwaffe em conter o inimigo na Batalha da Normandia levou à sua demissão do comando em 18 de agosto de 1944, e ele foi posto na reserva do Führer. Sperrle compartilhava da crença de Rommel de que deveria ser buscada uma paz em separado com o Ocidente.

Após a rendição alemã, Sperrle foi capturado pelos Aliados na Bavária em 8 de maio, e julgado por crimes de guerra no “Julgamento do Alto Comando” em Nuremberg. No entanto, testemunhos de comandantes Aliados atestando que ele tinha conduzido suas campanhas com justiça e honradez, resultaram na sua absolvição em todas as acusações em 27 de outubro de 1948. Hugo Sperrle retirou-se então para a aposentadoria, onde viveu quietamente até falecer durante um procedimento cirúrgico em Munique, no dia 2 de abril de 1953, aos 68 anos.

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terça-feira, 26 de junho de 2007

Nota de Falecimento: Ugo Drago


Ugo Drago
(03/03/1915 - 22/04/2007)

Faleceu no último dia 22 de abril em Roma, de causas naturais aos 92 anos, o ás italiano Ugo Drago. Infelizmente, a morte de Drago não foi noticiada pela imprensa e, num ato de certa insensibilidade, passou despercebida também pela Força Aérea. Somente agora tive confirmação da data exata de falecimento do Comandante Drago.

Ugo Drago começou sua carreira na Regia Aeronautica pilotando o CR.42 durante a Campanha da Grécia, e dois anos depois fez a conversão para o Messerschmitt Me 109, que a Itália comprara dos alemães para repor as perdas de sua indústria aeronáutica. Depois da assinatura do armistício em 8 de setembro de 1943, Drago alistou-se para servir com a ANR, sendo designado comandante da 4ª Squadriglia "Gigi Tre Osei" do 2º Gruppo Caccia, inicialmente pilotando o Fiat G.55 e mais tarde voltando ao Me 109.

Após a guerra, Drago foi para a Argentina trabalhar como instrutor de vôo. Voltou à pátria em 1953 para trabalhar como piloto comercial na Alitalia, onde permaneceu por 20 anos até sua aposentadoria em 1973, tendo sido Comandante de Boeing 747. Há alguns anos, o artista Ernie Boyette convidou Drago a autografar uma bem-sucedida série de profiles de seu Me 109 do 150º Gruppo Autonomo. Residindo em Roma até seu falecimento, o Cmd. Ugo Drago era o maior ás italiano ainda vivo, com 17 vitórias.


Ugo Drago e Ernie Boyette, com o profile do Messerschmitt.
NOTA: meus agradecimentos ao amigo Håkan Gustavsson pelas informações.

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sábado, 23 de junho de 2007

Filmes: Yamato


YAMATO (Otoko-tachi no Yamato)
Japão, 2005 - 145 min.

Direção: Junya Sato
Roteiro: Jun Henmi, Junya Sato
Elenco: Takashi Sorimachi, Shido Nakamura, Yû Aoi, Sosuke Ikematsu, Tatsuya Nakadai, Kyoka Suzuki, Jundai Yamada.

Por Júlio César G. Antunes


Finalmente tive a oportunidade de assistir Otoko-tachi no Yamato (Japão, 2005), no ocidente conhecido simplesmente por “Yamato”. É uma pena realmente que obras cinematográficas como essa passem longe do cinema e do mercado brasileiro, que muito teria a ganhar examinando mais a cada vez melhor indústria internacional de cinema, ao invés de focar-se tanto na norte-americana.

Yamato é um filme revolucionário, tanto por seu conceito quanto pelo seu contexto. É interessante traçar um paralelo entre o que este filme representa para os japoneses e o que A Queda representa para os alemães. Ambos são obras visualmente impecáveis, com um tom nunca antes abordado em seus países e que de certa forma mostra o “amadurecimento” desses povos sessenta anos após sua derrota. Mas Yamato vai além de A Queda por mostrar a vida e os desafios dos garotos que tão entusiasticamente se alistaram para defender seu país em pleno revés bélico. Os jovens recrutas da Marinha Imperial são retratados como personagens tridimensionais, com medos, dúvidas e expectativas. O treinamento árduo, o rigor (às vezes excessivo) dos oficiais, e a distância de casa eram preços a pagar pelo orgulho de servir no maior encouraçado do mundo. Nas palavras de um dos personagens: “Quando vi o Yamato, tive a certeza de que o Japão jamais seria derrotado”. Pouco sabiam esses novatos, que a maré da guerra, e mesmo a estratégia naval, tinham mudado profundamente contra o Japão.

O filme se inicia com Makiko Uchida (Kyoka Suzuki) chegando ao sul do Japão, para alugar um
barco que a leve até o ponto de afundamento do Yamato, no aniversário de 60 anos do acontecido. Todos se recusam a levá-la, até que ela conta ao velho Katsumi Kamio (Tatsuya Nakadai), dono de um pequeno barco, que é filha de Mamoru Uchida (Shido Nakamura), antigo companheiro dele a bordo do encouraçado, e que este pensava havia afundado junto com o navio. Kamio então se prontifica a levá-la ao local, numa longa viagem de 15 horas. Os dois são acompanhados apenas pelo garoto Atsushi (Sosuke Ikematsu), um ajudante de 15 anos. Enquanto a viagem se desenrola, Kamio vai se relembrando de seu passado.

A ambientação do Japão em guerra é muito realista e convincente. Todos os detalhes estão lá, até mesmo as fitas adesivas nos vidros as janelas, para evitar que estilhaçassem durante bombardeios. O expectador pode olhar por um mundo não retratado apropriadamente antes, que é cheio de cor e movimento, ao contrário dos velhos arquivos de época em preto-e-branco. A chegada dos novos recrutas ao encouraçado pela primeira vez é de tirar o fôlego, pois se tem a impressão de aproximar-se de um gigante. E não é para menos: a produção construiu uma réplica em tamanho real do Yamato para as filmagens, e a mesma foi hoje transformada num museu. Chega a ser gratificante aos olhos o pouco uso de computação gráfica e chroma-key, o que confere um realismo muito maior à película.

No navio, Kamio é designado para a artilharia antiaérea de 20mm, juntamente com Uchida e o amigo Karaki (Jundai Yamada). E é lá que conhecem o oficial Shohachi Moriwaki (Takashi Sorimachi), que com o desenvolver da trama passa a representar um líder e espécie de “pai” para os jovens marinheiros. Destaque deve ser dado à cena da licença da tripulação, em que Kamio volta para casa. Lá encontramos a garota Taeko (a linda Yû Aoi), garota que faz companhia à mãe de Kamio. Aoi transparece autenticidade à personagem e mesmo seu pequeno papel não faz diminuir sua importância.

Yamato, embora possa parecer, não é exatamente um filme de guerra. Tanto que o filme não explica as razões da guerra. É um filme sobre o conflito dentro de cada ser humano, especialmente dentro dos rapazes da Marinha Imperial, que se vêem em meio às dúvidas sobre a obrigação de sacrificar-se para tentar salvar o país. É quando o Yamato é chamado ao dever para atacar a esquadra americana que invade a ilha de Okinawa em abril de 1945. Considerada o último bastião antes do próprio Japão, Okinawa deveria ser defendida até o fim e, portanto, valeria a pena arriscar o último encouraçado japonês para salvá-la. Acontece que o Yamato somente tinha combustível para a viagem de ida, o que classificaria a missão como “kamikaze”. Mesmo diante de tão sombrias perspectivas, o fardo é aceito pela tripulação. A cena de despedida dos marinheiros de suas famílias no píer é tocante, e dá o tom para a parte final do filme.

