Fazia um calor agradável, típico
do verão da Bretanha quando o trem alcançou
Lorient. Fui então apanhado
pelo meu amigo
Jean-Louis Maurette, um notável mergulhador francês, apaixonado
por naufrágios de submarinos, o qual eu havia conhecido on-line meses antes.
Para minha total surpresa, fomos
direto da estação para um pequeno porto na localidade de Kerroch onde
encontramos mais três mergulhadores: Hugues Priol, Philipe Marie e Jean-Claude
Poupiniac.
Nosso objetivo era mergulhar no
naufrágio do U-171, um U-Boot Tipo IX C que, ao retornar em 1942 de uma bem-sucedida
patrulha no Golfo do México, havia topado com uma mina ao largo da Ilha de
Groix, Golfo de Biscaia.
Mesmo naufragando em uma explosão
catastrófica, 30 tripulantes sobreviveram, inclusive o comandante,
Kapitänleutenant Günther Pfeffer.
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| Cerimônia de comissionamento do U-171. |
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| Kapitänleutnant Pfeffer sendo cumprimentado pelo comandante da flotilha. |
Embarcamos em um inflável com
potente motor de popa e partimos do cais. Algum tempo depois, ao sairmos da
proteção do quebra-mar, começamos a ser atingidos por ondas enormes. Os franceses
pareciam não se importar muito com aquele fato, mas eu sim. Era uma situação
muito desagradável, para não dizer perigosa, e logo a minha vontade em
mergulhar no submarino começou a desaparecer. Um pouco depois foi minha coragem
que arrefeceu.
Minha nossa! O inflável investia
como um aríete contra aquelas massas de água verde. Sacudido por choques
medonhos, alçando a cada arfada a sua rechonchuda proa gotejante de espuma
branca.
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| O inflável pronto pra partir no cais de Kerroch. |
Esta merda vai afundar, vai
romper o casco rígido a qualquer momento! Discretamente afastei os pés do
emaranhado de pastilhas de chumbo dos cintos de lastro e deixei bem à mão o meu
colete equilibrador semi-inflado. A coisa prometia.
Quase uma hora depois alcançamos
o ponto do naufrágio e o Jean-Louis navegando em círculos, conferia a todo momento
o GPS. Ondas esverdeadas enormes, orladas por espuma branca pulverizada pelo
vento, sacudiam o frágil barquinho. Minha mãe!
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| Jean-Claude à proa pronto pra lançar a boia. |
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| Jean-Louis, mergulhador primoroso e meu anfitrião. |
Foi Jean-Claude quem lançou a
bóia vermelha. Estávamos sobre os destroços e em segundos, o cabo aduchado no
fundo do bote, começou a correr sem parar puxado pela âncora. Fiquei ainda mais
desmoralizado. Parecia que o U-171 estava em uma profundidade abissal.
Fui o terceiro a cair na água
fria, torcendo que a minha roupa mantivesse algum calor. Meio assustado, meio
desequilibrado pelo peso do cilindro de aço (sempre utilizei o de alumínio),
tive dificuldade em nadar até a bóia. Que agonia! O colete equilibrador estava
mais inflado do que airbag. Às vezes as cabeças dos mergulhadores que haviam me
precedido e ou a tal bóia, desapareciam na cava das ondas. Depois era o bote
que sumia. Senti que o colete não me mantinha à superfície e fiquei pronto para
alijar o lastro.
Que fiasco! Mas eu era
determinado e algum tempo depois juntei-me aos outros, segurando na bóia.
Atrapalhado por que as luvas me
tiravam o tato, preocupado em seguir a seqüência certa dos procedimentos,
confiro os instrumentos, verifico pela décima vez se a câmera submarina está presa
na alça do colete, engato o painel dos medidores no mosquetão próprio e giro a
coroa do relógio de mergulho.
Então vem a ordem: mergulhar!
Mergulhar! Polegares para baixo.
Caço a traquéia do colete e dreno
o ar que escapa sibilando. Então tudo se acalma e fica azulado. Iniciamos a
descida nos guiando pelo cabo que segue reto, tenso, desaparecendo nas sombras
das profundezas. Um caminho interminável, gelado e escuro.
Minha nossa! Ali está a torre do
U-171! A escotilha permanece aberta e os suportes dos dois periscópios, o de
ataque e de observação aérea, são perfeitamente visíveis. Neste último, a lente
está intacta, ainda brilhante após 68 anos de submersão e agora é a casa de uma
estrela do mar.
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| No interior da zentrale: timões e periscópio. |
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| Periscópio aéreo: agora é a casa de uma estrela-do-mar. |
Confiro os instrumentos:
profundidade na areia 42
metros e a temperatura da água 12°C. Um frio terrível!
O U-171 está cortado
transversalmente em um ponto ante-a-vante da torre. Interessante, é um corte
quase regular e isto deixa bem a vista a escotilha da zentrale, a sala de
controle. Lembra do eletrizante filme “Das Boot”, quando o U-96 realiza um
mergulho de emergência? Os marinheiros voam por esta escotilha em direção a
proa para aumentar o peso por lá e acelerar o mergulho.
