O terror invisível
Fotos inéditas de Auschwitz mostram que o mal tem um poder ainda mais terrível: o de anestesiar as consciências
O campo de extermínio de Auschwitz, que funcionou na Polônia até os últimos dias da II Guerra, passou para a história como palco das piores atrocidades perpetradas pelos nazistas. Em suas câmaras de gás, nas quais as pessoas eram comprimidas a ponto de não conseguirem mexer os braços, foram assassinados mais de 1,5 milhão de judeus, além de deficientes físicos, homossexuais, ciganos e quem quer que o III Reich considerasse indigno de viver. Uma série de fotografias inéditas divulgadas na semana passada pelo Museu do Holocausto, em Washington, mostra o campo de Auschwitz sob outro ângulo, o dos oficiais do Exército alemão, guardas e funcionários que trabalhavam no local, um contingente de aproximadamente 4.000 pessoas. As 116 fotos, descobertas casualmente na época da guerra por um oficial americano e guardadas em sua gaveta desde então, revelam a rotina alegre e despreocupada mantida pelos alemães em Auschwitz – paralelamente ao martírio dos prisioneiros. Numa das fotografias, oficiais da SS, a tropa de elite nazista, cantam alegremente acompanhados por um acordeom. Uma imagem datada de 22 de julho de 1944 mostra um grupo de mulheres soldados sorrindo e comendo framboesas. Naquele mesmo dia, segundo registros, mais 150 prisioneiros haviam chegado a Auschwitz, dos quais 117 foram enviados diretamente para as câmaras de gás.
Com seus flagrantes da vida pacata da soldadesca, as fotos agora divulgadas de Auschwitz são um exemplo eloqüente do sistema de valores morais cultivado pelos nazistas e que, levado às últimas conseqüências, lhes permitiu promover o holocausto de 6 milhões de judeus. Esse sistema de valores amparava-se na total ausência de compaixão por seres humanos que os nazistas julgassem inconvenientes a sua causa. Para os oficiais alemães e seus comandados, as mortes não eram assassinatos, mas tarefas rotineiras, ordens a ser cumpridas. A filósofa alemã Hannah Arendt cunhou a expressão "banalização do mal" após acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, prócer nazista encarregado de levar a cabo a solução final, ou seja, o extermínio em massa dos judeus. Ao ser apresentado ao tribunal, Eichmann surpreendeu os presentes por não aparentar em nada o monstro sádico que demonstrava ser com suas ações. Era um sujeito franzino, de personalidade submissa, que afirmava ter apenas cumprido suas ordens com zelo e eficiência. Contou que tocava violino e que a simples visão de atos de violência o fazia tremer. A avaliação psiquiátrica a que havia sido submetido também não havia detectado nele problemas mentais. Escreveu Hannah: "O problema, no caso de Eichmann, é que havia muitos como ele, e esses muitos não eram nem perversos nem sádicos, eram assustadoramente normais. Essa normalidade é muito mais aterradora do que todas as atrocidades juntas".
A trivialização da morte permeava todos os escalões da hierarquia nazista. Em seu livro Os Carrascos Voluntários de Hitler, o historiador americano Daniel Jonah Goldhagen relata o dia-a-dia dos agentes da polícia de Hitler na Polônia ocupada. Segundo ele, muitos policiais, pais de família, passavam os dias fuzilando mulheres e crianças, jogadas em valas comuns. No fim da tarde, voltavam para seus lares, abraçavam a família como se tivessem passado o dia num escritório e confraternizavam em atividades sociais. A solução final foi um projeto meticulosamente planejado, que incluiu o desenvolvimento de novas técnicas destinadas a eliminar o maior número de seres humanos no menor tempo possível. À frente do empreendimento esteve o capitão Rudolf Höss, comandante de Auschwitz. Em 1941, o chefão da SS, Heinrich Himmler, ordenou a Höss que passasse alguns dias no campo de concentração de Treblinka. Objetivo da visita: verificar como eram mortos os judeus no local a fim de aperfeiçoar os métodos de extermínio.