Confesso que gostei muito das cenas de batalha. Apesar do orçamento limitado, o realismo é
bastante decente e não desmerece a obra. Embora eu tenha notado alguns detalhes que eu nunca deixo de reclamar (como canhões grosso calibre que disparam sem recuo e a misteriosa aparição de um P-47), o resultado final é positivo. Algo que me deixou curioso foi a ordem do almirante japonês para usar as armas principais (460mm) contra aeronaves. Há de se esperar que esses projéteis não explodiriam no ar, e que tais armas seriam lentas demais para atacar aeronaves. Porém, após alguma pesquisa, descobri que a Classe Yamato (havia também a nau-irmã “Musashi”) usava um tipo especial de cápsula de fragmentação com espoleta de tempo para as armas principais, com o objetivo de formar uma barreira antiaérea contra aeronaves hostis. No entanto essas cápsulas, apelidadas de “colméia”, não eram muito eficientes de acordo com relatórios da Marinha Americana.

No geral, Yamato é um excelente filme, que infelizmente ainda não chegou por aqui. A conclusão da trama é emocionante, e a canção dos créditos “Close Your Eyes”, cantada por Tsuyoshi Nagabuchi, é linda. Mais do que um sucesso de bilheteria, o filme mostra que o Japão finalmente olha para o seu passado com olhos mais sensatos.

Trailer

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sexta-feira, 22 de junho de 2007

Viagem de Alfonso Felici à Rússia em 2003


No monumento aos mortos italianos na Rússia, em Rostov.


Às margens do Don: Felici (à dir) com o Presidente Nacional dos Alpini Giuseppe Parazzini (centro) e Remigio Ticca (à esq), seu companheiro de trincheira.


Alfonso mostra onde ficava sua trincheira, ainda intacta.


Revisitando Nikolajewka, Alfonso mostra onde pulou sobre o T-34 com a mina magnética.


Alfonso com soldados russos em Moscou.


Nota: já me correspondi com Sr. Felici e posso dizer que é uma pessoa fantástica, muito solícita e inteligente. Com muito orgulho tenho na minha coleção um autógrafo dele com dedicatória.


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quinta-feira, 21 de junho de 2007

Alfonso Felici


Alfonso Felici
Sargento
(1923 - )

Três Medaglie d'Argento al Valore Militare, Medaglie della Campagna Europea, Cruz de Ferro 2ª Classe, Silver Star, Bronze Star, Badge de Combate da Infantaria, Purple Heart, Medalha de Boa Conduta, Croix de Guerre. Esse bem podia ser o inventário completo de um colecionador de militaria, mas todas essas medalhas foram concedidas a um único homem, caso singular na história do maior conflito armado do século XX: Alfonso Felici.

Alfonso Felici nasceu em 23 de janeiro de 1923 em Villa Santo Stefano, Itália. Era o caçula de quatro irmãos. O pai havia emigrado para a América, para arranjar trabalho, voltando para a Itália somente para morrer pouco depois. Havia, porém, contado ao pequeno Alfonso sobre os EUA e sua grandeza. Pouco depois sua mãe também falece.

Em 1936, pouco depois do fim da Guerra da Etiópia, Felici vai à Nápoles e tenta embarcar clandestinamente num navio de legionários para Massaua, mas é encontrado por um canabiniere e enviado pra casa. Alfonso era um atleta nato, competindo nos 100 metros rasos e sempre chegando em primeiro. Nos Jogos da Juventude Fascista, foi condecorado com os louros do primeiro lugar pelo então Secretário do Partido Nacional Fascista, Achille Starace. Pouco depois, Alfonso escreveu uma carta ao Marechal da Itália Rodolfo Graziani, cumprimentando-o pela vitória. Graziani, então Vice-Rei de Adis Abeba, respondeu com um autógrafo e uma carta elogiando o espírito nacionalista do rapaz. Em seguida, Alfonso entra para a G.I.L. (Gioventù Italiana del Littorio), sendo alocado em seus batalhões. Em maio de 1940, participa da Marcha da Juventude em Roma. Em 10 de junho, a guerra estoura.

No dia 12, Felici vai para a estação de trem de Padua e secretamente entra num vagão da 3ª Alpina "Julia" rumo à Albânia. Aceito pelos Alpinos em suas fileiras, Alfonso recebe seu batismo de fogo na Invasão da Grécia. Em 30 de novembro, a "Julia" está recebendo todo o peso do contra-ataque grego. Em ação em Sella Pelikani, Alfonso destrói um ninho de metralhadoras gregas atirando granadas, sendo ferido no decurso e recebendo sua primeira Medaglie d'Argento al Valore Militare. Em dezembro é transferido para o hospital de Piacenza e depois Cremona.

Em 29 de fevereiro de 1941, Felici retorna à Albânia, participando da conquista da Grécia e Iugoslávia durante a Operação Marita. Com o início das operações do CSIR (Corpo di Spedizione Italiano in Russia) na URSS, ele é alocado na 4ª Companhia do Batalhão de ski "Monte Cervino". Em outubro, sua unidade participa da luta por Karkov. Em dezembro, luta na Batalha de Christochenaja e é admitido no 3º Regimento Bersagliere.

Durante o avanço para o Don em 23 de agosto de 1942, Felici ganha sua segunda Medaglie
d'Argento por ferimento durante a conquista da Colina (Quota) 232,2. Em setembro foi transportado para o hospital de campanha 230. Retorna ao front em novembro, junto à "Julia". Em 26 de dezembro é condecorado pelos alemães com a Cruz de Ferro 2ª Classe.

Após o contra-ataque russo no Don, o Corpo Alpino foi cortado e teve que abrir caminho por entre o bloqueio inimigo na Batalha de Nikolajewka. Durante as lutas, Felici foi condecorado com a terceira Medaglie d'Argento por ter destruído um tanque T-34 em combate corporal, pulando sobre o veículo e prendendo nele uma mina magnética.

Em abril de 1943, Felici se encontrava internado num hospital em Viena, sendo transferido em maio para Bolonha e em junho para Roma. Com o armistício em 8 de setembro, é evacuado pela polícia e enviado para o campo de Cecchignola. O campo se rebelou contra os alemães e, durante a batalha, Felici é feito prisioneiro. Mas pouco depois consegue escapar e se esconde em sua cidade natal, Villa Santo Stefano.

Em novembro encontra-se com os americanos e clandestinamente se alista no OSS em Capua, sendo transferido para Fort Dix, New Jersey, para treinamento. Em dezembro retorna à Itália e participa de missões de sabotagem contra os alemães. Em 22 de janeiro de 1944, Alfonso participa do desembarque em Anzio e em 1 de maio é alocado na 88ª Divisão de Infantaria americana.