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| Torre do U-171. |
A escotilha é grande e está
aberta. Assim não prenderá o meu cilindro ou as mangueiras. Com a
flutuabilidade neutra como de um peixe, nado lentamente através da escotilha.
Estou entrando através de um portal da História. Este é um grande momento da
minha vida de modesto mergulhador. Foi aqui que o Kapitänleutenant Pfeffer,
Cruz de Ferro de 1ª Classe, comandou seu submarino nas profundezas do Golfo do
México.
O foco da lanterna vai mostrando
uma desordem de placas, comandos, tubos, condutos e vigas. Não vejo vida
marinha a não ser uma pequena moréia preta que, assustada, logo se esconde
entre duas caixas de ferramentas. A água está mais gelada aqui dentro e sinto
uma sucessão arrepios.
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| Escotilha da zentrale. |
Estou fascinado! Ali estão o
periscópio e os timões dos lemes de profundidade, os de proa e os de popa. Tudo
está coberto por sedimentos marinhos e escamas de ferrugem. É necessário ter muito
cuidado em não levantar estes sedimentos ou prender o equipamento em cabeleiras
de fios que pendem do teto.
Procuro na massa gosmenta do
assoalho apodrecido algum prato com a águia e a suástica impressa. Que tal
achar um binóculo ou um equipamento de escape com o seu mini-cilindro, bocal e
colete? Meu Deus, e se eu encontrasse uma submetralhadora MP 40? Um sextante
seria o máximo, mas uma máquina Enigma, a consagração! Hummm, acho que até me
contentaria com um apito de marinheiro.
A vontade e a imaginação começam a
enganar os olhos. Ou não seria a narcose? Distingo uma pistola P38 sobre a
mesa. Não é nada, apenas uma sombra na lama submarina. Agora aparece em um
canto um osso humano. É uma tíbia! Não ouso tocar, penso no marinheiro que ali
ainda está. O guardião do U-171?
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| Restos humanos: uma sepultura submarina. |
O foco da lanterna esbarra em uma
caixa misteriosa. Pronto, ali está o meu sextante! Começo a planejar o golpe.
Como estou sem saco de coleta, terei de escondê-lo em algum lugar do colete ou
da roupa para não mostrar aos franceses.
Puxo a caixa com força, mas ao
invés do meu sextante é um caudal de lodo marrom que levanta. Uma nuvem de vasa
marinha, impalpável, mas cerradíssima. A visibilidade vai a zero! A luz da
lanterna é absorvida por uma nuvem de partículas apodrecidas e chego a sentir o
gosto acre de ferrugem.
Estou cego, estou perdido dentro
de um U-Boot, a 42 metros,
no fundo de areia branca do Golfo de Biscaia! Misericórdia!
Navego perto da linha do pânico.
O medo físico é uma coisa atroz, mas agora é necessário, é preciso manter a
calma! Tudo que aprendi em anos de mergulhos começa a desfilar na mente, fico
imóvel na escuridão. Deitado no chão, sinto a lama macia e gelada na barriga. É
desagradável. Não existe a possibilidade de gritar para os meus companheiros
que estão fora da sala de controle. Eu terei de me safar sozinho.
E meu ar? Minha mãe! Sinto que
estou respirando mais rápido, gastando sem controle. Que morte horrível!
Quieto, quieto! Espere os
sedimentos baixarem, seu infeliz. Finalmente vejo um lampejo amarelado de
lanterna à frente e parte da borda redonda da escotilha. Sei lá quanto tempo
permaneci aterrorizado. Reajo instintivamente e em um salto, nado em direção a
luz. É o Hugues quem esta lá fora. Em segundos me recupero e sem que ninguém
perceba o meu pavor, junto-me o grupo que agora vai iniciar a subida.
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| Torpedo encontrado na popa. |
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| Na escotilha de ressuprimento de torpedos de popa. |
Tinham retornado da popa do U-Boot
onde exploraram a escotilha de carregamento de torpedos e até acharam um deles.
Bem, quanto a mim, sem Walther P38, binóculo, prato com suástica, Enigma ou
sextante, nada, só a emoção. Puxa vida, isto só acontece em filme ou livros.
Juntos, pelo cabo, iniciamos a
longa subida. Felizmente ninguém percebeu o que aconteceu comigo. Ainda haverá
uma parada de segurança pelo caminho e tenho tempo para pensar sobre o nosso
mergulho. Ele já estava ali, no fundo, uma sepultura militar, antes mesmo de eu
nascer. Mesmo desmantelado por uma morte violenta, é elegante e letal, com as
quinas arredondadas do casco cobertas de vida marinha. É emocionante.
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| Logo após o mergulho no U-boot: Philippe Marie, Nestor, Hugues e Jean-Claude. |
Então deixamo-lo em paz. Uma máquina de
destruição legendária e que repousará como uma catacumba submarina, calma, serena
e com seus segredos, até ser absorvida pelo tempo.
Nestor Magalhães
Fotos: arquivo do autor e arquivo de Jean-Louis Maurette. Desenho (topo) de O. Brichet.
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