De volta a Auschwitz, Höss mandou construir fornos crematórios maiores e mais eficientes. As câmaras de gás também foram ampliadas para acomodar até 2.000 judeus de cada vez. O psiquiatra americano Leon Goldensohn, que entrevistou os principais oficiais nazistas levados a julgamento em Nuremberg, nos anos 40, perguntou a Höss se ele não sentia culpa pelos milhares de vidas que tirou. "Quando Himmler nos dizia algo, parecia tão correto e natural que obedecíamos cegamente", foi sua resposta. E o que Höss achava de matar crianças da mesma idade de seus filhos? "Não era fácil, mas estávamos convencidos das ordens que recebíamos e de sua necessidade." As fotos agora reveladas mostram com nitidez a capacidade que tem o mal de anestesiar consciências.
Fotos inéditas de Auschwitz mostram que o mal tem um poder ainda mais terrível: o de anestesiar as consciências
por Vanessa Vieira
O campo de extermínio de Auschwitz, que funcionou na Polônia até os últimos dias da II Guerra, passou para a história como palco das piores atrocidades perpetradas pelos nazistas. Em suas câmaras de gás, nas quais as pessoas eram comprimidas a ponto de não conseguirem mexer os braços, foram assassinados mais de 1,5 milhão de judeus, além de deficientes físicos, homossexuais, ciganos e quem quer que o III Reich considerasse indigno de viver. Uma série de fotografias inéditas divulgadas na semana passada pelo Museu do Holocausto, em Washington, mostra o campo de Auschwitz sob outro ângulo, o dos oficiais do Exército alemão, guardas e funcionários que trabalhavam no local, um contingente de aproximadamente 4.000 pessoas. As 116 fotos, descobertas casualmente na época da guerra por um oficial americano e guardadas em sua gaveta desde então, revelam a rotina alegre e despreocupada mantida pelos alemães em Auschwitz – paralelamente ao martírio dos prisioneiros. Numa das fotografias, oficiais da SS, a tropa de elite nazista, cantam alegremente acompanhados por um acordeom. Uma imagem datada de 22 de julho de 1944 mostra um grupo de mulheres soldados sorrindo e comendo framboesas. Naquele mesmo dia, segundo registros, mais 150 prisioneiros haviam chegado a Auschwitz, dos quais 117 foram enviados diretamente para as câmaras de gás.
Com seus flagrantes da vida pacata da soldadesca, as fotos agora divulgadas de Auschwitz são um exemplo eloqüente do sistema de valores morais cultivado pelos nazistas e que, levado às últimas conseqüências, lhes permitiu promover o holocausto de 6 milhões de judeus. Esse sistema de valores amparava-se na total ausência de compaixão por seres humanos que os nazistas julgassem inconvenientes a sua causa. Para os oficiais alemães e seus comandados, as mortes não eram assassinatos, mas tarefas rotineiras, ordens a ser cumpridas. A filósofa alemã Hannah Arendt cunhou a expressão "banalização do mal" após acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, prócer nazista encarregado de levar a cabo a solução final, ou seja, o extermínio em massa dos judeus. Ao ser apresentado ao tribunal, Eichmann surpreendeu os presentes por não aparentar em nada o monstro sádico que demonstrava ser com suas ações. Era um sujeito franzino, de personalidade submissa, que afirmava ter apenas cumprido suas ordens com zelo e eficiência. Contou que tocava violino e que a simples visão de atos de violência o fazia tremer. A avaliação psiquiátrica a que havia sido submetido também não havia detectado nele problemas mentais. Escreveu Hannah: "O problema, no caso de Eichmann, é que havia muitos como ele, e esses muitos não eram nem perversos nem sádicos, eram assustadoramente normais. Essa normalidade é muito mais aterradora do que todas as atrocidades juntas".