Felici participa da liberação de Roma em 4 de junho, e em 8 de julho ganha a Silver Star por ações na Batalha de Volterra, sendo elogiado pessoalmente por Mark Clark. Ele volta à ação em 18 de agosto desembarcando em Saint Tropez, no sul da França, combatendo depois com o III Exército do General George Patton. Alocado na 90ª Divisão, Alfonso prossegue lutando com III Exército até a liberação da Tchecoslováquia, em maio.

Não estando ainda satisfeito, Felici imediatamente pede transferência para o Pacífico, e embarca para as Filipinas com a 25ª Divisão. Em junho, é feito prisioneiro pelos japoneses em Luzon, somente sendo libertado com a rendição final. Em setembro é transportado para San Francisco e hospitalizado, ganhando também a dupla cidadania. Em 1946, é agraciado pelo governo francês com a Croix de Guerre e, em 30 de novembro de 1984, recebe a Bronze Star por suas ações em Anzio.

Após a guerra, Felici trabalhou em Hollywood como assistente de Frank Capra, William Wyler e Joseph Mankievitz. Depois, trabalhou por trinta anos na Alitalia, se aposentando em 1988 e atualmente vivendo em Roma. Em 2002 lançou o livro "O Paisano Lutador - Os Alpini me chamavem de Balilla, os Americanos de Paisano" e em 2003 fez uma viagem à Rússia, revisitando os antigos campos de batalha do Don.


Alfonso Felici (à dir) e o veterano russo Alexei Dimitrov - Rússia, 2003.


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terça-feira, 19 de junho de 2007

Tul Bahadur Pun


Tul Bahadur Pun
Sargento
(1923 - )

Tul Bahadur Pun nasceu na vila de Banduk, no Nepal, em 23 de março de 1923. Já jovem, tentou entrar no exército por diversas vezes, mas era recusado por causa da idade. Quando a guerra estourou na Europa, a situação mudou, e recrutadores foram enviados às zonas remotas do Nepal para trazer novos soldados. Assim, em 18 de abril de 1940, Pun foi recrutado sem muita demora.

Seu treinamento, junto ao 3º Batalhão, 6º Gurkha Rifles, foi realizado em Abottabad, no atual Paquistão, e após apenas seis meses de treinamento, a unidade de Pun foi posta em combate contra rebeldes Pathan perto da cidade de Kargil. Após a conclusão do combates, o oficial britânico responsável designou o 3º Batalhão para “treinamento especial”, pois se destacaram dos demais. O treinamento consistia em sobrevivência na selva, cruzamento de rios e escalada de montanhas, além de receberem instruções para operações com planadores.

Em maio de 1944, o 3º Batalhão foi escolhido para realizar um assalto com planadores à importante cidade de Mogaung, em Burma, que estava nas mãos dos japoneses. Os planadores usariam uma clareira aberta pelos ingleses durante a Primeira Guerra Mundial, mas os japoneses haviam usado elefantes para enchê-la com toras de madeira, que constituíam obstáculos mortais durante os pousos. Dos 1.800 soldados que pousaram nos planadores, 500 sofreram ferimentos por causa desses obstáculos. Algumas mulas haviam sido embarcadas e foram utilizadas para transportar as pesadas metralhadoras.

O Batalhão de Pun assumiu posição na floresta e planejou o ataque à ponte ferroviária de Mogaung. Às 2h da manhã de 21 de junho, Pun e seus colegas atacaram as casamatas japonesas com granadas de mão e iniciaram o avanço. Houve então combate corporal entre os japoneses e os Gurkhas, que terminou com a completa eliminação nipônica. A porta para a cidade estava aberta.

Contudo, o terreno não oferecia muitos esconderijos para os atacantes, e Pun teve que se esconder atrás de árvores. Após duas noites lançando ataques falsos para confundir os japoneses, na madrugada de 23 de junho os Gurkhas lançaram o ataque às últimas defesas do inimigo. No entanto, um erro foi cometido e o avanço aconteceu diretamente à frente do fogo de metralhadoras japonesas. Quase todos os companheiros do pelotão de Pun foram mortos, restando somente ele e mais dois feridos, um deles o comandante inglês.

Contra o cerrado fogo inimigo, Pun se levantou e pegou uma metralhadora Bren, disparando com
ela da altura da cintura. Com a aurora atrás de si, e com lama até os joelhos, Pun era um alvo fácil para os japoneses, mas contra todas as chances, ele seguiu em frente até a casamata, matando três inimigos. Ao chegar ao topo, e viu que mais quatro japoneses estavam recarregando suas armas. Tentou disparar com a metralhadora, mas a arma travou. No desespero, jogou uma granada de mão na trincheira, matando todos os inimigos.

Uma segunda casamata então abriu fogo contra ele. Pun jogou-se ao chão, escapando por pouco aos tiros. Começou a jogar granadas contra a casamata, e na sexta tentativa acertou, fazendo a arma calar-se. Pun então levantou-se e foi procurar uma arma na casamata, mas dois soldados japoneses o encontraram. Pun então sacou a única arma de que dispunha, sua faca khukuri, e decepou a cabeça de um dos japoneses. Em seguida atingiu o ombro do outro inimigo, matando-o com golpes de faca. Um terceiro soldado apareceu, sendo morto da mesma forma. Outros japoneses na trincheira também atacaram Pun, que continuou cortando-os com a khukuri e atirando-lhes granadas. Após essa violenta ação, somente silêncio pôde ser ouvido. Pun acabara com toda a resistência japonesa.

O comandante inglês que havia sido ferido na batalha testemunhou a ação de Pun e enviou um memorando ao Alto Comando indicando-o para uma comenda honrosa. Quando a resposta chegou, o comandante chamou-o e disse: “Muito bem! Você receberá uma condecoração, mas ainda não sei qual nem de que classe. Provavelmente você receberá uma medalha de primeira classe!” O Soldado Tul Bahadur Pun foi condecorado com a mais alta ordem britânica por bravura em combate, a Victoria Cross, sendo também promovido a Sargento.

Alguns meses depois, Pun foi convocado a Delhi para receber a condecoração das mãos de Lord Louis Mountbatten, Vice-Rei da Índia e Comandante Supremo das Forças Aliadas no Sudeste Asiático. Em seguida Pun foi agraciado com uma licença paga de dois meses.

Após a guerra, Pun foi convidado para a coroação de Elizabeth II em 2 de junho de 1953, participando da cerimônia na Abadia de Westminster e da comemoração no Palácio de Buckingham. Alguns anos depois, foi convidado para tomar chá com a Rainha-Mãe, e teve seu nome inscrito no Memorial Gates, em Londres.

Recentemente, Pun, que aos 84 anos sofre de problemas cardíacos, diabetes e pressão alta, tentou conseguir um visa para tratamento médico na Grã-Bretanha, mas surpreendentemente teve seu pedido negado. As autoridades alegaram que ele não tinha “laços fortes com o Reino Unido”. Esse ato provocou imediato ultraje público, e 12.000 pessoas assinaram uma petição em seu favor, enviando-a ao Primeiro-Ministro Tony Blair. Uma semana depois, no dia 1 de junho de 2007, o Ministério de Imigração da Inglaterra concedeu o visa ao velho guerreiro Gurkha, que poderá tratar de sua saúde no país que defendeu tão tenazmente no passado.

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segunda-feira, 18 de junho de 2007

Batalha de Nikolajewka - Parte 2


A cidade foi avistada finalmente. Para chegar até lá, tinha que se descer um pequeno declive e passar pelos obstáculos da estrada de ferro, pelo leste. Atrás da linha estavam as posições entrincheiradas soviéticas, com morteiros, canhões anti-tanque e metralhadoras. As forças russas ali somavam cerca de uma divisão. O ataque começou ao meio-dia. O batalhão "Vestone" do Maggiore Braggi e o batalhão "Val Chiese" do Tenente-Colonello Cheirici, ao lado de uma bateria do grupo "Bergamo", tentaram tomar a passagem da ferrovia, mas foram bloqueados pelo fogo inimigo. Reverberi então convocou o batalhão "Edolo". Somente este, comandado pelo Maggiore Belotti, podia tomar parte do ataque, porque o "Tirano" ainda se encontrava a caminho.

O restante de um grupamento blindado alemão, anexado à "Tridentina" e comandado pelo Major Fischer deu apoio ao ataque com dois canhões anti-tanque autopropulsados e dois tanques leves. Chegaram duas aeronaves soviéticas, fazendo passagens por sobre o campo de batalha, tão baixo que as estrelas vermelhas embaixo das asas eram perfeitamente visíveis. Enquanto o combate se intensificava para tomar a passagem, contra o fogo das metralhadoras e canhões anti-tanque russos, o Generale Nasci ordenou um ataque total de todo seu contingente cercado. Milhares de homens, numa mixórdia de trenós e mulas, atacaram frontalmente as trincheiras da ferrovia. À frente do ataque os Generali Luigi Reverberi e Giulio Martinat, Chefe de Estado-Maior do Corpo Alpino. Com eles estavam os Capitani Giovan Battista Stucchi e Giuseppe Novello, além de outros oficiais da "Tridentina".

Martinat caiu enquanto liderava seus homens ao ataque. Tinha 52 anos. Um artilheiro alpino do grupo "Bergamo", Sandro Goglio, de Cuneo, recorda que enquanto atacava, viu o corpo do Generale Martinat desabado na neve, com o braço direito estendido, apontado para a cidade. Morreu também o Tenente Giovanni Piatti, 33, de Como, comandante da 48ª Compagnia. Piatti tinha sido o único comandante de companhia do "Tirano" a sair incólume de Arnautowo. Centenas de Alpini caíram no ataque. O 5º Reggimento teve 576 entre mortos e desaparecidos, e 414 entre feridos e congelados. Perto das 18h, a enorme coluna tinha superado as trincheiras da ferrovia, varreu a linha de resistência soviética, indo direto ao centro das defesas inimigas. Agora não sabia onde alojar as centenas de feridos, porque todas as casas estavam sendo invadidas ou estavam ocupadas por soldados russos. Para os soviéticos, sobrepujados pela massa italiana que invadia a cidade, surgiu a preocupação com a própria sobrevivência. Eles também tinham combatido muito, tinham incontáveis feridos e estavam paralisados pela temperatura de -30ºC.

Nesse cenário, em certos setores da cidade se estabeleceu quase que uma trégua forçada. O escritor Mario Rigoni Stern, na época Sergente do batalhão "Vestone", entrou por engano numa casa ocupada por soldados russos. Estava faminto. Uma mulher lhe estendeu uma lata com comida. Sob os olhares dos soldados, Rigoni Stern agradeceu e saiu.

Às duas da manhã de 27 de janeiro, com um grito que passou de casa em casa, chegou a ordem de deixar Nikolajewka. Se resumia a retirada para oeste, para a salvação. Aos oficiais coube a tarefa mais dolorosa: escolher quais, dentro os muitos feridos, carregar consigo; os menos graves, para os quais ainda restava alguma esperança. Os outros, atingidos no abdômen ou no tórax, tiveram que ser abandonados. Nesse ínterim o desespero aumentou. Revelli se lembra: "Alguns de nossos companheiros não queriam ser abandonados. Alguns, se arrastando na neve até segurar um trenó, imploravam, chorando. Teve esse destino um dos melhores do 46º, o Alpino Rinaldo Tironi, 30, de Valtellina. "Tenente, Tenente", ele me gritou, "Sou eu, Tironi, não me reconhece? Não me abandone!" Tive que deixá-lo no frio. Era uma lei bestial, que não podíamos desobedecer."

O comandante do "Tirano", Tenente Grandi, morreu pouco antes do amanhecer; enquanto esteve em Nikolajewka sofreu uma agonia sem lamentos. Seu corpo permaneceu no trenó até a manhã do dia 28, quando então foi enterrado sob um palmo de neve. O bloqueio principal tinha sido vencido. A marcha ainda seguiu por cinco dias e cinco noites no meio do frio polar, encontrando diversos bolsões de resistência e sob contínuo ataque da caça soviética. Os pilotos russos voavam impunes: nunca, desde o início da retirada, um único avião italiano apareceu para protegê-los. À frente, continuava a marchar a "Tridentina", seguida pela coluna ininterrupta de homens em fuga que se alongava pela estepe numa profundidade de 30 quilômetros.

Em 31 de janeiro, perto de Wosnessenoeka, eles encontraram ambulâncias e o Generale Italo Gariboldi, comandante do ARMIR (Armata Italiana in Russia). Os feridos mais graves foram carregados nos veículos. Havia um alpino que tivera um braço amputado em Arnautowo, seis dias antes, e se encontrava com o ferimento congelado. O frio o salvara da gangrena. Ao receber atendimento médico dos alemães, estes lhe perguntaram se trocaria sua pistola por um maço de cigarros. Aceitou. Sua pistola não mais lhe seria útil.

Nuto Revelli se recorda do momento em que encontraram as linhas do Eixo: "Como requerido, passamos em revista pelo general Gariboldi; curvos, um pequeno grupo, com a cabeça enfaixada. Ele nos olhou. Aqui estava o resto de seu exército. Conosco estava seu filho, um Sottotenente da 5ª Alpini. Percorremos a pé outros 700 quilômetros, sempre fugindo dos russos, que estavam avançando." Em 1º de março, chegaram a Gomel. Dezessete dias depois estavam de volta à Itália. Era o fim da tragédia. Para serem transportados para a URSS, no verão de 1942, foram necessários 200 comboios ferroviários. Para a volta à pátria, na primavera de 1943, 17 pequenos trens foram o suficiente.

Nikolajewka foi uma grande vitória, a vitória do desespero. A batalha foi feita e vencida pela "Tridentina", mas também a "Cuneense", a "Julia" e a "Vicenza" contribuíram com seu sacrifício para a salvação de grande parte do Corpo d'Armata Alpino. Operando na retaguarda e nos flancos, essas três unidades enfrentaram imensas forças soviéticas para aliviar a pressão sobre a divisão de Reverberi. Em 27 de janeiro, os restos da "Cuneense", no limite da resistência humana, foram cercados e capturados em Valuiki.