A trivialização da morte permeava todos os escalões da hierarquia nazista. Em seu livro Os Carrascos Voluntários de Hitler, o historiador americano Daniel Jonah Goldhagen relata o dia-a-dia dos agentes da polícia de Hitler na Polônia ocupada. Segundo ele, muitos policiais, pais de família, passavam os dias fuzilando mulheres e crianças, jogadas em valas comuns. No fim da tarde, voltavam para seus lares, abraçavam a família como se tivessem passado o dia num escritório e confraternizavam em atividades sociais. A solução final foi um projeto meticulosamente planejado, que incluiu o desenvolvimento de novas técnicas destinadas a eliminar o maior número de seres humanos no menor tempo possível. À frente do empreendimento esteve o capitão Rudolf Höss, comandante de Auschwitz. Em 1941, o chefão da SS, Heinrich Himmler, ordenou a Höss que passasse alguns dias no campo de concentração de Treblinka. Objetivo da visita: verificar como eram mortos os judeus no local a fim de aperfeiçoar os métodos de extermínio.
De volta a Auschwitz, Höss mandou construir fornos crematórios maiores e mais eficientes. As câmaras de gás também foram ampliadas para acomodar até 2.000 judeus de cada vez. O psiquiatra americano Leon Goldensohn, que entrevistou os principais oficiais nazistas levados a julgamento em Nuremberg, nos anos 40, perguntou a Höss se ele não sentia culpa pelos milhares de vidas que tirou. "Quando Himmler nos dizia algo, parecia tão correto e natural que obedecíamos cegamente", foi sua resposta. E o que Höss achava de matar crianças da mesma idade de seus filhos? "Não era fácil, mas estávamos convencidos das ordens que recebíamos e de sua necessidade." As fotos agora reveladas mostram com nitidez a capacidade que tem o mal de anestesiar consciências.fonte: Revista Veja, edição 2027 - 26 de setembro de 2007
Comente aqui!
5 comentários:
" anestesiar" sentimentos e emoções! Corretíssimo o emprego dessa palavra nessa situação. Somente esse fato poderia justiciar o que esses seres humanos fizeram! E minha análise, há aí, duas considerações importantes: o cultivo da autoestima que nos possibilita sempre respeitar sempre nossos proprios valores e confiar em nossos propiros pensamentos e julgamentos e mais do que isso, ser responável por eles.
Outra consideração importante é nao permitir. através de açoes de não passividade, que cheguemos ao estado que o povo alemão chegou antes de Hitler: desespero, desemprego, desvalor!
E penso que tudo isso nos leva a pensar no HOJE. Quem são as lideranças que estao aí e o que elas defendem?
Tudo pode se repetir, e, dado ao avanço tecnológico em que vivemos, de forma muito pior!
Atenção, pois!
Além de excelente matéria, não deixemos por menos, a excelência do comentário da Ana Pimentel. Parabéns.
Quais os motivos para que seres humanos matem outros de forma com que pareça tão simples?
quer queira,quer não,Hitler conseguiu fazer o impossivel que foi recuperar a Alemanha destruida e fragmentada após a primeira guerra mundial e dessa forma conseguir poder enter os alemães,logo,implantando seu regime autoritario e de espirito assassino que prevalecia a raça ariana.
Isso é uma realidade passada,as pessoas ainda matam umas as outras por interesses politicos e ideologicos dentre esses religiosos?Ou prezam pela igualdade dentro da sociedade?
Só complementando as últimas linhas da Ana Pimentel, como segue:
E penso que tudo isso nos leva a pensar no HOJE. Quem são as lideranças que estao aí e o que elas defendem?
Tudo pode se repetir, e, dado ao avanço tecnológico em que vivemos, de forma muito pior!
Atenção, pois!
A quem chegar até isto, fique sabendo:
Haverá em breve o Extermínio Global de mais de 5,5 bilhões de pessoas na Terra, por trás disso estão os alemães radicados no EUA, países europeus e afins. Para saber mais pesquise sobre Nova Ordem Mundial, Planos da Maçonaria Global e outros.
ISSO FOI O VENENO NAZISTA!!!!!
Postar um comentário