Os sobreviventes do Corpo d'Armata Alpino, de volta à Itália, contaram suas experiências. Falavam com entusiasmo da população ucraniana e com ódio de seus "aliados" alemães. Vale a pena citar uma passagem de um relatório do Estado-Maior do Exército Italiano: "A população ucraniana - seja por pena, simpatia, ou ordem das autoridades russas - foram bastante solícitas em aliviar o sofrimento, oferecer comida, agasalhos, e possibilidade de descanso para os soldados do ARMIR". Como se comportavam os alemães? Está dito no mesmo relatório: "Nas casas, eles entravam armados, expulsando nossos soldados, para abrir espaço para os seus; abordavam à mão armada nossos motoristas, obrigando-os a entregar-lhes nossos veículos; de nossos caminhões fizeram descer nossos soldados e nossos feridos, para ocuparem os lugares; tiravam as locomotivas de nossos comboios de feridos para acoplá-las às suas composições; feridos e congelados italianos eram deixados para morrer no frio durante a tragédia, enquanto eles ocupavam nossos veículos, homens sem ferimentos, e fumavam alegremente enquanto nossos soldados sofriam por dias a fio. Durante a fuga, os alemães, em seus carros e trens, deixavam para trás os nossos soldados, que se arrastavam a pé nas pobres condições que descrevemos; e quando qualquer um tentava subir em seus trens e caminhões, era inevitavelmente atingido pela coronha de uma arma e forçado a ficar no chão".

Revelli se lembra que: "No dia 30 de janeiro, já perto das novas linhas, os alemães se divertiam em nos fotografar. Parecia que nosso desastre era algum tipo de vitória para eles, pois apontavam os dedos para nós com desprezo". Em 9 de março, em Slobin, o Maggiore Gerardo Zaccaro reuniu o "Tirano" e discursou sobre a tragédia e a retirada: "É um insulto para com nossos mortos falar de aliança com os alemães; depois da retirada, os alemães são nossos inimigos, mais do que na guerra de 1915".


A mensagem dos sobreviventes foi a condenação da absurda política de guerra do fascismo. Isso explica porque as populações do norte italiano, que tinham visto a morte de seus filhos em solo russo, se juntaram em tão grande número à Resistência. Assim aconteceu no Vale do Como, onde estava fresca na memória a morte de dezenas de milhares e a virtual destruição da "Cuneense". Os partisans lutaram contra os alemães em nome dos irmãos, filhos e amigos que caíram mortos na distante União Soviética.


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domingo, 17 de junho de 2007

Batalha de Nikolajewka - Parte 1


Batalha de Nikolajewka
A Vitória do Desespero
A penosa retirada do Corpo Alpino italiano após o contra-ataque russo em Stalingrado, e a fuga quase impossível do cerco inimigo.

A última batalha da retirada italiana da Rússia, a batalha do desespero e da salvação para romper o cerco soviético em Nikolajewka, iniciou-se na madrugada de 26 de janeiro de 1943. O Corpo d'Armata Alpino, cercado por divisões blindadas, começou a se reposicionar na curva do Don no dia 17: nesse momento o Generale Gabriele Nasci, comandante do Corpo, podia contar com 57 mil homens, nas divisões "Cuneense", "Julia", "Tridentina" e "Vicenza". Depois de nove dias de combate em condições climáticas totalmente adversas, numa grossa camada de neve que chegava aos joelhos e de uma temperatura que ia de -30ºC a -40ºC, as tropas italianas estão sendo dizimadas. Milhares de Alpini foram mortos e outros milhares caíram prisioneiros do russos.

Em 25 de janeiro, véspera da Batalha de Nikolajewka, segundo um relatório do comando do Corpo d'Armata, a situação era a seguinte: A Divisão "Cuneense", durante uma pausa noturna em Derkupsakaja, se encontrou cercada por maciças forças blindadas vermelhas, estando, desde então, incomunicável. O certo é que, no dia 25, estão no meio do combate unidades da "Cuneense" e "Vicenza". A "Julia" não mais existe como unidade desde o dia 22. A única ainda inteira é a "Tridentina", embora pesadamente desfalcada pela perda de homens eficientes, armas e munições: seus soldados contam as migalhas na retaguarda; nem todos têm armas, muitos estão congelados, e se arrastam mais do que caminham.

Nessas condições, a "Tridentina" realizou uma marcha, dos dias 15 a 25, até a cidade de Nikitowka, às margens da imensa planície coberta de neve que é a porta de Nikolajewka. Junto com a divisão, vem uma coluna de 40 mil homens: italianos, húngaros e alemães que tinham perdido contato com suas unidades e escapado do combate intenso a oeste de Stalingrado. Esperavam que, em conjunto, pudessem abrir caminho até suas novas linhas.

Em Nikitowka, os batalhões da "Tridentina" tiveram um breve descanso antes do início da retirada. O Colonello Giuseppe Adami, comandante do 5º Reggimento Alpino, se recorda que naquele dia: "O sol, a ausência de vento e a temperatura de certa forma mais amena, de alguma forma deu nova confiança aos homens. Havia a constante lembrança e esperança de encontrar pão, mel, ovos e batatas outra vez. Para os Alpini, depois de tantas provações, poderiam finalmente se alimentar. O espírito de luta e esperança foi revigorado. Os soldados procuraram um lugar quente para dormir, pois desde o início da marcha só tínhamos parado para atender os feridos graves de congelamento."

Todos, em algum grau, sofriam de congelamento. O equipamento, já desastroso no início da retirada, tinha sido reduzido a quase nada. Durante os oito dias da marcha, se fez sentir a inutilidade da vestimenta "padrão", a mesma para a Rússia e para a África, no tocante ao frio. Os soldados tiveram que improvisar coberturas para a parte interna das roupas. Também havia homens descalços, ou com pés envoltos em faixas. Por dentro dos casacos (de alguns privilegiados) encontrava-se uma cobertura de falsa lã, que espetava como alfinetes. A única boa peça de indumetária que tinham era a roupa que tinham trazido de casa quando partiram da Itália. O armamento, insuficiente e obsoleto, foi parcialmente abandonado no começo da marcha em ordem de aliviar o peso das colunas. Somente foram conservadas armas individuais, algumas metralhadoras, granadas e alguma quantidade de munição. As mulas usadas pelos italianos, em paralelo com o exército mecanizado alemão, foram ironicamente sua salvação durante a cruel retirada, já que os veículos ou atolavam ou não funcionam com o frio. Na noite de 25 para 26, a temperatura tornou a cair para -30ºC. Nuto Revelli, do 46º Battaglione "Tirano", 5º Reggimento Alpino, recorda: "Eu dormia numa periferia de Nikitowka, perto de Arnautowo. Éramos cerca de trinta, dormindo no mesmo lugar. Comigo estavam o comandante da companhia, Tenente Giuseppe Grandi, de 29 anos, nascido em Limone Piemonte, e os Sottotenenti Antonio De Minerbi, de Roma, Mario Torelli, de Gênova, e Raffaelle De Filippis, de Campobasso. Perto de uma da manhã ouvimos explosões próximas, como granadas. Alguém deu o sinal de alerta, mas não identificamos e ninguém se levantou. Naquele momento a Batalha de Nikolajewka começou."

Em Arnautowo, um grupo de casas situado numa pequena colina a um quilômetro de Nikitowka na direção de Nikolajewka, forças russas começaram a atacar o batalhão "Val Chiese" do 6º Reggimento Alpino e a 33ª Batteria do Gruppo "Bergamo". Ao mesmo tempo, outras forças soviéticas, juntamente com guerrilheiros, começaram a atacar com morteiros e canhões anti-tanque o lado sudoeste da pequena cidade. Os italianos não ficaram parados. Haviam pensado que a manhã chegaria tranqüila para o começo da marcha final de retirada, mas agora eram obrigados a abrir caminho à força por entre os russos. Os homens do batalhão "Tirano" se aproximaram de Arnautowo pelo ligeiro aclive da colina. Pela primeira vez desde a retirada, marchavam em ordem. Outros soldados se recusaram a seguí-los, talvez por saberem que os russos esperavam na passagem. De repente, tiros de canhão anti-tanque atingiram a coluna, vindos de Nikitowka. Armas e mulas foram aos ares, e Alpini foram feridos e mortos. Apesar do momento de choque, o "Tirano" reorganizou suas companhias e renovou o ataque à Arnautowo.

O primeiro a encontrar os homens do "Val Chiese" e os artilheiros mortos do "Bergamo" foi o Sottotenente Torelli, que em seguida foi morto pelos russos juntamente com seus homens. Depois disso, restou ao batalhão a 49ª Compagnia à esquerda, a 46ª ao centro e a Compagnia Comando com a 48ª à direita. Os combates continuaram renhidos até o fim da manhã. Os oficiais continuaram sempre à frente de seus homens, atirando com armas que às vezes travavam com o gelo. O Capitano Franco Briolini, 35 anos, de Bérgamo, comandante da 49ª, morre. O comandante do "Tirano", Tenente Grandi, é gravemente ferido junto com o Tenente Giovanni Alessandria, 26 anos, de Diano D'Alba, comandante da Compagnia Comando. Outros que morreram foram os Sottotenenti Giuliano Slataper, 21, de Trieste; Giuseppe Perego, 23, de Sondrio; Lorenzo Nicola, 26, Turim; Giovanni Soncelli, 28, Sondrio.

Ao fim da manhã, os russos recuaram para Nikolajewka. Alguns italianos ficaram para recolher os feridos em Arnautowo. Grandi, ferido no abdômen, estava estendido na neve. Com voz fraca, ele cantava, e fazia os homens cantarem junto com ele, a "Canção do Capitão Ferido". Ao redor dezenas de Alpini jaziam feridos. Entre eles o Sergente Maggiore Stefano Robustelli, 27, de Sondrio; e os Caporali Cesare Marchetti, 25, e Attilio Colturi, 24, ambos de Valtellina.

A estrada para Nikolajewka estava aberta. No fim da manhã chegou o Generale Luigi Reverberi, o valoroso comandante da "Tridentina", acompanhado pelo Colonello Adami. Reverberi tinha 51 anos e se vestia como seus soldados, mas usando um chapéu de pele ao estilo russo. Extremamente enérgico e combativo, ordenou à divisão para avançar. Entrementes o "Tirano" contava seus mortos e tentava resolver o angustiante problema do transporte de feridos, enquanto uma coluna de 40 mil homens passava por eles, carregando seus trenós e mulas. Nuto Revelli recorda: "Minha companhia tinha quatro trenós para os gravemente feridos, enquanto as dezenas de feridos mais leves continuavam andando. Feridos de batalha, de congelamento e de desespero tiveram de se mostrar mais uma última vez em Nikolajewka."

CONTINUA...

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quinta-feira, 14 de junho de 2007

Nota de Falecimento: Kurt Waldheim


Kurt Waldheim
(21/12/1918 - 14/06/2007)

Faleceu hoje em Viena, de insuficiência cardíaca aos 88 anos, o ex-Secretário Geral das Nações Unidas e ex-Presidente da Áustria Kurt Josef Waldheim.

Waldheim teve uma controversa participação na Segunda Guerra, servindo como ordenança do também austríaco General Alexander Löhr no Grupo de Exércitos E, na Iugoslávia em 1942-43. O então Oberleutnant Waldheim era o oficial para esforços de contra-insurgência de Löhr, e foi acusado de ter participado de perseguições contra partisans de Tito, inclusive durante a infame Operação Kozara. Um relatório expedido por uma comissão de historiadores nos anos 80, no entanto, atestou que Waldheim sabia dessas operações, mas não havia participado delas.

Após a guerra, Waldheim integrou o corpo diplomático austríaco, galgando diversas posições importantes até culminar em 1972 com sua eleição para Secretário-Geral das Nações Unidas. Ele foi reeleito para um segundo mandato em 1976, permanecendo no cargo até o fim de 1981. Uma mensagem de sua autoria está hoje nas profundezas do espaço, gravada nos discos de ouro das sondas Voyager.

Em 1986 Kurt Waldheim foi eleito presidente da Áustria, cargo que ocupou até 1992. Durante seu mandato, a imprensa divulgou várias acusações de associação de Waldheim à SA e crimes de guerra, no que ficou conhecido como "Caso Waldheim". Nada de conclusivo foi, entretanto, achado.

Kurt Waldheim era casado e pai de três filhos.

Oberleutnant Kurt Waldheim na Iugoslávia, em 1943.

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quarta-feira, 13 de junho de 2007

Alexandr Marinesko


Alexandr Marinesko
Capitão
(1913 - 1963)

Os submarinos soviéticos atingiram pouquíssimos sucessos durante a guerra, embora tivessem seus bons momentos. Uma das mais intrigantes e controversas figuras na história da arma submarina soviética é Alexandr Marinesko. Considerado pelos alemães como um criminoso de guerra, ele foi condenado e preso por seu próprio governo. Eventualmente se tornou Herói da União Soviética muito depois de sua morte.

Alexandr Ivanovich Marinesko nasceu em Odessa, Ucrânia, em 15 de janeiro de 1913. Filho de um marinheiro romeno e de uma mulher ucraniana, ele se juntou à Marinha em outubro de 1933. Em 1939, ele já tinha completado o treinamento especial de guerra submarina com a Frota do Mar Negro e foi designado para uma posição de comando na Frota do Báltico. Marinesko serviu a bordo do submarino M-96 e posteriormente no S-13. Embora tenha combatido na primeira parte da Grande Guerra Patriótica, seus grandes sucessos viriam somente muito depois, em 1945.

Naquela época, Marinesko estava profundamente comprometido com as autoridades. Seus problemas começaram no fim de 1944, quando ele estava na base de Turku, na Finlândia. Quando o S-13 estava pronto para zarpar, ele estava ausente, sem licença, por três dias. Aparentemente estava com uma mulher e bebendo exageradamente. Quando ele não se apresentou para o serviço, a patrulha costeira começou a procurá-lo, e ele finalmente retornou a seu barco em 3 de janeiro de 1945. O NKVD suspeitava que ele havia desertado ou se tornado um espião dos finlandeses. A Marinha e o NKVD discordavam sobre a punição apropriada para ele, mas antes havia deveres a serem cumpridos e Marinesko foi enviado ao mar.

Em 30 de janeiro de 1945, perto do porto de Danzig, o Capitão de 3ª Classe Marinesko disparou três torpedos contra a lateral do navio de linha alemão “Wilhelm Gustloff” (25.484 ton.), afundando-o rapidamente. Ele desobedeceu a seus superiores e executou a ação fora de sua zona de operações designada. O navio carregava 7.000 civis e 1.300 homens da Kriegsmarine, sendo que somente 988 pessoas sobreviveram. Foi o maior naufrágio da história em vítimas humanas; assim como quando Paulus rendeu o 6º Exército alemão em Stalingrado, Hitler declarou três dias de luto oficial no Reich, e chamou Marinesko de “seu inimigo pessoal”. Por muitos anos os soviéticos negaram responsabilidade sobre o afundamento do Gustloff, mas os defensores de Marinesko dizem que o navio não estava adequadamente marcado e transportava mais de mil militares, o que tecnicamente o qualificava como alvo militar.

Em 10 de fevereiro, Marinesko interceptou o cruzeiro mercante alemão “General
Steuben” (14.600 ton.), mandando-o para o fundo do Báltico. Havia mais de 3.000 feridos, refugiados, e médicos a bordo. Marinesko não tinha idéia de que sua vítima era um navio-hospital.

Além de afundar quatro navios em sua carreira, Marinesko também executou desembarques de espiões e forças especiais por trás das linhas inimigas, e cobriu o flanco de unidades do Exército Vermelho em avanço. Embora recomendado para o título de Herói da União Soviética, a mais alta honra foi-lhe negada, parcialmente por seu perfil problemático e pela incredulidade do Alto Comando da Marinha em reconhecer a tonelagem de seus afundamentos. Uma vez reconhecida, porém, Marinesko foi condecorado com a Ordem da Bandeira Vermelha. Ele ficou profundamente ressentido pelo tratamento que recebeu, e quando os oficiais foram-lhe entregar a comenda a bordo do S-13, Marinesko ordenou a submersão do barco. O severo desapontamento e problemas constantes com o NKVD o induziram a um alcoolismo desenfreado.

Em setembro de 1945, Marinesko foi rebaixado a Primeiro Tenente e transferido para um caça-minas, sendo que em novembro ele foi expulso da Marinha. Em seguida, ele foi preso por crimes políticos em acusações exageradas, condenado, e enviado a um gulag na Sibéria onde passou muitos anos em trabalho forçado. Após sua libertação, o desonrado ex-comandante de submarinos se mudou para Leningrado e trabalhou para uma empresa de fabricação de navios. Na completa obscuridão, Alexandr Marinesko faleceu vitimado por uma úlcera em 25 de novembro de 1963, aos 50 anos de idade.

Em 5 de maio de 1990, Alexandr Marinesko finalmente recebeu o título de Herói da União Soviética, concedido pelo presidente Mikhail Gorbachev após longo lobby por parte de seus ex-camaradas. Seu escore de 52.000 toneladas de navios inimigos afundados fizeram dele o maior ás dos submarinos soviéticos da Grande Guerra Patriótica. O Museu do Submarino em São Petersburgo foi nomeado em sua homenagem, e monumentos em sua homenagem foram erigidos em Kaliningrado, Kronstad e Odessa.

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segunda-feira, 11 de junho de 2007

Gabriel Gauthier


Gabriel Gauthier
Capitaine
(1916 - 1996)

Nascido numa tradicional família de médicos de Lyon em 12 de setembro de 1916, de Gabriel Gauthier esperava-se que tomasse a mesma profissão. Seu interesse por assuntos militares desde os primeiros anos fez com que uma carreira de médico das forças armadas fosse a escolha lógica. Descobrindo, entretanto, que seu interesse maior estava nas competições, ele eventualmente decidiu optar pela carreira de aviador. Após falhar nos exames iniciais, ele juntou-se ao Armée de l’Air em 1936, freqüentando a Academia da Força Aérea em Versalhes. Finalmente, em outubro de 1938, ele foi designado para o GC (Groupe de Chasse) II/7, que acabara de receber os novos Morane-Saulnier MS.406s.

Em 28 de agosto de 1939 a nova unidade de Gauthier foi transferida para Luxeuil, pronta para engajar a Luftwaffe na guerra que agora parecia inevitável. Os pilotos estavam cheios de confiança, acreditando que os alemães nunca seriam capazes de sobrepujá-los. Voando um Bloch MB.152, o primeiro gosto de vitória para Gauthier veio quando ele dividiu a destruição de um Dornier Do 17 em novembro. Um mês depois, em 21 de dezembro, enquanto escoltava reconhecedores Potez 63/II, sua unidade foi engajada por uma dúzia de Messerschmitts Bf 109. Enquanto observava a queda de um caça que acabara de abater, sua aeronave foi seriamente danificada por outro caça alemão que perseguia sua cauda. Gauthier ficou seriamente ferido no pouso forçado, e não retornou ao serviço ativo até muito depois do armistício de junho de 1940.

Quando finalmente ele voltou a voar e reuniu-se com sua unidade, esta foi transferida para o norte da África, onde Gauthier passou a voar o Dewoitine D.520 com a Força Aérea de Vichy. Na nova força aérea era tradição substituir a numeração individual das aeronaves pela inicial do sobrenome do piloto, mas como Gauthier chegou depois do Segundo-Tenente (Sous-Lieutenant) Michel Gruyelle, ele adicionou também a inicial do seu primeiro nome, criando a famosa marca “GG” e dando-lhe o apelido de “Ge Ge”. Após a invasão aliada do norte da África (Operação Tocha) em novembro de 1942, a unidade de Gauthier rejuntou-se ao esforço de guerra da França Livre de Charles De Gaulle. Em 1943, a unidade foi a primeira a ser reequipada com Spitfires, e ele viu ação nos últimos dias da campanha da Tunísia em abril.

Enquanto voava missões de apoio a operações sobre a Córsega, ele adicionou ao seu escore mais
dois Junkers Ju 88, um Dornier Do 217, um Savoia-Marchetti SM.79 outro provável Ju 88 entre 28 de setembro e 17 de dezembro de 1943, conseguindo também neste período danificar outros dois Ju 88.

Promovido a Capitão (Capitaine) e recebendo o comando da 2ª Escadrille, Gauthier tomou parte nas operações de desembarque em Provença, onde foi novamente derrubado e ferido, dessa vez por artilharia antiaérea, e fez um pouso forçado entre Montbéliard e Belfort. Capturado pelo inimigo, ele foi salvo da Gestapo por membros da Resistência Francesa, que eventualmente o trouxeram a salvo para a Suíça. Recuperado, ele juntou-se novamente à sua unidade, recebeu o comando do GC II/7 em fevereiro de 1945, e ainda dividiu a destruição de mais cinco Bf 109s (mais um provável) entre o natal de 1944 e a rendição alemã em maio de 1945. Gauthier terminou o conflito com dez vitórias confirmadas.

No pós-guerra, Gauthier foi enviado aos Estados Unidos para treinamento em Estado-Maior, antes de retornar para a França na primavera de 1946. Chamado para compor o Alto Comando, ele foi promovido a Major no fim daquele ano. Gauthier foi o principal advogado do retorno do time acrobático “Patrouille de France” à ativa. Promovido a Tenente-Coronel, ele foi enviado à Indochina em maio de 1954, e foi designado Chefe de Defesa Aérea em 1956. Promovido a Coronel em maio daquele ano, Gauthier participou da Guerra do Suez como comandante da base aérea d’Akroti (Chipre) e organizando todo o poder aéreo do país no conflito. Um jornalista, analisando a carreira de Gauthier, disse que ele era “O Grande Organizador do Século”. Quando De Gaulle se tornou presidente da França em 1959, Gauthier se tornou seu assessor de confiança. Sua carreira culminou em 1 de dezembro de 1969, quando ele foi designado Chefe de Estado-Maior do Armée de l’Air, posição que ocupou até sua aposentadoria em dezembro de 1972, com a patente de General da Força Aérea (Général d’Armée Aérienne). Um dos últimos grandes pilotos franceses da Segunda Guerra, Gabriel Gauthier faleceu no dia 3 de março de 1996, aos 79 anos de idade.

Dewoitine D.520 de Gabriel Gauthier - 3ª Escadrille GC II/7. Sidi Ahmed, Tunísia, outubro de 1942.


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sexta-feira, 8 de junho de 2007

Camionetta AS 42 Sahariana


Em 1911, a Itália invadiu e ocupou a Líbia, tomando-a do Império Turco-Otomano. A soberania italiana foi reconhecida em 1912. Os líbios continuaram a resistir aos italianos até 1914, tempo em que quase a totalidade do território estava pacificado. A resistência continuou e pequenas guarnições de tropas italianas foram espalhadas por todo o país para manter o controle. Muitas dessas guarnições estavam em oásis isolados e suprimentos tinham que ser trazidos com freqüência por caminhão. Durante esse período os italianos ganharam grande conhecimento do ambiente do deserto, tanto em navegação como em sobrevivência.

Ao irromper a guerra em 1940 e as LRDP (Long Range Desert Patrols) começarem seus ataques, os italianos iniciaram um plano para lidar com as incursões Aliadas por trás de suas linhas. Com experiência de 30 anos em solo líbio, eles constituíram um time especialista de veteranos do deserto para caçar os incursores ingleses.

Em 1941, um veículo especial para essa tarefa foi requerido. Teria que ser rápido, bem armado e
capaz de cruzar grandes distâncias. A Virbeti de Turim (uma divisão da SPA, do grupo FIAT) produziu a Camionetta AS 42 Sahariana a partir desses requisitos e entregou os primeiros veículos no fim de 1942, sendo que entraram em ação pela primeira vez em 29 de novembro.

Para fazer-se equivalente às LRDP e atuar como veículo de reconhecimento de longo alcance, a Sahariana carregava um grande número de "Jerry Cans" (galões de combustível extra) num rack nas laterais. Era normalmente tripulado por 3 ou 4 homens, com o motorista bem à frente.

Designação

Oficialmente eram designadas Camionetta 42 "Sahariana", no entanto, também eram conhecidas por Camionetta "Sahariana" AS 42 ou Camionetta SPA 43 "Sahariana". Curiosamente, a palavra Sahariana é singular, então se vai se referir a mais de um veículo deve-se utilizar "Sahariani".

As letras AS são o código italiano para o Norte da África, "Africa Settentrionale", que literalmente é traduzido por "África do Norte" mas é costumeiramente entendido por "Para serviço na África". Qualquer equipamento, unidade ou formação que era organizado especialmente para o deserto africano recebia essa designação. Neste caso, se refere a um veículo capaz de operar naquele hostil ambiente.

Os números 42 e 43 referem-se respectivamente aos anos de produção dos modelos, que variavam suas características técnicas e melhoramento nas armas, mas mantendo a mesma aparência básica (assim como o Autoblinda AB.40 e 41).

"Camionetta" pode ser traduzido como "Jipe" e pode ser referir a qualquer veículo não-blindado modificado para carregar uma arma e operar na linha de frente.

A Primeira Unidade

O Raggruppamento Sahariano AS foi formado com alguns dos primeiros veículos produzidos. Um "Raggruppamento" normalmente é um grupo de unidades (batalhões) sendo normalmente maior que a equivalente Brigada Britânica ou o Regimento Alemão. Neste caso, no entanto, seu uso foi completamente atípico e o termo foi escolhido para dar a idéia de uma força maior do que a realmente existia. O Raggruppamento foi equipado com 10 veículos, cujos detalhes são:

*Sahariana AS-42 (no. 790 B): 1 x 20mm AA & 1 x 8mm MG.
*Sahariana AS-42 (no. 791 B): 1 x 47mm CAN & 1 x 8mm MG.
*Sahariana AS-42 (no. 792 B): 1 x 20mm AA & 1 x 8mm MG.
*Sahariana AS-42 (no. 793 B): 1 x 20mm ATR & 2 x 8mm MG.
*Sahariana AS-42 (no. 794 B): 2 x 8mm MG.
*SPA TL37 AS (no. 795 B): 1 x 47mm CAN.
*SPA TL37 AS (no. 796 B): 1 x 20mm AA.
*Sahariana AS-42 (no. 797 B): 1 x 20mm AA & 2 x 8mm MG.
*Sahariana AS-42 (no. 798 B): 1 x 20mm ATR & 1 x 8mm MG.
*SPA TL37 AS (no. 799 B): Veículo de Suprimento não-armado.

8mm MG: Breda Mod. 37 - Metralhadora média (cartuchos de 24 tiros).
20mm ATR: Solothurn S18/1000 - Rifle antitanque semi-automático de 20mm (cartuchos de 10 tiros).
20mm AA: Breda Mod. 35 - Antiaérea de 20mm (carregadores de 12 tiros).
47mm CAN: 47mm Mod. 37 - Arma antitanque.

O Raggruppamento esteve ativo na África entre 29 de novembro de 1942 e 8 de abril de 1943, sendo que muitos registros (documentos e fotos) existem da unidade e dos veículos em ação.

Outras Unidades

Seguindo os positivos resultados das operações do
Raggruppamento, outras quatro unidades foram criadas, denominadas "Compagnie Arditi Camionestitti". Cada uma tinha um efetivo de 100 homens. Essas novas unidades estavam estacionadas e equipadas da seguinte forma:

*103ª Co.Ard.Camion. 24 x AS 42 Baseada no Norte da África, esteve em ação em Sfax e Tunísia central.
*112ª Co.Ard.Camion. 24 x AS 42 (II série) Baseada na Sicília, mas pode não ter entrado em ação durante a Operação Husky.
*113ª Co.Ard.Camion. 24 x AS 42 Baseada na Sicília, participou efetivamente da defesa da ilha contra os invasores Aliados.
*123ª Co.Ard.Camion. 24 x AS 42 e AS 43 Baseada em Roma, nunca aparentemente entrando em ação (embora alguns elementos possam ter lutado contra os alemães na defesa da capital após o Armistício).

Cada uma dessas unidades era composta por um pequeno quartel-general e três pelotões "Sahariana" com oito veículos. Serviram como unidades normais de reconhecimento ao invés de reconhecimento de longo alcance. Elementos da 103ª possivelmente envolveram-se na Batalha do Passo Kasserine sob o comando de Rommel.

Em serviço na RSI

A RSI (Reppublica Sociale Italiana) usou os restantes AS 42 e 43. Sete deles foram usados por um destacamento da Decima MAS que serviu na Rússia.

Pós-guerra

Após a guerra outros sete veículos (aparentemente o total sobrevivente) foram usados para equipar o XX Destacamento Móvel até 1954, quando foram definitivamente aposentados.

Especificações

Velocidade Máxima: 80 km/h
Alcance Operacional: 800 km
Pneus: normalmente 9.25 x 24, na Líbia 11.25 x 24


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